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segunda-feira, 30 de novembro de 2009
O Mar de Maria
Rubem Alves
Eu não sei como ela se chamava. Por isso vou batizá-la de Maria.
Maria, tão perto, na palma da minha mão;
Maria tão longe, mãe de Deus nas alturas;
Maria, nome de toda mulher...
Mas, neste caso, mais Maria, porque enquanto vivia via que para o mar ia... Aquele mar de mistérios de onde emerge a poética de Cecília Meireles. Mar profundo de onde surgem os símbolos do Garcia Marques. Mar dos liquens, da fluidez, do eterno ir e vir, da reconciliação em que a gota se descobre na onda....
Foi assim. Maria, um dia ouviu o chamado do mar. E foi. Para não voltar mais. E agora tudo acontece inútil...
Nunca vi a Maria. Como já disse, nem sei como ela se chamava, nem de que cores eram seus olhos e cabelos, e não sei se ela gostava de pores de sol e borboletas. Como é curioso que um rosto estranho possa atrair. Para aqueles para quem amor é uma questão de visão, de toque, de presença, isto pode parecer loucura. Talvez eu seja louco. Mas o fato é que amo pessoas que nunca vi, pois já morreram, e pessoas que nunca vi porque não nasceram.
Amo os precursores, que andaram pela primeira vez pelos caminhos por que hoje ando, e deixaram suas marcas nas árvores que foram plantadas (sem que tivessem, eles mesmos podido assentar-se à sua sombra) e nas palavras que foram escritas e que ainda hoje ouvimos como testemunhos do passado. Amo, por outro lado, aqueles para quem espero ser um precursor, e em cada gesto, podem crer, existe um pouco de amor por aqueles que virão.
Houve tempos negros, Maria, em que o seu ato provocaria o tremor de santos e pecadores, e as portas das igrejas e dos túmulos se fechariam em horror. Os vivos continuariam a matá-la mesmo depois de sua morte. Levou muito tempo para que aprendêssemos que o horror era uma confissão de que o seu gesto era bem nosso, terrivelmente nosso. Demônios ausentes não provocam medo e nem precisam ser exorcizados. É quando o demônio mora em casa que o seu nome não pode ser pronunciado... Ele poderia acordar... Se os homens fechavam os olhos e as mulheres se calavam, era porque reconheciam a fraternidade que os unia com você. E isto, Maria você é nossa irmã. A diferença está em que enquanto esperamos que o mar nos engula, você, Maria foi ao seu encontro, triste e irremediavelmente.
Maria, seu gesto foi uma mensagem – mensagem que se desprende também de cada pessoa, em cada tristeza, em cada pergunta sobre o sentido da vida. Eu me lembrei de Camus, O mito de Sísifo. Camus também foi um amigo seu, que procurou entender o seu gesto antes que ele acontecesse. O que está em jogo é o sentido da vida. A vida vale a pena? Para quê? Estas, Maria são questões que todos nos colocamos. Mas as colocamos covardemente, com medo, e as sufocamos debaixo do trabalho, da caderneta de poupança, da novela, da religião. Como você, Maria, todos tememos e todos nos perguntamos se vale a pena viver – num sussurro.
Mas eu gostaria de ter podido ser seu companheiro na sua dor. Talvez você tenha mergulhado no mar por não ter sido possível mergulhar no amor. A solidão, o silêncio, a palavra sem volta – e a gente olha e vê as máscaras e as pedras. Mas Maria, você não precisava ter ido. E era isto que eu queria dizer. O canto das cigarras é belo, as nuvens continuam a dançar, há crianças brincando de “eu sou filha de carpinteiro da marré, marré, marré”, nada, nem mesmo os deuses, poderão apagar o fato de que Beethoven escreveu a nona sinfonia e o adágio da sonata ao luar... Você me perguntaria: mas isto tem sentido? E eu lhe perguntaria, nas palavras de um homem a quem amo, Nietzsche : “Por que será necessário olhar primeiro atrás das estrelas para só depois viver a vida?” É necessário não pedir da vida o que ela não pode dar.
Queremos que ela nos gere deuses, quando ela só nos pode oferecer filhos pequenos, fracos e mortais. Não, Maria, “como dois e dois são quatro sei que a vida vale a pena”... Não que eu tenha andado atrás das estrelas. É apenas o conselho da sabedoria de um velho feiticeiro índio, D. Juan. Quando lhe perguntaram que caminho a sua sabedoria dizia que deveríamos seguir, respondeu: “Não importa. Todos os caminhos conduzem ao mesmo lugar. Escolhe, portanto, o caminho do amor.” Você já chegou a este “mesmo lugar”. Mas o seu grito ficou e, quem sabe, ele ensinará mais amor a alguém...
* * *
Uma leitora, picada pela minha referência ao discurso de Zaratustra, pediu-me que eu dissesse mais aquilo que ele disse ao povo que se ajuntara na praça para ver o espetáculo do equilibrista. O texto é longo. Não posso transcrevê-lo todo. Vão alguns aperitivos. “Eu lhes ensino o homem transbordante. Na verdade o homem é um rio poluído. É preciso ser um mar para receber um rio poluído sem ficar impuro. Eu lhes ensino o homem transbordante. Ele é o mar. Ele é um relâmpago, um frenesi. O homem é uma corda amarrada entre a besta e o homem transbordante – uma corda sobre o abismo. O que há de grande no homem é que ele é uma ponte e não um fim: o que pode ser amado no homem é que ele é uma abertura e um mergulho. Eu amo aqueles que não precisam primeiro olhar atrás das estrelas para encontrar uma razão para mergulhar e se transformarem num sacrifício, mas que se sacrificam livremente pela terra... Eu amo aquele que não quer ter muitas virtudes. Uma virtude é mais que duas... Eu amo aquele que tem um espírito livre e um coração livre porque assim sua cabeça nada mais é que as entranhas do seu coração... É chegado o tempo para o homem plantar a semente de sua esperança mais alta. O seu solo ainda é rico o bastante. Mas um dia o solo ficará pobre e domesticado e nenhuma árvore alta será capaz de crescer nele. O tempo está chegando em que o homem não mais será capaz de lançar a flecha da sua nostalgia além de si mesmo e a corda do seu arco se esquecerá de como vibrar. O tempo está chegando quando o homem não mais será capaz de dar à luz uma estrela. Nenhum pastor! Um grande rebanho. Todos desejam a mesma coisa. Quem quer que tenha sentimentos diferentes vai voluntariamente para o hospício de loucos. Eu vim para seduzir muitos a sair do rebanho. Veio-me então uma iluminação: preciso de companheiros – não de companheiros mortos e cadáveres que carrego comigo por onde quer que eu vá. Preciso de companheiros vivos que me seguem porque desejam seguir a si mesmos... Nunca mais falarei ao povo. Não sou boca para esses ouvidos. Falei pela última vez aos mortos...”
Publicado no Correio Popular 03/04/2005
Via Casa do Rubem Alves
“Mas, neste espelho, no fundo
desta fria luz marinha,
como dois baços peixes,
nadam meus olhos à minha procura.
Ando contigo, e sozinha...”
Cecília Meireles
Eu não sei como ela se chamava. Por isso vou batizá-la de Maria.
Maria, tão perto, na palma da minha mão;
Maria tão longe, mãe de Deus nas alturas;
Maria, nome de toda mulher...
Mas, neste caso, mais Maria, porque enquanto vivia via que para o mar ia... Aquele mar de mistérios de onde emerge a poética de Cecília Meireles. Mar profundo de onde surgem os símbolos do Garcia Marques. Mar dos liquens, da fluidez, do eterno ir e vir, da reconciliação em que a gota se descobre na onda....
Foi assim. Maria, um dia ouviu o chamado do mar. E foi. Para não voltar mais. E agora tudo acontece inútil...
Nunca vi a Maria. Como já disse, nem sei como ela se chamava, nem de que cores eram seus olhos e cabelos, e não sei se ela gostava de pores de sol e borboletas. Como é curioso que um rosto estranho possa atrair. Para aqueles para quem amor é uma questão de visão, de toque, de presença, isto pode parecer loucura. Talvez eu seja louco. Mas o fato é que amo pessoas que nunca vi, pois já morreram, e pessoas que nunca vi porque não nasceram.
Amo os precursores, que andaram pela primeira vez pelos caminhos por que hoje ando, e deixaram suas marcas nas árvores que foram plantadas (sem que tivessem, eles mesmos podido assentar-se à sua sombra) e nas palavras que foram escritas e que ainda hoje ouvimos como testemunhos do passado. Amo, por outro lado, aqueles para quem espero ser um precursor, e em cada gesto, podem crer, existe um pouco de amor por aqueles que virão.
Houve tempos negros, Maria, em que o seu ato provocaria o tremor de santos e pecadores, e as portas das igrejas e dos túmulos se fechariam em horror. Os vivos continuariam a matá-la mesmo depois de sua morte. Levou muito tempo para que aprendêssemos que o horror era uma confissão de que o seu gesto era bem nosso, terrivelmente nosso. Demônios ausentes não provocam medo e nem precisam ser exorcizados. É quando o demônio mora em casa que o seu nome não pode ser pronunciado... Ele poderia acordar... Se os homens fechavam os olhos e as mulheres se calavam, era porque reconheciam a fraternidade que os unia com você. E isto, Maria você é nossa irmã. A diferença está em que enquanto esperamos que o mar nos engula, você, Maria foi ao seu encontro, triste e irremediavelmente.
Maria, seu gesto foi uma mensagem – mensagem que se desprende também de cada pessoa, em cada tristeza, em cada pergunta sobre o sentido da vida. Eu me lembrei de Camus, O mito de Sísifo. Camus também foi um amigo seu, que procurou entender o seu gesto antes que ele acontecesse. O que está em jogo é o sentido da vida. A vida vale a pena? Para quê? Estas, Maria são questões que todos nos colocamos. Mas as colocamos covardemente, com medo, e as sufocamos debaixo do trabalho, da caderneta de poupança, da novela, da religião. Como você, Maria, todos tememos e todos nos perguntamos se vale a pena viver – num sussurro.
Mas eu gostaria de ter podido ser seu companheiro na sua dor. Talvez você tenha mergulhado no mar por não ter sido possível mergulhar no amor. A solidão, o silêncio, a palavra sem volta – e a gente olha e vê as máscaras e as pedras. Mas Maria, você não precisava ter ido. E era isto que eu queria dizer. O canto das cigarras é belo, as nuvens continuam a dançar, há crianças brincando de “eu sou filha de carpinteiro da marré, marré, marré”, nada, nem mesmo os deuses, poderão apagar o fato de que Beethoven escreveu a nona sinfonia e o adágio da sonata ao luar... Você me perguntaria: mas isto tem sentido? E eu lhe perguntaria, nas palavras de um homem a quem amo, Nietzsche : “Por que será necessário olhar primeiro atrás das estrelas para só depois viver a vida?” É necessário não pedir da vida o que ela não pode dar.
Queremos que ela nos gere deuses, quando ela só nos pode oferecer filhos pequenos, fracos e mortais. Não, Maria, “como dois e dois são quatro sei que a vida vale a pena”... Não que eu tenha andado atrás das estrelas. É apenas o conselho da sabedoria de um velho feiticeiro índio, D. Juan. Quando lhe perguntaram que caminho a sua sabedoria dizia que deveríamos seguir, respondeu: “Não importa. Todos os caminhos conduzem ao mesmo lugar. Escolhe, portanto, o caminho do amor.” Você já chegou a este “mesmo lugar”. Mas o seu grito ficou e, quem sabe, ele ensinará mais amor a alguém...
