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CancaodaFloresta

segunda-feira, 13 de julho de 2009

barra blog02Intolerantes em nome de Deus

Thiago Azevedo e Rosinda Miranda

“Felizes os que agem em prol da paz; eles serão chamados filhos de Deus” Mateus 5.9


Vivemos num mundo carregado de intolerâncias, seja religiosa, ou simplesmente de opinião sobre qualquer coisa e a semelhança entre esses processos está no fato de que todos asseguram pra si a detenção da verdade e a falta de solidariedade com o diferente é outro aspecto muito forte nesses casos de intolerância. Mas afinal o que significa intolerância?

Segundo o dicionário Michaelis, Intolerância, intolerante, e intolerável é a qualidade de não ser tolerante ou de ser insuportável. Resolvi ir um pouco além e verificar o significado de insuportável que além dos títulos acima citados, acrescente muito incômodo ou molesto e por aí se segue a grande lista de classificações para o ser que é intolerante.

O 11 de setembro é marcado por atos de intolerância de ambas as partes, tanto dos que atingiram as torres gêmeas, quanto da população que passou a discriminar os de origem mulçumana e principalmente do governo que declarou guerra a todo ao Afeganistão, levando uma onda de terror ainda maior para um povo que já sofria as conseqüências da intolerância de seu governo opressor, Al Quaeda.

Ou também na Irlanda quando Protestantes e Católicos se massacram em nome de Deus, nesse caso temos Bono Vox cantando Sunday Blood Sunday, ou seja Domingo de Sangue, ou sangrento, onde estamos dispostos a derramar sangue, do outro, em nome de Deus. Nas cruzadas temos cristãos matando mulçumanos, na inquisição uma perseguição declarada aos precursores do Iluminismo. No Brasil temos a perseguição aos cultos afros na Bahia, onde terreiros são destruídos, e pessoas violentadas e mortas em nome de um deus intolerante também com a cultura. Índios foram mortos em nome de Deus, por não se “converterem” ao deus ocidental cristão.

Nas metrópoles temos inúmeros casos de intolerâncias cruéis contra centros espíritas, contra os homossexuais, contra tudo e a todos, até mesmo evangélicos brigando entre si por um pedaço maior neste bolo, e já basta o que já sofremos nas mãos da ditadura militar, através da intolerância contra a liberdade de se pensar e viver. Agora agimos através da ditadura da fé, com nossas militâncias armadas, seja através de violência física ou psicológica, no fim, os tempos de inquisição nunca acabaram só mudaram de nome. Sempre há quem se perseguir em nome de Deus. Realmente o título do livro, Caçadores de Deus, faz sentido, pois o mundo se tornou uma grande savana, onde o diferente é alvo de nossas “armas espirituais”, pronto para ser atocaiado e morto para ter exposta “sua cabeça” como um troféu nas paredes de nossas igrejas.

O contexto de Jesus também é marcado por intolerâncias, principalmente por parte daqueles que se diziam zelosos para com a lei, que sempre armavam contra Jesus e encontra-lo em contradição, mas por outro lado o mestre, através do sermão do monte mostra que esse estado de intolerância é nocivo à fé, pois é baseada numa questão pessoal e de vaidade, pois nesse processo me torno incapaz seguir o maior e mais inviolável dos mandamentos de Deus, amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a nós mesmos.

O sermão do monte serve também como um tratado para uma verdadeira vida religiosa, não baseada nos institucionalismos, mas no religare, ou seja, do religar a Deus. E lendo as bem-aventuranças vemos que há um processo condicional em todas as outras, pois para ser pacificador, antes você deve ter um espírito misericordioso e para isso, deve-se se fazer um pobre em espírito, aquele que não usurpa pra si autoridade de ser alguém, ser um detentor absoluto da verdade, mas ser aquele que dialoga e faz empatia pelo outro, e isso não quer dizer abrir mão do que pensa, mas aceitar que existe outra forma de pensar diferente da sua. So lemb

Pense um pouco, em todos os problemas que temos hoje no mundo não são ocasionados pela intolerância de alguém? A fome, a miséria, a destruição do planeta, as mortes ocasionadas em nome tanto de ideais, ou mesmo em nome de deus? Não é conseqüência de sempre haver aqueles que são proprietários únicos de alguma coisa? Da terra, do dinheiro, dos alimenos, dos bens e até de deus? Agora imagine se todos parassem de digladiar em nome de Deus e resolvêssemos agir em prol desses problemas do mundo, o nome de Cristo não seria mais exaltado no mundo e ele acabaria sendo já conhecido em toda a Terra?

Se brigamos com o ateísmo da forma como o fazemos é justamente por que no fundo, no fundo eles tem razão, Deus deixa de existir justamente porque somos intolerantes demais para poder fazer o mundo descobrir que esse Deus é amor e deixamos de viver pelo princípio básico da fé que está no sermão do monte. Acabamos utilizando esta mensagem apenas como um manual para sermos felizes na terra, mas não como algo que deve ser feito pela terra, entre uma coisa e outra existe uma diferença gritante.

Deus nos colocou como responsáveis pela terra, por isso devemos ser sal e a luz do mundo, pois o sal representa equilíbrio, o que na verdade não somos e nem de fato buscamos ser, se existisse equilíbrio entre os cristãos, estaríamos juntos lutando em prol desse Reino de Deus na terra e não divididos, no fim, estamos fazendo aquilo que Jesus disse sobre o reino dividido.