* * *
Uma leitora, picada pela minha referência ao discurso de Zaratustra, pediu-me que eu dissesse mais aquilo que ele disse ao povo que se ajuntara na praça para ver o espetáculo do equilibrista. O texto é longo. Não posso transcrevê-lo todo. Vão alguns aperitivos. “Eu lhes ensino o homem transbordante. Na verdade o homem é um rio poluído. É preciso ser um mar para receber um rio poluído sem ficar impuro. Eu lhes ensino o homem transbordante. Ele é o mar. Ele é um relâmpago, um frenesi. O homem é uma corda amarrada entre a besta e o homem transbordante – uma corda sobre o abismo. O que há de grande no homem é que ele é uma ponte e não um fim: o que pode ser amado no homem é que ele é uma abertura e um mergulho. Eu amo aqueles que não precisam primeiro olhar atrás das estrelas para encontrar uma razão para mergulhar e se transformarem num sacrifício, mas que se sacrificam livremente pela terra... Eu amo aquele que não quer ter muitas virtudes. Uma virtude é mais que duas... Eu amo aquele que tem um espírito livre e um coração livre porque assim sua cabeça nada mais é que as entranhas do seu coração... É chegado o tempo para o homem plantar a semente de sua esperança mais alta. O seu solo ainda é rico o bastante. Mas um dia o solo ficará pobre e domesticado e nenhuma árvore alta será capaz de crescer nele. O tempo está chegando em que o homem não mais será capaz de lançar a flecha da sua nostalgia além de si mesmo e a corda do seu arco se esquecerá de como vibrar. O tempo está chegando quando o homem não mais será capaz de dar à luz uma estrela. Nenhum pastor! Um grande rebanho. Todos desejam a mesma coisa. Quem quer que tenha sentimentos diferentes vai voluntariamente para o hospício de loucos. Eu vim para seduzir muitos a sair do rebanho. Veio-me então uma iluminação: preciso de companheiros – não de companheiros mortos e cadáveres que carrego comigo por onde quer que eu vá. Preciso de companheiros vivos que me seguem porque desejam seguir a si mesmos... Nunca mais falarei ao povo. Não sou boca para esses ouvidos. Falei pela última vez aos mortos...”
Publicado no Correio Popular 03/04/2005
Via Casa do Rubem Alves
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Crônicas Cristãs
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Dois anos...
Thiago Azevedo
Para esses dois anos de Blog, não consigo pensar em outro texto que fale tão alto a essência deste humilde blog que não o poema 91 do livro dos saltérios.
Esse poema tão belo sobre a beleza de um Deus que cuida e protege a quem ama. Para este dia de festa para o Descanso, não leiam este salmo, declamem e deixem que a poesia de seus versos penetrem em suas almas e a alma do poeta lhe inspire a vivenciar a vida de forma bela e maravilhosa e com isso possamos desfrutar da sombra do Altíssimo e nela descansar. No vento, na chuva, no dia ou na noite, em qualquer lugar.
Para este dia de alegria, meus votos é que possamos nos maravilhar cada vez mais diante da vida, diante da beleza do mundo, ouvindo uma bela canção. Louvar a Deus com Chico, Milton, Beto Guedes, Jorge Camargo, Rheder, João Alexandre, Stenio Marcius e muitos outros.
Obrigado a todos por esses maravilhosos dias de contemplação, exortação e poesia.
Abraços, Paz e bem.
Para esses dois anos de Blog, não consigo pensar em outro texto que fale tão alto a essência deste humilde blog que não o poema 91 do livro dos saltérios.
"Aquele que habita no esconderijo do Altíssimo, à sombra do Onipotente descansará.
Direi do SENHOR: Ele é o meu Deus, o meu refúgio, a minha fortaleza, e nele confiarei.
Porque ele te livrará do laço do passarinheiro, e da peste perniciosa.
Ele te cobrirá com as suas penas, e debaixo das suas asas te confiarás; a sua verdade será o teu escudo e broquel.
Não terás medo do terror de noite nem da seta que voa de dia,
Nem da peste que anda na escuridão, nem da mortandade que assola ao meio-dia.
Mil cairão ao teu lado, e dez mil à tua direita, mas não chegará a ti.
Somente com os teus olhos contemplarás, e verás a recompensa dos ímpios.
Porque tu, ó SENHOR, és o meu refúgio. No Altíssimo fizeste a tua habitação.
Nenhum mal te sucederá, nem praga alguma chegará à tua tenda.
Porque aos seus anjos dará ordem a teu respeito, para te guardarem em todos os teus caminhos.
Eles te sustentarão nas suas mãos, para que não tropeces com o teu pé em pedra.
Pisarás o leão e a cobra; calcarás aos pés o filho do leão e a serpente.
Porquanto tão encarecidamente me amou, também eu o livrarei; pô-lo-ei em retiro alto, porque conheceu o meu nome.
Ele me invocará, e eu lhe responderei; estarei com ele na angústia; dela o retirarei, e o glorificarei.
Fartá-lo-ei com longura de dias, e lhe mostrarei a minha salvação."
Esse poema tão belo sobre a beleza de um Deus que cuida e protege a quem ama. Para este dia de festa para o Descanso, não leiam este salmo, declamem e deixem que a poesia de seus versos penetrem em suas almas e a alma do poeta lhe inspire a vivenciar a vida de forma bela e maravilhosa e com isso possamos desfrutar da sombra do Altíssimo e nela descansar. No vento, na chuva, no dia ou na noite, em qualquer lugar.
Para este dia de alegria, meus votos é que possamos nos maravilhar cada vez mais diante da vida, diante da beleza do mundo, ouvindo uma bela canção. Louvar a Deus com Chico, Milton, Beto Guedes, Jorge Camargo, Rheder, João Alexandre, Stenio Marcius e muitos outros.
Obrigado a todos por esses maravilhosos dias de contemplação, exortação e poesia.
Abraços, Paz e bem.
Dois anos do Descanso e presente para vocês
O Descanso da Alma faz dois anos hoje e é com muito orgulho que estou nesta caminhada e vejo o quanto caminhamos e pudemos compartilhar, como diz Gibran, o melhor que podemos doar é um pouco de nós mesmos, por isso, quero disponibilizar para download um e-book das crônicas escritas neste último ano para que vocês desfrutem e saciem com as reflexões feitas neste km que passou.
Abraços a todos e obrigado pelo apoio e vamos para o próximo km a ser percorrido.

Clique aqui para fazer o Download
Abraços a todos e obrigado pelo apoio e vamos para o próximo km a ser percorrido.

Clique aqui para fazer o Download
sexta-feira, 27 de novembro de 2009
Do Mundo Virtual ao Espiritual
Frei Betto
"Ao viajar pelo Oriente, mantive contatos com monges do Tibete, da Mongólia, do Japão e da China. Eram homens serenos, comedidos, recolhidos em paz em seus mantos cor de açafrão. Outro dia, eu observava o movimento do aeroporto de São Paulo: a sala de espera cheia de executivos com telefones celulares, preocupados, ansiosos, geralmente comendo mais do que deviam. Com certeza, já haviam tomado café da manhã em casa, mas como a companhia aérea oferecia um outro café, todos comiam vorazmente. Aquilo me fez refletir: "Qual dos dois modelos produz felicidade?" Encontrei Daniela, 10 anos, no elevador, às nove da manhã, e perguntei: "Não foi à aula?" Ela respondeu: "Não, tenho aula à tarde". Comemorei: "Que bom, então de manhã você pode brincar, dormir até mais tarde". "Não", retrucou ela, "tenho tanta coisa de manhã..." "Que tanta coisa?", perguntei. "Aulas de inglês, de balé, de pintura, piscina", e começou a elencar seu programa de garota robotizada. Fiquei pensando: "Que pena, a Daniela não disse "tenho aula de meditação"! Estamos construindo super-homens e super-mulheres, totalmente equipados, mas emocionalmente infantilizados. Por isso, as empresas consideram agora que, mais importante que o QI, é a IE, a Inteligência Emocional. Não adianta ser um super-executivo se não consegue se relacionar com as pessoas. Ora, como seria importante os currículos escolares incluírem aulas de meditação! Uma progressista cidade do interior de São Paulo tinha, em 1960, seis livrarias e uma academia de ginástica; hoje, tem sessenta academias de ginástica e três livrarias! Não tenho nada contra malhar o corpo, mas me preocupo com a desproporção em relação à malhação do espírito. Acho ótimo, vamos todos morrer esbeltos: "Como estava o defunto"? "Olha, uma maravilha, não tinha uma celulite"! Mas como fica a questão da subjetividade? Da espiritualidade? Da ociosidade amorosa? Outrora, falava-se em realidade: análise da realidade, inserir-se na realidade, conhecer a realidade. Hoje, a palavra é virtualidade. Tudo é virtual. Pode-se fazer sexo virtual pela internet: não se pega Aids, não há envolvimento emocional, controla-se no mouse. Trancado em seu quarto, em Brasília, um homem pode ter uma amiga íntima em Tóquio, sem nenhuma preocupação de conhecer o seu vizinho de prédio ou de quadra! Tudo é virtual, entramos na virtualidade de todos os valores, não há compromisso com o real! É muito grave esse processo de abstração da linguagem, de sentimentos: somos místicos virtuais, religiosos virtuais, cidadãos virtuais. Enquanto isso, a realidade vai por outro lado, pois somos também eticamente virtuais. A cultura começa onde a natureza termina. Cultura é o refinamento do espírito. Televisão, no Brasil - com raras e honrosas exceções - é um problema: a cada semana que passa temos a sensação de que ficamos um pouco menos cultos. A palavra hoje é ‘entretenimento’; domingo, então, é o dia nacional da imbecilização coletiva. Imbecil o apresentador, imbecil quem vai lá e se apresenta no palco, imbecil quem perde a tarde diante da tela. Como a publicidade não consegue vender felicidade, passa a ilusão de que felicidade é o resultado da soma de prazeres: "Se tomar este refrigerante, vestir este tênis, usar esta camisa, comprar este carro, você chega lá!" O problema é que, em geral, não se chega! Quem cede, desenvolve de tal maneira o desejo que acaba precisando de um analista. Ou de remédios. Quem resiste, aumenta a neurose. Os psicanalistas tentam descobrir o que fazer com o desejo dos seus pacientes. Colocá-los aonde? Eu, que não sou da área, posso me dar o direito de apresentar uma sugestão. Acho que só há uma saída: virar o desejo para dentro. Porque para fora ele não tem aonde ir! O grande desafio é virar o desejo para dentro, gostar de si mesmo, começar a ver o quanto é bom ser livre de todo esse condicionamento globalizante, neoliberal, consumista. Assim, pode-se viver melhor. Aliás, para uma boa saúde mental três requisitos são indispensáveis: amizades, auto-estima, ausência de estresse. Há uma lógica religiosa no consumismo pós-moderno. Se alguém vai à Europa e visita uma pequena cidade onde há uma catedral, deve procurar saber a história daquela cidade - a catedral é o sinal de que ela tem história. Na Idade Média, as cidades adquiriam status construindo uma catedral; hoje, no Brasil, constrói-se um shopping center. É curioso: a maioria dos shopping centers tem linhas arquitetônicas de catedrais estilizadas; neles não se pode ir de qualquer maneira, é preciso vestir roupa de missa de domingo. E ali dentro sente-se uma sensação paradisíaca: não há mendigos, crianças de rua, sujeira pelas calçadas... Entra-se naqueles claustros ao som do gregoriano pós-moderno, aquela musiquinha de esperar dentista. Observam-se os vários nichos, todas aquelas capelas com os veneráveis objetos de consumo, acolitados por belas sacerdotisas. Quem pode comprar à vista, sente-se no reino dos céus. Se deve passar cheque pré-datado, pagar a crédito, entrar no cheque especial, sente-se no purgatório. Mas se não pode comprar, certamente vai se sentir no inferno... Felizmente, terminam todos na eucaristia pós-moderna, irmanados na mesma mesa, com o mesmo suco e o mesmo hambúrguer do McDonald’s… Costumo advertir os balconistas que me cercam à porta das lojas: "Estou apenas fazendo um passeio socrático." Diante de seus olhares espantados, explico: "Sócrates, filósofo grego, também gostava de descansar a cabeça percorrendo o centro comercial de Atenas. Quando vendedores como vocês o assediavam, ele respondia: "Estou apenas observando quanta coisa existe de que não preciso para ser feliz".
Via Blog Scheinman
"Ao viajar pelo Oriente, mantive contatos com monges do Tibete, da Mongólia, do Japão e da China. Eram homens serenos, comedidos, recolhidos em paz em seus mantos cor de açafrão. Outro dia, eu observava o movimento do aeroporto de São Paulo: a sala de espera cheia de executivos com telefones celulares, preocupados, ansiosos, geralmente comendo mais do que deviam. Com certeza, já haviam tomado café da manhã em casa, mas como a companhia aérea oferecia um outro café, todos comiam vorazmente. Aquilo me fez refletir: "Qual dos dois modelos produz felicidade?" Encontrei Daniela, 10 anos, no elevador, às nove da manhã, e perguntei: "Não foi à aula?" Ela respondeu: "Não, tenho aula à tarde". Comemorei: "Que bom, então de manhã você pode brincar, dormir até mais tarde". "Não", retrucou ela, "tenho tanta coisa de manhã..." "Que tanta coisa?", perguntei. "Aulas de inglês, de balé, de pintura, piscina", e começou a elencar seu programa de garota robotizada. Fiquei pensando: "Que pena, a Daniela não disse "tenho aula de meditação"! Estamos construindo super-homens e super-mulheres, totalmente equipados, mas emocionalmente infantilizados. Por isso, as empresas consideram agora que, mais importante que o QI, é a IE, a Inteligência Emocional. Não adianta ser um super-executivo se não consegue se relacionar com as pessoas. Ora, como seria importante os currículos escolares incluírem aulas de meditação! Uma progressista cidade do interior de São Paulo tinha, em 1960, seis livrarias e uma academia de ginástica; hoje, tem sessenta academias de ginástica e três livrarias! Não tenho nada contra malhar o corpo, mas me preocupo com a desproporção em relação à malhação do espírito. Acho ótimo, vamos todos morrer esbeltos: "Como estava o defunto"? "Olha, uma maravilha, não tinha uma celulite"! Mas como fica a questão da subjetividade? Da espiritualidade? Da ociosidade amorosa? Outrora, falava-se em realidade: análise da realidade, inserir-se na realidade, conhecer a realidade. Hoje, a palavra é virtualidade. Tudo é virtual. Pode-se fazer sexo virtual pela internet: não se pega Aids, não há envolvimento emocional, controla-se no mouse. Trancado em seu quarto, em Brasília, um homem pode ter uma amiga íntima em Tóquio, sem nenhuma preocupação de conhecer o seu vizinho de prédio ou de quadra! Tudo é virtual, entramos na virtualidade de todos os valores, não há compromisso com o real! É muito grave esse processo de abstração da linguagem, de sentimentos: somos místicos virtuais, religiosos virtuais, cidadãos virtuais. Enquanto isso, a realidade vai por outro lado, pois somos também eticamente virtuais. A cultura começa onde a natureza termina. Cultura é o refinamento do espírito. Televisão, no Brasil - com raras e honrosas exceções - é um problema: a cada semana que passa temos a sensação de que ficamos um pouco menos cultos. A palavra hoje é ‘entretenimento’; domingo, então, é o dia nacional da imbecilização coletiva. Imbecil o apresentador, imbecil quem vai lá e se apresenta no palco, imbecil quem perde a tarde diante da tela. Como a publicidade não consegue vender felicidade, passa a ilusão de que felicidade é o resultado da soma de prazeres: "Se tomar este refrigerante, vestir este tênis, usar esta camisa, comprar este carro, você chega lá!" O problema é que, em geral, não se chega! Quem cede, desenvolve de tal maneira o desejo que acaba precisando de um analista. Ou de remédios. Quem resiste, aumenta a neurose. Os psicanalistas tentam descobrir o que fazer com o desejo dos seus pacientes. Colocá-los aonde? Eu, que não sou da área, posso me dar o direito de apresentar uma sugestão. Acho que só há uma saída: virar o desejo para dentro. Porque para fora ele não tem aonde ir! O grande desafio é virar o desejo para dentro, gostar de si mesmo, começar a ver o quanto é bom ser livre de todo esse condicionamento globalizante, neoliberal, consumista. Assim, pode-se viver melhor. Aliás, para uma boa saúde mental três requisitos são indispensáveis: amizades, auto-estima, ausência de estresse. Há uma lógica religiosa no consumismo pós-moderno. Se alguém vai à Europa e visita uma pequena cidade onde há uma catedral, deve procurar saber a história daquela cidade - a catedral é o sinal de que ela tem história. Na Idade Média, as cidades adquiriam status construindo uma catedral; hoje, no Brasil, constrói-se um shopping center. É curioso: a maioria dos shopping centers tem linhas arquitetônicas de catedrais estilizadas; neles não se pode ir de qualquer maneira, é preciso vestir roupa de missa de domingo. E ali dentro sente-se uma sensação paradisíaca: não há mendigos, crianças de rua, sujeira pelas calçadas... Entra-se naqueles claustros ao som do gregoriano pós-moderno, aquela musiquinha de esperar dentista. Observam-se os vários nichos, todas aquelas capelas com os veneráveis objetos de consumo, acolitados por belas sacerdotisas. Quem pode comprar à vista, sente-se no reino dos céus. Se deve passar cheque pré-datado, pagar a crédito, entrar no cheque especial, sente-se no purgatório. Mas se não pode comprar, certamente vai se sentir no inferno... Felizmente, terminam todos na eucaristia pós-moderna, irmanados na mesma mesa, com o mesmo suco e o mesmo hambúrguer do McDonald’s… Costumo advertir os balconistas que me cercam à porta das lojas: "Estou apenas fazendo um passeio socrático." Diante de seus olhares espantados, explico: "Sócrates, filósofo grego, também gostava de descansar a cabeça percorrendo o centro comercial de Atenas. Quando vendedores como vocês o assediavam, ele respondia: "Estou apenas observando quanta coisa existe de que não preciso para ser feliz".
Via Blog Scheinman
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Thiago Azevedo
Quarto vazio e solitário
Somente uma sombra
Em meio à penumbra
Aos pés da cama
Chorando canções
Lágrimas de orações.
Sem letras ou palavras
Orações da alma
São derramadas
No pequeno templo
No pequeno altar
Aos pés da cama.
Lágrimas de orações
Revelam profunda dor
Intenso desejo
Necessidade de amor
Por aquele que escuta
Ali sentado ao lado
Consolando corações.
Ele pega no colo
Junta todas as lágrimas
As coloca junto do coração
Se dobra no altar de cama
E chora junto
As lágrimas de orações.
Passa a noite
A companhia vai junto
E a alma cansada descansa
Longe do mundo, longe de tudo
No altar secreto
Com lágrimas de orações.
Lágrimas de orações
Pronunciadas ao silêncio
Sem som, nem palavras
Apenas pranto sincero
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De um ardente coração
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Juntos caminhando
Chorando e vivendo
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Completude e paz.
Via Manga e Poesia
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Do amor que vem do Pai.
Juntos caminhando
Chorando e vivendo
Lágrimas de orações
Lágrimas de amor
Lágrimas de perdão
Completude e paz.
Via Manga e Poesia
quinta-feira, 26 de novembro de 2009
O viver melhor ou o bem viver?
Leonardo Boff
Na ideologia dominante, todo mundo quer viver melhor e desfrutar de uma melhor qualidade de vida. Comumente associa esta qualidade de vida ao Produto Interno Bruto de cada pais. O PIB representa todas as riquezas materiais que um pais produz. Se este é o critério, então o países melhor colocados são os Estados Unidos, seguidos do Japão, Alemanha, Suecia e outros. Este PIB é uma medida inventada pelo capitalismo para estimular a produção crescente de bens materiais a serem consumidos.
Nos últimos anos, dado o crescimento da pobreza e da urbanização favelizada do mundo e até por um senso de decência, a ONU introduziu a categoria IDH, o “Índice de Desenvolvimento Humano”. Nele se elencam valores intangíveis como saúde, educação, igualdade social, cuidado para com a natureza, equidade de gênero e outros. Enriqueceu o sentido de “qualidade de vida” que era entendido de forma muito materialista: goza de boa qualidade de vida quem mais e melhor consome.
Consoante o IDH a pequena Cuba apresenta-se melhor situada que os EUA, embora com um PIB comparativamente ínfimo.
Acima de todos os paises está o Butão, esprimido entre a China e Índia aos pés do Himalaia, muito pobre materialmente mas que estatuiu oficialmente o “Indice de Felicidade Interna Bruta”. Este não é medido por critérios quantitativos mas qualitativos, como boa governança das autoridades, eqüitativa distribuição dos excedentes da agricultura de subsistência, da extração vegetal e da venda de energia para a Índia, boa saúde e educação e especialmente bom nível de cooperação de todos para garantir a paz social.
Nas tradições indígenas de Abya Yala, nome para o nosso Continente indioamericano ao invés de “viver melhor” se fala em “bem viver”. Esta categoria entrou nas constituições da Bolívia e do Equador como o objetivo social a ser perseguido pelo Estado e por toda a sociedade.
O “viver melhor” supõe uma ética do progresso ilimitado e nos incita a uma competição com os outros para criar mais e mais condições para “viver melhor”. Entretanto para que alguns pudessem “viver melhor” milhões e milhões têm e tiveram que “viver mal”. É a contradição capitalista.
Contrariamente, o “bem viver” visa a uma ética da suficiência para toda a comunidade e não apenas para o indivíduo. O “bem viver” supõe uma visão holística e integradora do ser humano inserido na grande comunidade terrenal que inclui além do ser humano, o ar, a água, os solos, as montanhas, as árvores e os animais; é estar em profunda comunhão com a Pacha Mama (Terra), com as energias do universo e com Deus.
A preocupação central não é acumular. De mais a mais, a Mãe Terra nos fornece tudo que precisamos. Nosso trabalho supre o que ele não nos pode dar ou a ajudamos a produzir o suficiente e decente para todos, também para os animais e as plantas. “Bem viver” é estar em permanente harmonia com o todo, celebrando os ritos sagrados que continuiamente renovam a conexão cósmica e com Deus.
O “bem viver” nos convida a não consumir mais do que o ecossistema pode suportar, a evitar a produção de resíduos que não podemos absorver com segurança e nos incita a reutilizar e reciclar tudo o que tivermos usado. Será um consumo reciclável e frugal. Então não haverá escassez.
Nesta época de busca de novos caminhos para a humanidade a idéia do “bem viver” tem muito a nos ensinar.
Via Lboff
Na ideologia dominante, todo mundo quer viver melhor e desfrutar de uma melhor qualidade de vida. Comumente associa esta qualidade de vida ao Produto Interno Bruto de cada pais. O PIB representa todas as riquezas materiais que um pais produz. Se este é o critério, então o países melhor colocados são os Estados Unidos, seguidos do Japão, Alemanha, Suecia e outros. Este PIB é uma medida inventada pelo capitalismo para estimular a produção crescente de bens materiais a serem consumidos.
Nos últimos anos, dado o crescimento da pobreza e da urbanização favelizada do mundo e até por um senso de decência, a ONU introduziu a categoria IDH, o “Índice de Desenvolvimento Humano”. Nele se elencam valores intangíveis como saúde, educação, igualdade social, cuidado para com a natureza, equidade de gênero e outros. Enriqueceu o sentido de “qualidade de vida” que era entendido de forma muito materialista: goza de boa qualidade de vida quem mais e melhor consome.
Consoante o IDH a pequena Cuba apresenta-se melhor situada que os EUA, embora com um PIB comparativamente ínfimo.
Acima de todos os paises está o Butão, esprimido entre a China e Índia aos pés do Himalaia, muito pobre materialmente mas que estatuiu oficialmente o “Indice de Felicidade Interna Bruta”. Este não é medido por critérios quantitativos mas qualitativos, como boa governança das autoridades, eqüitativa distribuição dos excedentes da agricultura de subsistência, da extração vegetal e da venda de energia para a Índia, boa saúde e educação e especialmente bom nível de cooperação de todos para garantir a paz social.
Nas tradições indígenas de Abya Yala, nome para o nosso Continente indioamericano ao invés de “viver melhor” se fala em “bem viver”. Esta categoria entrou nas constituições da Bolívia e do Equador como o objetivo social a ser perseguido pelo Estado e por toda a sociedade.
O “viver melhor” supõe uma ética do progresso ilimitado e nos incita a uma competição com os outros para criar mais e mais condições para “viver melhor”. Entretanto para que alguns pudessem “viver melhor” milhões e milhões têm e tiveram que “viver mal”. É a contradição capitalista.
Contrariamente, o “bem viver” visa a uma ética da suficiência para toda a comunidade e não apenas para o indivíduo. O “bem viver” supõe uma visão holística e integradora do ser humano inserido na grande comunidade terrenal que inclui além do ser humano, o ar, a água, os solos, as montanhas, as árvores e os animais; é estar em profunda comunhão com a Pacha Mama (Terra), com as energias do universo e com Deus.
A preocupação central não é acumular. De mais a mais, a Mãe Terra nos fornece tudo que precisamos. Nosso trabalho supre o que ele não nos pode dar ou a ajudamos a produzir o suficiente e decente para todos, também para os animais e as plantas. “Bem viver” é estar em permanente harmonia com o todo, celebrando os ritos sagrados que continuiamente renovam a conexão cósmica e com Deus.
O “bem viver” nos convida a não consumir mais do que o ecossistema pode suportar, a evitar a produção de resíduos que não podemos absorver com segurança e nos incita a reutilizar e reciclar tudo o que tivermos usado. Será um consumo reciclável e frugal. Então não haverá escassez.