"E, se um reino se dividir contra si mesmo, tal reino não pode subsistir; E, se uma casa se dividir contra si mesma, tal casa não pode subsistir."
Marcos 3.24, 25

Agir nesse processo de desequilíbrio não faz de nós merecedores do Reino, justamente porque não somos capazes de nos amar, muito pelo contrário, sempre estamos armados esperando o próximo golpe e simplesmente não aceitamos o fato de que exista alguém que possa pensar diferente de nós. As pessoas não vão se convencer por causa de nossa agressividade, ou da nossa argumentação áspera sobre as coisas de Deus, ou da tal sã doutrina que na nossa forma de falá-la ou vivencia-la não tem nada de sã, mas através do que fazemos em prol do outro. Isso faz toda a diferença no Reino. Se Jesus tivesse simplesmente se detido em ficar discutindo com os fariseus e saduceus, tentando provar o que era o reino de Deus, as pessoas não seriam transformadas por sua ação.

Não é atoa que a primeira bem-aventurança é ser pobre em espírito, justamente porque, não há como ser as demais se eu não me colocar na condição de miserável em espírito, ou seja, é aquilo que chamamos de tratado socrático: “Só sei que nada sei”. Devemos assumir isso diante de Deus, pois segundo Isaías, não podemos conhecer os procedimentos de Deus, ou dizer que isso é ou não de Deus, apenas devemos amar. Quando os discípulos quiseram impedir outros discípulos que não andavam com ele ou com João Batista de batizar Jesus agiu de outra forma, utilizando a tolerância com o outro. Temos outros casos onde Jesus teve que agir de forma pacificadora ensinando os discípulos a não serem intolerantes.

Há muito a ser feito, o próprio Cristo disse isso, mas poucos estão dispostos a se abdicar de seu “direito de ter razão” sobre a verdade que apregoam a si, seja em forma de denominação, ou seja em forma de posição pessoal, mas todas nocivas à fé e ao exercício do amor. Se me perguntarem, sou contra aos institucionalismos, mas no fundo, acabam sendo necessários, para se organizar nossas ações. Agora, quando adotamos a mesma postura que torcidas de futebol, que agem de forma agressiva em relação a outros times, a outras denominações, deixamos Deus de lado e agimos em causa própria.

Lembro-me de quando era novo na fé, e acreditava piamente que ela só se desenvolvia através de uma religião, uma denominação, e isso me tornou uma pessoa extremamente intolerante para com todos, seja os próprios membros de minha igreja, pois não aceitavam pessoas que não agissem da mesma forma como agia, minha família, queria que eles aceitassem à força “minha verdade” e que eram destinados ao inferno por causa disso, outras denominações justamente porque pensava que minha interpretação bíblica era a mais adequada e mais verdadeira e com isso fiz inimigos, me encontrei num esgotamento espiritual muito grande e me tornei intolerante comigo mesmo, isso trouxe muitos problemas a minha vida e nunca havia encontrado a paz.

Hoje, procuro viver uma fé que se desenvolve a partir da existência de outros que são diferentes de mim e tentar ver em tudo isso o que Paulo chama de “multiforme Graça”, justamente porque devemos encarar a eclesia como um corpo, muitas partes e nenhuma igual a outra, nenhuma melhor do que a outra, todas necessárias para a existência da vida. Nesse espírito se faz aqueles que são pacificadores, assim Deus não se torna um deus de confusão.

Enquanto estivermos espalhando, não podemos ver o nome de Cristo crescer na Terra e assim o sofrimento do mundo se torna maior, pois a crise do mundo começa com o desequilíbrio do órgão vivo de Cristo, a igreja. Quando deixamos de fazer diferença no mundo através do que fazemos e não do que falamos, nos tornamos o sal dispensável, pois se torna insosso, incapaz de dar sabor, incapaz de dar equilíbrio as coisas.

"E, respondendo João, disse: Mestre, vimos um que em teu nome expulsava os demônios, e lho proibimos, porque não te segue conosco. E Jesus lhes disse: Não o proibais, porque quem não é contra nós é por nós." Lucas 9.49, 50

Jesus nos convida a viver uma vida com equilíbrio, pois o amor de Deus é baseado nisso, um amor que é inclusivo, nos aceita da forma que somos e como estamos, mesmo através da diversidade existente nesse mundo cristão, e nos remete ao que Atanásio diz em seu credo: “Unidade na diversidade”, para que assim vivamos o resultado da oração de Jesus por nós, “Para que todos sejam um” no amor e no espírito de Cristo. Quando agirmos assim, o reino com toda a certeza, será algo palpável neste mundo, pois ele se iniciará no coração de todos e não apenas para um futuro próximo na vinda de nosso amado Mestre.

“Eis que estou à porta e bato...” é o que diz para nós hoje, igreja e não para os que não conhecem a mensagem do reino, será que isso não é uma mensagem forte demais para sabermos que da forma como agimos, Cristo não está em nós e nós Nele?

O grande desejo de Jesus não era que todos o conheçam apenas, mas que aprendamos a viver em unidade de espírito, apesar das diferenças, apesar de sermos humanos, vivermos irmanados em paz.

“Felizes os que agem em prol da paz; eles serão chamados filhos de Deus”.

Que Deus nos abençoe

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