Nesta época de busca de novos caminhos para a humanidade a idéia do “bem viver” tem muito a nos ensinar.
Via Lboff
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Flor do Destino
Thiago Azevedo
Nessa caminhada rumo a uma ressignificação não apenas da fé, mas da vida em si, vemos que podemos desfrutar de muitas maravilhas no nosso cotidiano como aspecto da revelação do sagrado, seja olhando as árvores (que gosto muito), das flores, das crianças e muito também através da música. Como já deixei bem claro em muitos textos, sou um fã de MPB e vejo nelas manifestações de um Deus que é criativo e se apresenta ao ser humano através da sensibilidade destes artistas.
Estou vivendo um momento bem regionalista, ouvindo compositores de minha terra e muitos falam dos mitos da floresta, da mística do rio e da pureza da vida simples e bela que tem o ribeirinho nortista. Isso me faz sentir em paz e cada vez mais em casa, que devo valorizar, tanto suas belezas, quanto suas dificuldades, seu descaso tanto do povo quanto das autoridades, porém, ainda há muito de belo, muito de poético e muito de divino em tudo que vejo, nesta Belém terra das mangueiras, sabor marajoara, sabor açaí.
Se nos deixarmos mais sensíveis à vida e principalmente à Deus, veremos um ser que é artista, pintor, poeta, artesão que molda e colore a vida de várias formas, diversos jeitos e nisso mora o verdadeiro culto, quando andamos pelas ruas e vemos um Deus que se deixa manifestar em sua criação, isso não é panteísmo, mas é simplesmente, você se debruçar sobre um belo quadro e querer saber, ou mesmo louvar o grande artísta que criou tão grandiosa peça.
Assim mesmo somos nós, é como se estivessemos num grande museu de obras de arte, numa grandiosa exposição de peças raras e deslumbrantes, com a assinatura de um ser belo em sua arte, que quer apenas que desfrutemos de tudo, vivenciamos a vida como esta obra de arte, sem as complicações que nos colocamos, sem os ortodoximos que nos exigimos, porém que apenas sentemos em frente a um pôr-do-sol e deixemos uma cadeira ao lado, vazia, livre em nossas vidas para que este artista seja a nossa companhia à brisa da tarde e desfrute conosco de tão bela criação e nos diga: "Que belo filho, sua companhia me alegra e me faz chorar de alegria".
Paz e bem.
Flor do Destino
Nilson Chaves
Composição: Nilson Chaves e Vital Lima
Te amei assim como água de chuva
Que vai penetrando pra dentro do mundo
Te bebi assim como poço de rua
Que eu olhava dentro mas não via o fundo
Tu me deste um sonho
Eu te trouxe um gosto de tucumã
Tu me deste um beijo
E a gente se amou até de manhã
Veio o sol batendo
E nos despertou
Da gente virando terra, mato,
Galho e flor
Água de riacho é clara e limpinha
Mas às vezes turva com a chuva violenta
Teu amor é um papagaio que xina
Dentro do silêncio da tarde cinzenta
E o amor é um rio
Profundo rio
De muitos sinais
Onde os barcos passam
Conforme o vento deseja e faz
Ai que ainda me lembro
Disso que ficou
Da gente virando terra, mato,
Galho e flor
Nessa caminhada rumo a uma ressignificação não apenas da fé, mas da vida em si, vemos que podemos desfrutar de muitas maravilhas no nosso cotidiano como aspecto da revelação do sagrado, seja olhando as árvores (que gosto muito), das flores, das crianças e muito também através da música. Como já deixei bem claro em muitos textos, sou um fã de MPB e vejo nelas manifestações de um Deus que é criativo e se apresenta ao ser humano através da sensibilidade destes artistas.
Estou vivendo um momento bem regionalista, ouvindo compositores de minha terra e muitos falam dos mitos da floresta, da mística do rio e da pureza da vida simples e bela que tem o ribeirinho nortista. Isso me faz sentir em paz e cada vez mais em casa, que devo valorizar, tanto suas belezas, quanto suas dificuldades, seu descaso tanto do povo quanto das autoridades, porém, ainda há muito de belo, muito de poético e muito de divino em tudo que vejo, nesta Belém terra das mangueiras, sabor marajoara, sabor açaí.
Se nos deixarmos mais sensíveis à vida e principalmente à Deus, veremos um ser que é artista, pintor, poeta, artesão que molda e colore a vida de várias formas, diversos jeitos e nisso mora o verdadeiro culto, quando andamos pelas ruas e vemos um Deus que se deixa manifestar em sua criação, isso não é panteísmo, mas é simplesmente, você se debruçar sobre um belo quadro e querer saber, ou mesmo louvar o grande artísta que criou tão grandiosa peça.
Assim mesmo somos nós, é como se estivessemos num grande museu de obras de arte, numa grandiosa exposição de peças raras e deslumbrantes, com a assinatura de um ser belo em sua arte, que quer apenas que desfrutemos de tudo, vivenciamos a vida como esta obra de arte, sem as complicações que nos colocamos, sem os ortodoximos que nos exigimos, porém que apenas sentemos em frente a um pôr-do-sol e deixemos uma cadeira ao lado, vazia, livre em nossas vidas para que este artista seja a nossa companhia à brisa da tarde e desfrute conosco de tão bela criação e nos diga: "Que belo filho, sua companhia me alegra e me faz chorar de alegria".
Paz e bem.
Flor do Destino
Nilson Chaves
Composição: Nilson Chaves e Vital Lima
Te amei assim como água de chuva
Que vai penetrando pra dentro do mundo
Te bebi assim como poço de rua
Que eu olhava dentro mas não via o fundo
Tu me deste um sonho
Eu te trouxe um gosto de tucumã
Tu me deste um beijo
E a gente se amou até de manhã
Veio o sol batendo
E nos despertou
Da gente virando terra, mato,
Galho e flor
Água de riacho é clara e limpinha
Mas às vezes turva com a chuva violenta
Teu amor é um papagaio que xina
Dentro do silêncio da tarde cinzenta
E o amor é um rio
Profundo rio
De muitos sinais
Onde os barcos passam
Conforme o vento deseja e faz
Ai que ainda me lembro
Disso que ficou
Da gente virando terra, mato,
Galho e flor
quarta-feira, 25 de novembro de 2009
A arte de viver
Ricardo Gondim
Definitivamente viver não é fácil. Basta observar as fatalidades que poluem as estradas da história. Milhões morreram sem conseguir aprimorar-se na difícil arte de existir. A vida muitas vezes é áspera, arriscada e sempre perigosa. A toada inclemente do tempo, a tensão de ter que conviver com pessoas impiedosas, o peso de ter que decidir entre o certo e o errado exigem cuidados extremos. Não basta viver -- é preciso viver bem e para isso é necessário concentração, bom siso e uma pitada de humildade.
A arte de viver requer que se rompam os confinamentos. Toda marginalização ou reclusão imposta é nitroglicerina que detona a alma e forma abismos que sorvem a alegria de viver. No ventre da história conturbada e triste do século 21, somente artistas e poetas conseguiram recuperar o verbo coexistir de sua insignificante função. Antigamente coexistir descrevia a tolerância como mero dever. Os civilizados precisavam de resignação para aguentar o próximo. De repente, coexistir passou a significar a beleza de reconhecer a dignidade dos que pensam diferente, transmitindo a ideia de que ninguém será discriminado, diminuído ou marginalizado por causa de sua fé, cor da pele ou ideologia política.
As diferentes cosmovisões possuem valor idêntico. Na boca dos poetas, as expectativas dos profetas por um mundo sem cadeias de absolutismo já começaram a acontecer. Eles intuem que em breve a humanidade não suportará racismos, ódios e desprezos sociais. Um dia, os campos de batalha serão arados e semeados com amor para que nunca mais se confunda o choro de crianças com os hinos marciais.
A arte de viver requer que se ame a poesia. Só ela pode apagar o ódio. Os poetas se unirão a homens e mulheres de boa vontade para soterrar os charcos da maldade com benignidade e beleza. Estes serão chamados filhos de Deus, pois carregam o antídoto capaz de salvar o mundo. Nervos gripados de vingança e olhos enrubescidos de brutalidade se confrontarão com a singeleza da palavra, mas a ternura triunfará -- quem tem ouvidos para ouvir, ouça.
A arte de viver requer que sempre se opte pela simplicidade, porque a vida verdadeira se esconde na realidade mais frágil. Os que se encantam com as sofisticações não conseguem enxergar a beleza que mora nas coisas efêmeras; só o insubstancial é eterno. É necessário um olhar singelo para perceber a graça que há no comum. Os pobres de espírito entrarão nos átrios sagrados de Deus. Os puros de coração perceberão na bruma silenciosa a voz do Espírito.
A arte de viver requer integridade. Uma vida abundante precisa juntar os fragmentos da alma para viver com uma santidade não restrita à obediência religiosa ou ao cumprimento de mandamentos moralistas. Não basta resignar-se. Santidade é plenitude do ser, do ser-homem, do ser-mulher. Só os verdadeiramente santos eternizam os instantes para, inteiros, saborearem as chances fugazes de felicidade.
A arte de viver requer respeito aos ciclos da vida. As estações se alternam do verão ao inverno, da primavera ao outono, e quem não experimenta cada tempo com suas peculiaridades acaba adoecendo. No tempo de nascer faz-se festa, no de morrer lamento; no tempo de plantar semeia-se esperança, no de colher o que foi plantado lida-se com a derrota; no tempo de matar se aprende a dizer adeus, no de sarar o poder do perdão; no tempo de demolir se despede da onipotência, no de construir adquire-se fé na ressurreição; no tempo de chorar se convive com a fraqueza, no de rir com a força da alegria; no tempo da guerra se percebe o perigo da perversidade, no da paz a felicidade da sabedoria.
A arte de viver requer sensibilidade transcendental. Contentar-se com os horizontes do mundo material e imanente significa abrir mão da vida eterna. Os seres humanos nasceram com sede pelo que está além do céu, além da última galáxia, além do tempo Pulsa no coração humano a litania que repete: “Por que te escondes, Senhor?”. Tudo passa. Todas as emoções perdem o encanto. Todos os prazeres são provisórios, mas a sede pelo divino permanece. Quem beber de um gole d’água da vida, quem receber uma visitação do Espírito e quem ouvir uma só palavra do Cordeiro de Deus, jamais se contentará com o brilho deste mundo.
A difícil arte de viver não aceita procrastinação. Quem deseja experimentar o céu e evitar o inferno deve começar já, antes que se rompa o fio de prata.
• Ricardo Gondim é pastor da Assembleia de Deus Betesda no Brasil e mora em São Paulo. É autor de, entre outros, Eu Creio, mas Tenho Dúvidas.
www.ricardogondim.com.br
Via Ultimato
Definitivamente viver não é fácil. Basta observar as fatalidades que poluem as estradas da história. Milhões morreram sem conseguir aprimorar-se na difícil arte de existir. A vida muitas vezes é áspera, arriscada e sempre perigosa. A toada inclemente do tempo, a tensão de ter que conviver com pessoas impiedosas, o peso de ter que decidir entre o certo e o errado exigem cuidados extremos. Não basta viver -- é preciso viver bem e para isso é necessário concentração, bom siso e uma pitada de humildade.
A arte de viver requer que se rompam os confinamentos. Toda marginalização ou reclusão imposta é nitroglicerina que detona a alma e forma abismos que sorvem a alegria de viver. No ventre da história conturbada e triste do século 21, somente artistas e poetas conseguiram recuperar o verbo coexistir de sua insignificante função. Antigamente coexistir descrevia a tolerância como mero dever. Os civilizados precisavam de resignação para aguentar o próximo. De repente, coexistir passou a significar a beleza de reconhecer a dignidade dos que pensam diferente, transmitindo a ideia de que ninguém será discriminado, diminuído ou marginalizado por causa de sua fé, cor da pele ou ideologia política.
As diferentes cosmovisões possuem valor idêntico. Na boca dos poetas, as expectativas dos profetas por um mundo sem cadeias de absolutismo já começaram a acontecer. Eles intuem que em breve a humanidade não suportará racismos, ódios e desprezos sociais. Um dia, os campos de batalha serão arados e semeados com amor para que nunca mais se confunda o choro de crianças com os hinos marciais.
A arte de viver requer que se ame a poesia. Só ela pode apagar o ódio. Os poetas se unirão a homens e mulheres de boa vontade para soterrar os charcos da maldade com benignidade e beleza. Estes serão chamados filhos de Deus, pois carregam o antídoto capaz de salvar o mundo. Nervos gripados de vingança e olhos enrubescidos de brutalidade se confrontarão com a singeleza da palavra, mas a ternura triunfará -- quem tem ouvidos para ouvir, ouça.
A arte de viver requer que sempre se opte pela simplicidade, porque a vida verdadeira se esconde na realidade mais frágil. Os que se encantam com as sofisticações não conseguem enxergar a beleza que mora nas coisas efêmeras; só o insubstancial é eterno. É necessário um olhar singelo para perceber a graça que há no comum. Os pobres de espírito entrarão nos átrios sagrados de Deus. Os puros de coração perceberão na bruma silenciosa a voz do Espírito.
A arte de viver requer integridade. Uma vida abundante precisa juntar os fragmentos da alma para viver com uma santidade não restrita à obediência religiosa ou ao cumprimento de mandamentos moralistas. Não basta resignar-se. Santidade é plenitude do ser, do ser-homem, do ser-mulher. Só os verdadeiramente santos eternizam os instantes para, inteiros, saborearem as chances fugazes de felicidade.
A arte de viver requer respeito aos ciclos da vida. As estações se alternam do verão ao inverno, da primavera ao outono, e quem não experimenta cada tempo com suas peculiaridades acaba adoecendo. No tempo de nascer faz-se festa, no de morrer lamento; no tempo de plantar semeia-se esperança, no de colher o que foi plantado lida-se com a derrota; no tempo de matar se aprende a dizer adeus, no de sarar o poder do perdão; no tempo de demolir se despede da onipotência, no de construir adquire-se fé na ressurreição; no tempo de chorar se convive com a fraqueza, no de rir com a força da alegria; no tempo da guerra se percebe o perigo da perversidade, no da paz a felicidade da sabedoria.
A arte de viver requer sensibilidade transcendental. Contentar-se com os horizontes do mundo material e imanente significa abrir mão da vida eterna. Os seres humanos nasceram com sede pelo que está além do céu, além da última galáxia, além do tempo Pulsa no coração humano a litania que repete: “Por que te escondes, Senhor?”. Tudo passa. Todas as emoções perdem o encanto. Todos os prazeres são provisórios, mas a sede pelo divino permanece. Quem beber de um gole d’água da vida, quem receber uma visitação do Espírito e quem ouvir uma só palavra do Cordeiro de Deus, jamais se contentará com o brilho deste mundo.
A difícil arte de viver não aceita procrastinação. Quem deseja experimentar o céu e evitar o inferno deve começar já, antes que se rompa o fio de prata.
• Ricardo Gondim é pastor da Assembleia de Deus Betesda no Brasil e mora em São Paulo. É autor de, entre outros, Eu Creio, mas Tenho Dúvidas.
www.ricardogondim.com.br
Via Ultimato
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O convite (Lc 14.15-23)
Thiago Azevedo
A casa está arrumada
Tudo no seu devido lugar
A mesa está posta
Estou ansioso
O vinho e o pão
Serão a aliança
Neste cear e celebrar.
Onde estão os convidados?
Separei a todos um lugar
Estou muito alegre
Quero meus amigos
Para beber e comemorar.
Não querem vir, tudo bem
Vou às ruas, todas elas
Venham maltrapilhos
Quero com vocês celebrar
Do pão e do vinho, compartilhar.
Dou um pouco de mim
Me torno um de vocês
Juntos à mesa
No viver e celebrar
Esse reino de maltrapilhos
Em tudo compartilhar.
As dores da vida
E as simples alegrias
Tudo em meio à folia
Dança e choro
Mutuamente consolar.
A mesa está posta
Venham maltrapilhos
Juntem-se a mim
Em memória do Pai
Em memória de mim.
No pão e vinho
Corpo e sangue
Ceia de comunhão
Nova aliança de paz
Perpétua união.
Via Manga e Poesia
A casa está arrumada
Tudo no seu devido lugar
A mesa está posta
Estou ansioso
O vinho e o pão
Serão a aliança
Neste cear e celebrar.
Onde estão os convidados?
Separei a todos um lugar
Estou muito alegre
Quero meus amigos
Para beber e comemorar.
Não querem vir, tudo bem
Vou às ruas, todas elas
Venham maltrapilhos
Quero com vocês celebrar
Do pão e do vinho, compartilhar.
Dou um pouco de mim
Me torno um de vocês
Juntos à mesa
No viver e celebrar
Esse reino de maltrapilhos
Em tudo compartilhar.
As dores da vida
E as simples alegrias
Tudo em meio à folia
Dança e choro
Mutuamente consolar.
A mesa está posta
Venham maltrapilhos
Juntem-se a mim
Em memória do Pai
Em memória de mim.
No pão e vinho
Corpo e sangue
Ceia de comunhão
Nova aliança de paz
Perpétua união.
Via Manga e Poesia
Blogueiro terá que pagar indenização por post de leitor
Por Carmen Pompeu
Fortaleza - Por causa de um comentário feito por um leitor que se identificou com e-mail falso, o blogueiro cearense Emílio Moreno, 33 anos, foi condenado a pagar R$ 16,6 mil à freira Eulália Maria Wanderley de Lima, diretora do Colégio Santa Cecília, de Fortaleza. O caso levanta a discussão sobre a necessidade de se criar leis específicas para a internet e os limites da liberdade de expressão na rede mundial de computadores.
De acordo com Emílio Moreno, o post colocado em seu blog, o Liberdade Digital, relatava a falta de repercussão da imprensa local de uma briga entre alunos do Colégio Santa Cecília ocorrida em 2008 dentro da escola. No espaço dedicado aos comentários, um leitor fez insultos à diretora e criticou a mediação feita por ela com relação à briga dos estudantes.
Ainda segundo o blogueiro, que cursa Jornalismo numa faculdade particular, os advogados da freira, entraram em contato com ele e pediu para que o comentarista fosse identificado. Emílio Moreno disse ter de imediato retirado o comentário do post do ar. O advogado Helder Nascimento contestou. Disse que o blogueiro manteve a opinião do leitor, alegando o direito à liberdade de expressão, e também se negou a identificar o autor do comentário.
O caso foi parar na Justiça. O blogueiro foi intimado a prestar esclarecimentos. Compareceu a quatro audiências e a diretora faltou, alegando viagens e compromissos profissionais. Na quinta, o estudante faltou e não justificou a ausência. Perdeu o prazo para recorrer e acabou sendo condenado a pagar 40 salários-mínimos à freira por danos morais.
Sem condições de pagar a quantia estipulada pela Justiça, uma campanha na rede social twitter foi iniciada hoje por simpatizantes do blogueiro. Eles usam a tag #freeemilio para protestar e prestar solidariedade a Emílio Moreno. Alguns pedem para que a freira perdoe o estudante. Outros sugerem uma campanha de arrecadação de dinheiro para que ele pague a indenização.
"Se toda essa polêmica servir para abrir um amplo debate sobre a produção de conteúdo em blogs e nas redes sociais, isso tudo terá valido a pena. Vejo os advogados falarem com muita normalidade sobre a decisão. Mas há que se avaliar, que existem milhões de pessoas produzindo textos e recebendo comentários em suas páginas. Quem vai esclarecer essas pessoas? Se a jurisprudência nesses casos é a que vale, então vamos informar. Se devemos exigir dos legisladores uma lei específica, pois então façamos isso. Mas o que eu mais lamento em todo esse episódio foi a falta de diálogo. Afinal, fui logo procurado por um escritório de Direito, com a intenção de processar alguém", defende-se Emílio Moreno.
Via Abril.com
Fortaleza - Por causa de um comentário feito por um leitor que se identificou com e-mail falso, o blogueiro cearense Emílio Moreno, 33 anos, foi condenado a pagar R$ 16,6 mil à freira Eulália Maria Wanderley de Lima, diretora do Colégio Santa Cecília, de Fortaleza. O caso levanta a discussão sobre a necessidade de se criar leis específicas para a internet e os limites da liberdade de expressão na rede mundial de computadores.
De acordo com Emílio Moreno, o post colocado em seu blog, o Liberdade Digital, relatava a falta de repercussão da imprensa local de uma briga entre alunos do Colégio Santa Cecília ocorrida em 2008 dentro da escola. No espaço dedicado aos comentários, um leitor fez insultos à diretora e criticou a mediação feita por ela com relação à briga dos estudantes.
Ainda segundo o blogueiro, que cursa Jornalismo numa faculdade particular, os advogados da freira, entraram em contato com ele e pediu para que o comentarista fosse identificado. Emílio Moreno disse ter de imediato retirado o comentário do post do ar. O advogado Helder Nascimento contestou. Disse que o blogueiro manteve a opinião do leitor, alegando o direito à liberdade de expressão, e também se negou a identificar o autor do comentário.
O caso foi parar na Justiça. O blogueiro foi intimado a prestar esclarecimentos. Compareceu a quatro audiências e a diretora faltou, alegando viagens e compromissos profissionais. Na quinta, o estudante faltou e não justificou a ausência. Perdeu o prazo para recorrer e acabou sendo condenado a pagar 40 salários-mínimos à freira por danos morais.
Sem condições de pagar a quantia estipulada pela Justiça, uma campanha na rede social twitter foi iniciada hoje por simpatizantes do blogueiro. Eles usam a tag #freeemilio para protestar e prestar solidariedade a Emílio Moreno. Alguns pedem para que a freira perdoe o estudante. Outros sugerem uma campanha de arrecadação de dinheiro para que ele pague a indenização.
"Se toda essa polêmica servir para abrir um amplo debate sobre a produção de conteúdo em blogs e nas redes sociais, isso tudo terá valido a pena. Vejo os advogados falarem com muita normalidade sobre a decisão. Mas há que se avaliar, que existem milhões de pessoas produzindo textos e recebendo comentários em suas páginas. Quem vai esclarecer essas pessoas? Se a jurisprudência nesses casos é a que vale, então vamos informar. Se devemos exigir dos legisladores uma lei específica, pois então façamos isso. Mas o que eu mais lamento em todo esse episódio foi a falta de diálogo. Afinal, fui logo procurado por um escritório de Direito, com a intenção de processar alguém", defende-se Emílio Moreno.
Via Abril.com
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terça-feira, 24 de novembro de 2009
Oração poderosa
Thiago Azevedo
Diante de tantas coisas que nos acontece na vida, aprendemos que orar é o melhor caminho, nos prostrar diante de Deus para que esta entidade se comova diante de nosso sofrimento e com isso opere em nós maravilhas, segundo nossa fé. Lembro que quando adolescente se usava muito a expressão: "A oração dos justos pode muito em seus efeitos.", porém uma coisa me intriga, o que a oração pode fazer por este justo, se é que há justo para que possa alguma coisa para ser feita?
Isso é justificado em casos por exemplo quando Abraão pede por Sodoma e Gomorra, por causa de seu sobrinho Ló, que implorou a Deus para que a cidade não fosse destruida se encontrasse pelo menos um justo que fosse digno de ser salvo. Porém, temos muitos casos em que a oração não impediu os acontecimentos previstos por Deus e o que me vêm ao coração agora é justamente no momento em que Jesus implora ao Pai que não lhe fizesse beber do cálice de dor que lhe estava reservado, entretanto, o silêncio de Deus fez com que Jesus compreendesse que não havia outra alternativa.
Então, a oração move quem na verdade, o coração de Deus? Como se o que falássemos fosse do desconhecimento dEle. Acredito na oração, porém a vejo como um processo não da aproximação de Deus até nós, mas ao contrário, onde nós podemos nos aproximar de Deus e na oração, podemos encontrar o caminho de ligar nosso coração ao coração de Deus e com isso procurar compreender seus desígnios para nossas vidas.
Mesmo diante da intercessão pelo próximo, pois quando oramos uns pelos outros, não entendo como se fosse um abaixo assinado onde todos num condomínio o fazem para revindicar algo, porém quando oramos pelos nossos é justamente para estabelecer cada vez mais a comunhão e a fraternidade que deve haver uns pelos outros, como diz os Gálatas, levai os fardos uns dos outros.
Na comunidade de Atos vemos uma comunidade onde todos tinham tudo em comum, inclusive e principalmente suas dores, seus anseios, suas preocupações e isso era feito no partir do pão e nas orações, com isso ganhavam respeito das pessoas e Deus se tornava cada vez mais sensível aos corações. Deus habita em corações simples e vazios de egoísmo e isso inclui as orações também.
O Pai nosso é o modelo de oração que temos para começar a aprender a se desligar de certos padrões que temos de oração, para encontrar um caminho da prece como a caminhada junto de Deus, assim como aqueles discípulos estavam caminhando com mestre na estrada de Emaús.
Hoje não creio em preces poderosas, creio em pessoas sensíveis a voz e à companhia de Deus e isso se faz através da oração, não como pedidos impertinentes, mas como diálogos agradáveis em bancos de jardim à brisa do fim do dia.
Há pessoas de oração em todos os lugares, principalmente aquelas que não se denominam pessoas de oração, porém que conversam com Deus no silêncio, na solitude. Na beleza das coisas, que compartilham suas vidas com Deus, não como lamentos de dor, ou pedidos constantes, mas que seu único pedido ao Pai é que aprenda a caminhar como maltrapilho e busca ser sensível à mão de Deus todos os dias em sua vida.
Isso tudo descaracteriza a forma como temos orado? De forma alguma, mas nos faz pensar em nossos corações quando oramos e procurar todos os dias o caminho do descanso e da simplicidade da oração.
Quando escrevo assim, significa que eu preciso ressignificar minha fé, minha oração e principalmente a forma como compreendo Deus. Dessa forma, poderei descansar melhor nEle.
Paz e bem.
Diante de tantas coisas que nos acontece na vida, aprendemos que orar é o melhor caminho, nos prostrar diante de Deus para que esta entidade se comova diante de nosso sofrimento e com isso opere em nós maravilhas, segundo nossa fé. Lembro que quando adolescente se usava muito a expressão: "A oração dos justos pode muito em seus efeitos.", porém uma coisa me intriga, o que a oração pode fazer por este justo, se é que há justo para que possa alguma coisa para ser feita?
Isso é justificado em casos por exemplo quando Abraão pede por Sodoma e Gomorra, por causa de seu sobrinho Ló, que implorou a Deus para que a cidade não fosse destruida se encontrasse pelo menos um justo que fosse digno de ser salvo. Porém, temos muitos casos em que a oração não impediu os acontecimentos previstos por Deus e o que me vêm ao coração agora é justamente no momento em que Jesus implora ao Pai que não lhe fizesse beber do cálice de dor que lhe estava reservado, entretanto, o silêncio de Deus fez com que Jesus compreendesse que não havia outra alternativa.
Então, a oração move quem na verdade, o coração de Deus? Como se o que falássemos fosse do desconhecimento dEle. Acredito na oração, porém a vejo como um processo não da aproximação de Deus até nós, mas ao contrário, onde nós podemos nos aproximar de Deus e na oração, podemos encontrar o caminho de ligar nosso coração ao coração de Deus e com isso procurar compreender seus desígnios para nossas vidas.
Mesmo diante da intercessão pelo próximo, pois quando oramos uns pelos outros, não entendo como se fosse um abaixo assinado onde todos num condomínio o fazem para revindicar algo, porém quando oramos pelos nossos é justamente para estabelecer cada vez mais a comunhão e a fraternidade que deve haver uns pelos outros, como diz os Gálatas, levai os fardos uns dos outros.
Na comunidade de Atos vemos uma comunidade onde todos tinham tudo em comum, inclusive e principalmente suas dores, seus anseios, suas preocupações e isso era feito no partir do pão e nas orações, com isso ganhavam respeito das pessoas e Deus se tornava cada vez mais sensível aos corações. Deus habita em corações simples e vazios de egoísmo e isso inclui as orações também.
O Pai nosso é o modelo de oração que temos para começar a aprender a se desligar de certos padrões que temos de oração, para encontrar um caminho da prece como a caminhada junto de Deus, assim como aqueles discípulos estavam caminhando com mestre na estrada de Emaús.
Hoje não creio em preces poderosas, creio em pessoas sensíveis a voz e à companhia de Deus e isso se faz através da oração, não como pedidos impertinentes, mas como diálogos agradáveis em bancos de jardim à brisa do fim do dia.
Há pessoas de oração em todos os lugares, principalmente aquelas que não se denominam pessoas de oração, porém que conversam com Deus no silêncio, na solitude. Na beleza das coisas, que compartilham suas vidas com Deus, não como lamentos de dor, ou pedidos constantes, mas que seu único pedido ao Pai é que aprenda a caminhar como maltrapilho e busca ser sensível à mão de Deus todos os dias em sua vida.
Isso tudo descaracteriza a forma como temos orado? De forma alguma, mas nos faz pensar em nossos corações quando oramos e procurar todos os dias o caminho do descanso e da simplicidade da oração.
Quando escrevo assim, significa que eu preciso ressignificar minha fé, minha oração e principalmente a forma como compreendo Deus. Dessa forma, poderei descansar melhor nEle.
Paz e bem.
Thiago de Mello no sempre um papo
Amadeu Thiago de Mello (Barreirinha, 30 de março de 1926) é um poeta brasileiro.
Natural do Estado do Amazonas, é um dos poetas mais influentes e respeitados no pais, reconhecido como um ícone da literatura regional.
Tem obras traduzidas para mais de trinta idiomas. Preso durante a ditadura (1964-1985), exilou-se no Chile, encontrando em Pablo Neruda um amigo e colaborador. Um traduziu a obra do outro e Neruda escreveu ensaios sobre o amigo. No exílio, morou na Argentina, Chile, Portugal, França, Alemanha. Com o fim do regime militar, voltou a sua grande cidade natal, Barreirinha, onde vive até hoje.
Seu poema mais conhecido é Os Estatutos do Homem, onde o poeta chama a atenção do leitor para os valores simples da natureza humana. Seu livro Poesia Comprometida com a Minha e a Tua Vida rendeu-lhe, em 1975, ainda durante o regime militar, prêmio concedido pela Associação Paulista dos Críticos de Arte e tornou-o conhecido internacionalmente como um intelectual engajado na luta pelos Direitos Humanos.
Em homenagem aos seus 80 anos, completados em 2006, foi lançado, pela Karmim, o CD comemorativo A Criação do Mundo, contendo poemas que o autor produziu nos últimos 55 anos, declamados por ele próprio e musicados por seu irmão, Gaudêncio Thiago de Mello.
segunda-feira, 23 de novembro de 2009
A verdadeira religião
Hugo Rocha
Confesso que tenho bastante dificuldade de entender uma mente religiosa. Não falo de pessoas que têm uma religião, mas de pessoas que são possuídas pela religião. Notem que o pertencimento se dá pelo ângulo oposto. O ser que se deixa escravizar pela religião passa a ver o mundo apenas pelas doutrinas que ali recebe, naquele ambiente onde todos são incentivados a ser iguais.
E o risco disso é a perda da capacidade de interpretar. Não falo de interpretar textos bíblicos apenas, mas de interpretar a vida. A religião cria pessoas sem capacidade de ler a existência.
Um exemplo: diariamente, pessoas discutem, de maneira vã, para provar que a sua religião é a melhor. O embate se dá, de forma mais frequente, entre os cristãos: católicos, protestantes e evangélicos – das mais variadas denominações. E, com isso, todos se esquecem daquilo que João já disse no Famoso Livro: “Aquele que ama é nascido de Deus e conhece a Deus.” (I João 4.7b)
Esquecendo-se dessa verdade, pessoas se utilizam de rótulos e nomenclaturas para decidir quem está ao lado delas ou não. Daí, não importa se o cara odeia em nome de Deus, mas se ele é pastor, bispo, apóstolo ou apenas membro da mesma igreja que eu, ele é “homem de Deus” e está comigo! Da mesma maneira, o cara pode ser inspiração e exemplo na arte de amar, defender e acreditar no bem, entregar sua vida em causas que priorizam o próximo. Mas se esse mesmo cara carregar o rótulo de outra religião, ele não está comigo. O Amor dele não vale; apenas por que o grupo religioso do qual ele faz parte não é o meu. Ignoramos que todo e qualquer Amor procede de Deus. É dom dEle. NUNCA parte de nós.
Mentalidade tola essa. Sem medo de pegar pesado, afirmo que, além de tola, também é burra. Como ler isso (em 1 João 4) e continuar achando que o Amor de Deus está em algum espaço físico? Pensar que a fé em Deus está no lugar a que se vai aos domingos? Que o verdadeiro Amor tem endereço humano, precedido de um nome, que, obrigatoriamente, começa com a palavra “igreja”?
Não, Jesus nunca esteve preocupado com nenhuma dessas bandeiras. Ele carregou apenas uma: o Amor. E quer que a carreguemos também: “Quem ama a Deus, ame também a seu irmão.”
O mundo carece do Amor. Não resta tempo pra discussões teológicas e religiosas. Pessoas estão morrendo, enquanto os fãs da religião discutem qual delas é a melhor. Esquecem-se que a verdadeira religião é o Amor.
De que adianta olhar para o céu e declarar amor a um Deus a quem não se vê? Afirmo, sem medo, que não vale nada, se esse ato nos impede de olhar para o chão e perceber que, ali - caído, sujo, ferido, machucado -, está alguém extremamente carente e necessitado do Amor.
E aí, qual será a nossa atitude daqui pra frente: nós vamos amar – ou não?
Via Renovaldo
“Se alguém afirmar: ‘Eu amo a Deus’, mas odiar seu irmão, é mentiroso, pois quem não ama seu irmão, a quem vê, não pode amar a Deus, a quem não vê. Ele nos deu este mandamento: quem ama a Deus, ame também seu irmão.” (I João 4.20,21)
Confesso que tenho bastante dificuldade de entender uma mente religiosa. Não falo de pessoas que têm uma religião, mas de pessoas que são possuídas pela religião. Notem que o pertencimento se dá pelo ângulo oposto. O ser que se deixa escravizar pela religião passa a ver o mundo apenas pelas doutrinas que ali recebe, naquele ambiente onde todos são incentivados a ser iguais.
E o risco disso é a perda da capacidade de interpretar. Não falo de interpretar textos bíblicos apenas, mas de interpretar a vida. A religião cria pessoas sem capacidade de ler a existência.
Um exemplo: diariamente, pessoas discutem, de maneira vã, para provar que a sua religião é a melhor. O embate se dá, de forma mais frequente, entre os cristãos: católicos, protestantes e evangélicos – das mais variadas denominações. E, com isso, todos se esquecem daquilo que João já disse no Famoso Livro: “Aquele que ama é nascido de Deus e conhece a Deus.” (I João 4.7b)
Esquecendo-se dessa verdade, pessoas se utilizam de rótulos e nomenclaturas para decidir quem está ao lado delas ou não. Daí, não importa se o cara odeia em nome de Deus, mas se ele é pastor, bispo, apóstolo ou apenas membro da mesma igreja que eu, ele é “homem de Deus” e está comigo! Da mesma maneira, o cara pode ser inspiração e exemplo na arte de amar, defender e acreditar no bem, entregar sua vida em causas que priorizam o próximo. Mas se esse mesmo cara carregar o rótulo de outra religião, ele não está comigo. O Amor dele não vale; apenas por que o grupo religioso do qual ele faz parte não é o meu. Ignoramos que todo e qualquer Amor procede de Deus. É dom dEle. NUNCA parte de nós.
Mentalidade tola essa. Sem medo de pegar pesado, afirmo que, além de tola, também é burra. Como ler isso (em 1 João 4) e continuar achando que o Amor de Deus está em algum espaço físico? Pensar que a fé em Deus está no lugar a que se vai aos domingos? Que o verdadeiro Amor tem endereço humano, precedido de um nome, que, obrigatoriamente, começa com a palavra “igreja”?
Não, Jesus nunca esteve preocupado com nenhuma dessas bandeiras. Ele carregou apenas uma: o Amor. E quer que a carreguemos também: “Quem ama a Deus, ame também a seu irmão.”
O mundo carece do Amor. Não resta tempo pra discussões teológicas e religiosas. Pessoas estão morrendo, enquanto os fãs da religião discutem qual delas é a melhor. Esquecem-se que a verdadeira religião é o Amor.
De que adianta olhar para o céu e declarar amor a um Deus a quem não se vê? Afirmo, sem medo, que não vale nada, se esse ato nos impede de olhar para o chão e perceber que, ali - caído, sujo, ferido, machucado -, está alguém extremamente carente e necessitado do Amor.
E aí, qual será a nossa atitude daqui pra frente: nós vamos amar – ou não?
Via Renovaldo
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Crítica Cristã
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Sobre deuses e rezas
Rubem Alves
Perdida no meio dos viajantes que enchiam o aeroporto, ela era uma figura destoante. A roupa largada, os passos pesados, uma sacola de plástico pendurada numa das mãos – esses sinais diziam que ela já não mais ligava para a sua condição de mulher: não se importava em ser bonita. Pensei mesmo que se tratava de uma freira. Seu comportamento era curioso: dirigia-se às pessoas, falava por alguns momentos, e como não lhe prestassem atenção procurava outras com quem falar. Quando vi que ela tinha uma Bíblia na mão compreendi tudo: ela se imaginava possuidora de conhecimentos sobre Deus que os outros não possuíam e tratava de salvar a alma deles.
Meu caminho me obrigou a passar perto dela – e quando olhei para o seu rosto de perto levei um susto: eu o reconheci de outros tempos, quando ela era uma moça bonita que ria e brincava e para quem olhávamos com olhares de cobiça.
Não resisti e chamei alto o seu nome. Ela se espantou, olhou-me com um olhar interrogativo, não me reconheceu. Com razão. Os muitos anos deixam suas marcas no rosto.
– Eu sou o Rubem!
Seu rosto se iluminou pela lembrança, sorriu, e pensei que poderíamos nos assentar e conversar sobre as nossas vidas. Mas sua preocupação com a minha alma não permitia essas perdas de tempo com conversa fiada. E ela tratou de verificar se o meu passaporte para a eternidade estava em ordem:
– Você continua firme na fé!?
– Mas de jeito nenhum. Então você deixou de ler a Bíblia? Pois lá está dito que Deus é espírito, vento impetuoso que sopra em todo lugar, o mesmo vento que ele soprou dentro da gente para que respirássemos, fôssemos leves e pudéssemos voar. Quem está no vento não pode estar firme. Firmes são as pedras, as tartarugas, as âncoras. Você já viu um papagaio firme? Papagaio firme é papagaio no chão, não voa. Pois eu estou mais é como urubu, lá nas alturas, flutuando ao sabor do imprevisível Vento Sagrado, sem firmeza alguma, rodando em largos círculos.
Ela ficou perdida, acho que nunca havia ouvido resposta tão estranha, mudou de tática e tentou pegar a minha alma do outro lado, desatou a falar de Deus, informou-me que ele é maravilhoso etc., etc., etc., como se estivesse no púlpito em celebração de domingo.
Refuguei e disse:
– Acho que quem não está firme em Deus é você. Olha, passei a noite toda respirando, estou respirando desde que acordei, e juro que agora é a primeira vez que penso no ar. Não pensei nem falei no ar porque somos bons amigos. Ele entra e sai do meu corpo quando quer, sem pedir licença. Mas a história seria outra se eu estivesse com asma, os brônquios apertados, o ar sem jeito de entrar, ou, como naquele anúncio antigo do xarope Bromil, o coitado do homem sufocado por uma mordaça, gritando pelo ar que lhe faltava. Por via das dúvidas até andaria com uma garrafa de oxigênio na bagagem, para qualquer emergência.
E continuei:
– Pois Deus é como o ar. Quando a gente está em boas relações com ele não é preciso falar. Mas quando a gente está atacado de asma, então é preciso ficar gritando pelo nome dele. Do jeito como o asmático invoca o ar. Quem fala com Deus o tempo todo é asmático espiritual. E é por isso que andam sempre com Deus engarrafado na Bíblia e outros livros e coisas de função parecida. Só que o vento não pode ser engarrafado...
Aí ela viu que minha alma estava perdida mesmo e, como consolo, fez um sinal de adeus e disse que iria orar muito por mim. Aí eu protestei, implorei que não o fizesse. Disse-lhe que eu tinha medo de que Deus ficasse ofendido. Pois há rezas e orações que são ofensas. É óbvio: se vou lá, bater às portas de Deus, pedindo que ele tenha dó de alguém, eu lhe estou imputando duas imperfeições que, se fosse comigo, me deixariam muito bravo.
Primeiro, estou dizendo que não acredito no amor dele, deve ser meio fraquinho, sem iniciativa, preguiçoso, à espera do meu cutucão. Se eu não der a minha cutucada, Deus não se mexe. E isso não é coisa de ofender Deus? Segundo, estou sugerindo que Ele deve andar meio esquecido, desmemoriado, necessitado de um secretário que lhe lembre suas obrigações. E trato de, diariamente, apresentar-lhe a sua agenda de trabalho. Mas está lá nos salmos e nos evangelhos que Deus sabe tudo antes que a gente fale qualquer coisa. Ora, se a gente fica no falatório é porque não acredita nisso. Não acredito em oração em que a gente fala e Deus escuta. Acredito mesmo é na oração em que a gente fica quieto para ouvir a voz que se faz ouvir no meio do silêncio.
Voltei à minha amiga:
– Veja você. Tive um filho que estudava longe. Eu gostava dele. Ele gostava de mim. De vez em quando a gente se falava ao telefone. E o dinheiro da mesada ia sempre, com telefonema ou sem telefonema. Agora imagine: de repente começo a perceber telefonemas dele três vezes por dia e mensagens por sedex, cartas e telegramas louvando o meu amor, agradecendo a minha generosidade... Você acha que isso me faria feliz? De jeito nenhum. Concluiria que o meu pobre filho havia endoidecido e estava acometido de um terrível medo de que eu o abandonasse. Pois é assim mesmo com Deus: quem fica o dia inteiro atrás dele, com falatório, é porque desconfia dele. Mas o pior é o gosto estético que assim se imputa a Deus. Uma pessoa que gosta de passar o dia inteiro ouvindo os outros repetindo as mesmas coisas, as mesmas palavras, as mesmas rezas, pela eternidade afora, não deve ser muito boa da cabeça. Para mim isso é o inferno. Quem reza demais acha que Deus não funciona bem da cabeça. Acho que ele ficaria mais feliz se, em vez do meu falatório, eu lhe oferecesse uma sonata de Mozart ou um poema da Adélia...
Mas aí o alto-falante chamou o meu vôo, tive de me despedir, e imagino que ela ficou aflita, temerosa de que Deus derrubasse meu avião com um raio. Mal sabia ela que Deus nem mesmo havia ouvido a nossa conversa pois, cansado das doidices dos adultos, ele foge sempre que vê dois deles conversando e se esconde deles, disfarçado de criança.
28/2/94
Fonte: Teologia do Cotidiano
Perdida no meio dos viajantes que enchiam o aeroporto, ela era uma figura destoante. A roupa largada, os passos pesados, uma sacola de plástico pendurada numa das mãos – esses sinais diziam que ela já não mais ligava para a sua condição de mulher: não se importava em ser bonita. Pensei mesmo que se tratava de uma freira. Seu comportamento era curioso: dirigia-se às pessoas, falava por alguns momentos, e como não lhe prestassem atenção procurava outras com quem falar. Quando vi que ela tinha uma Bíblia na mão compreendi tudo: ela se imaginava possuidora de conhecimentos sobre Deus que os outros não possuíam e tratava de salvar a alma deles.
Meu caminho me obrigou a passar perto dela – e quando olhei para o seu rosto de perto levei um susto: eu o reconheci de outros tempos, quando ela era uma moça bonita que ria e brincava e para quem olhávamos com olhares de cobiça.
Não resisti e chamei alto o seu nome. Ela se espantou, olhou-me com um olhar interrogativo, não me reconheceu. Com razão. Os muitos anos deixam suas marcas no rosto.
– Eu sou o Rubem!
Seu rosto se iluminou pela lembrança, sorriu, e pensei que poderíamos nos assentar e conversar sobre as nossas vidas. Mas sua preocupação com a minha alma não permitia essas perdas de tempo com conversa fiada. E ela tratou de verificar se o meu passaporte para a eternidade estava em ordem:
– Você continua firme na fé!?
– Mas de jeito nenhum. Então você deixou de ler a Bíblia? Pois lá está dito que Deus é espírito, vento impetuoso que sopra em todo lugar, o mesmo vento que ele soprou dentro da gente para que respirássemos, fôssemos leves e pudéssemos voar. Quem está no vento não pode estar firme. Firmes são as pedras, as tartarugas, as âncoras. Você já viu um papagaio firme? Papagaio firme é papagaio no chão, não voa. Pois eu estou mais é como urubu, lá nas alturas, flutuando ao sabor do imprevisível Vento Sagrado, sem firmeza alguma, rodando em largos círculos.
Ela ficou perdida, acho que nunca havia ouvido resposta tão estranha, mudou de tática e tentou pegar a minha alma do outro lado, desatou a falar de Deus, informou-me que ele é maravilhoso etc., etc., etc., como se estivesse no púlpito em celebração de domingo.
Refuguei e disse:
– Acho que quem não está firme em Deus é você. Olha, passei a noite toda respirando, estou respirando desde que acordei, e juro que agora é a primeira vez que penso no ar. Não pensei nem falei no ar porque somos bons amigos. Ele entra e sai do meu corpo quando quer, sem pedir licença. Mas a história seria outra se eu estivesse com asma, os brônquios apertados, o ar sem jeito de entrar, ou, como naquele anúncio antigo do xarope Bromil, o coitado do homem sufocado por uma mordaça, gritando pelo ar que lhe faltava. Por via das dúvidas até andaria com uma garrafa de oxigênio na bagagem, para qualquer emergência.
E continuei:
– Pois Deus é como o ar. Quando a gente está em boas relações com ele não é preciso falar. Mas quando a gente está atacado de asma, então é preciso ficar gritando pelo nome dele. Do jeito como o asmático invoca o ar. Quem fala com Deus o tempo todo é asmático espiritual. E é por isso que andam sempre com Deus engarrafado na Bíblia e outros livros e coisas de função parecida. Só que o vento não pode ser engarrafado...
Aí ela viu que minha alma estava perdida mesmo e, como consolo, fez um sinal de adeus e disse que iria orar muito por mim. Aí eu protestei, implorei que não o fizesse. Disse-lhe que eu tinha medo de que Deus ficasse ofendido. Pois há rezas e orações que são ofensas. É óbvio: se vou lá, bater às portas de Deus, pedindo que ele tenha dó de alguém, eu lhe estou imputando duas imperfeições que, se fosse comigo, me deixariam muito bravo.
Primeiro, estou dizendo que não acredito no amor dele, deve ser meio fraquinho, sem iniciativa, preguiçoso, à espera do meu cutucão. Se eu não der a minha cutucada, Deus não se mexe. E isso não é coisa de ofender Deus? Segundo, estou sugerindo que Ele deve andar meio esquecido, desmemoriado, necessitado de um secretário que lhe lembre suas obrigações. E trato de, diariamente, apresentar-lhe a sua agenda de trabalho. Mas está lá nos salmos e nos evangelhos que Deus sabe tudo antes que a gente fale qualquer coisa. Ora, se a gente fica no falatório é porque não acredita nisso. Não acredito em oração em que a gente fala e Deus escuta. Acredito mesmo é na oração em que a gente fica quieto para ouvir a voz que se faz ouvir no meio do silêncio.
Voltei à minha amiga:
– Veja você. Tive um filho que estudava longe. Eu gostava dele. Ele gostava de mim. De vez em quando a gente se falava ao telefone. E o dinheiro da mesada ia sempre, com telefonema ou sem telefonema. Agora imagine: de repente começo a perceber telefonemas dele três vezes por dia e mensagens por sedex, cartas e telegramas louvando o meu amor, agradecendo a minha generosidade... Você acha que isso me faria feliz? De jeito nenhum. Concluiria que o meu pobre filho havia endoidecido e estava acometido de um terrível medo de que eu o abandonasse. Pois é assim mesmo com Deus: quem fica o dia inteiro atrás dele, com falatório, é porque desconfia dele. Mas o pior é o gosto estético que assim se imputa a Deus. Uma pessoa que gosta de passar o dia inteiro ouvindo os outros repetindo as mesmas coisas, as mesmas palavras, as mesmas rezas, pela eternidade afora, não deve ser muito boa da cabeça. Para mim isso é o inferno. Quem reza demais acha que Deus não funciona bem da cabeça. Acho que ele ficaria mais feliz se, em vez do meu falatório, eu lhe oferecesse uma sonata de Mozart ou um poema da Adélia...
Mas aí o alto-falante chamou o meu vôo, tive de me despedir, e imagino que ela ficou aflita, temerosa de que Deus derrubasse meu avião com um raio. Mal sabia ela que Deus nem mesmo havia ouvido a nossa conversa pois, cansado das doidices dos adultos, ele foge sempre que vê dois deles conversando e se esconde deles, disfarçado de criança.
28/2/94
Fonte: Teologia do Cotidiano
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sábado, 21 de novembro de 2009
Grão de Mostarda
Thiago Azevedo
Pequena semente,
Tão pequena e singela
Frágil, de vida incerta.
A que compararei
Esta pequena vida?
Ainda não sei sobre sua sina.
Vou e semeio na terra
Sem saber o que surgirá
Deixo que vá o sol
E recebo a lua
Que me acompanha no esperar.
É preciso que morra
Para que se rompa a vida
E reluzir o maravilhoso mistério.
Surge um broto
Já surge belo, porém pequeno
Tanto que cabe na palma da mão.
Vai se virando os dias
As noites a contar e cantar
E o pequeno broto
Vira uma grande e frondosa árvore
Aonde os pássaros vêm se aninhar.
A que compararei
Esta grande árvore?
Que de tão bela não vejo outro lugar.
Comparo com o Reino do Pai
Onde todos tem lugar
Aninha sem receio, a todos sem julgar.
Assim é o Reino,
Que como uma grande árvore
Sombra nos dá
Para os pés cansados
Enfim descansar.
Via Manga e Poesia
Pequena semente,
Tão pequena e singela
Frágil, de vida incerta.
A que compararei
Esta pequena vida?
Ainda não sei sobre sua sina.
Vou e semeio na terra
Sem saber o que surgirá
Deixo que vá o sol
E recebo a lua
Que me acompanha no esperar.
É preciso que morra
Para que se rompa a vida
E reluzir o maravilhoso mistério.
Surge um broto
Já surge belo, porém pequeno
Tanto que cabe na palma da mão.
Vai se virando os dias
As noites a contar e cantar
E o pequeno broto
Vira uma grande e frondosa árvore
Aonde os pássaros vêm se aninhar.
A que compararei
Esta grande árvore?
Que de tão bela não vejo outro lugar.
Comparo com o Reino do Pai
Onde todos tem lugar
Aninha sem receio, a todos sem julgar.
Assim é o Reino,
Que como uma grande árvore
Sombra nos dá
Para os pés cansados
Enfim descansar.
Via Manga e Poesia
Nisto sabereis que são meus discípulos
Thiago Azevedo
Na nossa caminhada destacamos diversas formas de fundamentar quem é e quem não é discípulo de Cristo, entre elas é a própria afirmação de que Jesus é o filho de Deus, o Cristo encarnado que veio para remissão de nossos pecados, porém, se observarmos qual a palavra mais forte neste Novo Testamento, é justamente o amor. Esta palavra que orienta e re-ordena todo o processo de re-ligação à Deus, que vão desde as parábolas como a do Pai Amoroso, do Bom Pastor.
Esse sentimento, não é apenas caracterizado apenas por um ato platônico de sentir, antes, impulsiona a sermos mais solidários e empáticos com as pessoas, seja elas quem for e nisto está a marca dos verdadeiros discípulos de Cristo. Ora, não se pode conjecturar afirmando apenas que é para os amigos de Jesus, ou para "os de casa", porque se observarmos bem com quem este Jesus andou, fora justamente a escória da época e com isso ele subverte toda uma ordem em nome do amor, onde os que eram justos, se tornaram injustos e os injustos, os justos.
Isso vem desde Oséias quando afirma que Deus queria mais misericórdia e solidariedade do que rito, sacrifício e religiosidade. Nos profetas vemos um Deus cansado de tanto sangue de sacrifício e nenhuma diferença na vida dos homens, toda lei, toda aliança baseada neste sacrifício não fazia dos homens melhores, principalmente não os fazia próximos de Deus.
Essa é uma questão que nos permeia até hoje, porque Deus foi desenhado com uma face aterrorizante pela religião que nos ensinou a viver a síndrome de Adão e Eva, que quando Deus queria passear pelo jardim à brisa da tarde, se escondiam com medo. Essa é a face de um Deus que exige de nós temor e esse temor faz com que fluam em nós sentimentos como medo, culpa, fracasso, intolerâncias, dimensionamentos de pecados, julgamentos, se não é pelo amor é pela dor, resumindo, a face de um Deus que se tornou tirano.
Com essa caracterização a graça perde sua beleza e essência, pois esse temor esconde o maior atributo de Deus e não só atributo como essência, aquilo que lhe molda e dá sentido, o amor. Então o que Deus quer mais de nós, temor ou amor? Vemos em Jesus que Deus quer que nos aproximemos Dele não cabisbaixos ou medrosos diante de sua grandeza, pelo contrário, felizes e de cabeças erguidas, quer pessoas que tenham a petulância de chamá-lo de Abba, paizinho, que não tenham vergonha de lhe olhar nos olhos e dizer o que pensam.
Deus quer tanto isso, que não mediu esforços para se diminuir e se aproximar face a face dos homens através de Jesus Cristo e repintar a divindade. Com Jesus, Deus fora re-criado no imaginário da humanidade. Nunca se viu um Deus tão livre, tão pleno de paz, tão cheio de amor. Por isso fora morto, pois a religião não gosta do amor, pois ela quebra lógica, quebra planejamentos, quebra orçamentos, quebra conceitos. Os religiosos não gostam de perder o controle e Jesus vem distribuir um amor sem medida, sem controle e sem tamanho. Isso fica claro no episódio sobre o perdão, quando Pedro interroga Jesus sobre a medida do perdão e o mestre responde que Pedro deve sete vezes sempre perdoar, não tem medida.
A graça só é graça quando é permeada de amor, não há espaço para divagações teológicas sobre se é por eleição ou livre arbítrio. Esses são conceitos que os homens criaram para efetuar seu censo divino, para termos dimensão de quantos poderão morar nos céus, divagar sobre que será seu vizinho e assim colocar seus sentimentos acima dos de Deus, seus planos acima dos de Deus. Eu digo, não percam tempo com isso, amem-se mutuamente, espalhe o amor através de gestos e ações que façam diferença na vida das pessoas.
Se de fato o amor fosse uma marca dos discípulos de Cristo nos dias de hoje, não haveria necessidade de uma lei contra a homofobia, não seria necessário criminalizar o racismo, não haveria intolerância religiosa, justamente porque eles não haveriam, lembrando que muitos dos cristãos são responsáveis por essas questões emblemáticas em nossos dias.
Não é a sã doutrina que nos marca como cristãos, justamente porque hoje não há mais sã doutrina, há um alvoroço doutrinário por todos os lados, ninguém consegue mais ajuntar, apenas espalhar, pois perdemos nossa marca, o amor que nos une, o amor que nos faz render, o amor que nos torna bem-aventurados, o amor que nos faz olhar o outro não como outro, mas como próximo, que nos faz ir em direção dele não como a necessidade de mais um adepto, mas simplesmente porque me importo.
Parafraseando Paulo, "Pelo amor sois salvos e isso não vem de vós, é dom de Deus e não de obras para que ninguém se glorie, porém somos feitos para estas obras", para obras de amor.
Isso é tão profundo e emblemático que Cristo havia feito uma profecia acerca disso, quando diz que "chegará o tempo em que o amor de muitos esfriará", será que isso não tem acontecido conosco? Lutamos doutrinariamente uns com os outros e até que ponto há amor nisso? Quantos será que já enviamos ao inferno através de nossos corações e palavras? Quantos poderiam ser realmente transformados pelo toque de amor de Cristo que deveria residir em nós? Será que não criamos mais um tópico dos ítens da Reforma - Sola Eclesia?
Na nossa caminhada destacamos diversas formas de fundamentar quem é e quem não é discípulo de Cristo, entre elas é a própria afirmação de que Jesus é o filho de Deus, o Cristo encarnado que veio para remissão de nossos pecados, porém, se observarmos qual a palavra mais forte neste Novo Testamento, é justamente o amor. Esta palavra que orienta e re-ordena todo o processo de re-ligação à Deus, que vão desde as parábolas como a do Pai Amoroso, do Bom Pastor.
Esse sentimento, não é apenas caracterizado apenas por um ato platônico de sentir, antes, impulsiona a sermos mais solidários e empáticos com as pessoas, seja elas quem for e nisto está a marca dos verdadeiros discípulos de Cristo. Ora, não se pode conjecturar afirmando apenas que é para os amigos de Jesus, ou para "os de casa", porque se observarmos bem com quem este Jesus andou, fora justamente a escória da época e com isso ele subverte toda uma ordem em nome do amor, onde os que eram justos, se tornaram injustos e os injustos, os justos.
Isso vem desde Oséias quando afirma que Deus queria mais misericórdia e solidariedade do que rito, sacrifício e religiosidade. Nos profetas vemos um Deus cansado de tanto sangue de sacrifício e nenhuma diferença na vida dos homens, toda lei, toda aliança baseada neste sacrifício não fazia dos homens melhores, principalmente não os fazia próximos de Deus.
Essa é uma questão que nos permeia até hoje, porque Deus foi desenhado com uma face aterrorizante pela religião que nos ensinou a viver a síndrome de Adão e Eva, que quando Deus queria passear pelo jardim à brisa da tarde, se escondiam com medo. Essa é a face de um Deus que exige de nós temor e esse temor faz com que fluam em nós sentimentos como medo, culpa, fracasso, intolerâncias, dimensionamentos de pecados, julgamentos, se não é pelo amor é pela dor, resumindo, a face de um Deus que se tornou tirano.
Com essa caracterização a graça perde sua beleza e essência, pois esse temor esconde o maior atributo de Deus e não só atributo como essência, aquilo que lhe molda e dá sentido, o amor. Então o que Deus quer mais de nós, temor ou amor? Vemos em Jesus que Deus quer que nos aproximemos Dele não cabisbaixos ou medrosos diante de sua grandeza, pelo contrário, felizes e de cabeças erguidas, quer pessoas que tenham a petulância de chamá-lo de Abba, paizinho, que não tenham vergonha de lhe olhar nos olhos e dizer o que pensam.
Deus quer tanto isso, que não mediu esforços para se diminuir e se aproximar face a face dos homens através de Jesus Cristo e repintar a divindade. Com Jesus, Deus fora re-criado no imaginário da humanidade. Nunca se viu um Deus tão livre, tão pleno de paz, tão cheio de amor. Por isso fora morto, pois a religião não gosta do amor, pois ela quebra lógica, quebra planejamentos, quebra orçamentos, quebra conceitos. Os religiosos não gostam de perder o controle e Jesus vem distribuir um amor sem medida, sem controle e sem tamanho. Isso fica claro no episódio sobre o perdão, quando Pedro interroga Jesus sobre a medida do perdão e o mestre responde que Pedro deve sete vezes sempre perdoar, não tem medida.
A graça só é graça quando é permeada de amor, não há espaço para divagações teológicas sobre se é por eleição ou livre arbítrio. Esses são conceitos que os homens criaram para efetuar seu censo divino, para termos dimensão de quantos poderão morar nos céus, divagar sobre que será seu vizinho e assim colocar seus sentimentos acima dos de Deus, seus planos acima dos de Deus. Eu digo, não percam tempo com isso, amem-se mutuamente, espalhe o amor através de gestos e ações que façam diferença na vida das pessoas.
Se de fato o amor fosse uma marca dos discípulos de Cristo nos dias de hoje, não haveria necessidade de uma lei contra a homofobia, não seria necessário criminalizar o racismo, não haveria intolerância religiosa, justamente porque eles não haveriam, lembrando que muitos dos cristãos são responsáveis por essas questões emblemáticas em nossos dias.
Não é a sã doutrina que nos marca como cristãos, justamente porque hoje não há mais sã doutrina, há um alvoroço doutrinário por todos os lados, ninguém consegue mais ajuntar, apenas espalhar, pois perdemos nossa marca, o amor que nos une, o amor que nos faz render, o amor que nos torna bem-aventurados, o amor que nos faz olhar o outro não como outro, mas como próximo, que nos faz ir em direção dele não como a necessidade de mais um adepto, mas simplesmente porque me importo.
Parafraseando Paulo, "Pelo amor sois salvos e isso não vem de vós, é dom de Deus e não de obras para que ninguém se glorie, porém somos feitos para estas obras", para obras de amor.
Isso é tão profundo e emblemático que Cristo havia feito uma profecia acerca disso, quando diz que "chegará o tempo em que o amor de muitos esfriará", será que isso não tem acontecido conosco? Lutamos doutrinariamente uns com os outros e até que ponto há amor nisso? Quantos será que já enviamos ao inferno através de nossos corações e palavras? Quantos poderiam ser realmente transformados pelo toque de amor de Cristo que deveria residir em nós? Será que não criamos mais um tópico dos ítens da Reforma - Sola Eclesia?
"Um novo mandamento vos dou: Que vos ameis uns aos outros; como eu vos amei a vós, que também vós uns aos outros vos ameis. Nisto todos conhecerão que sois meus discípulos, se vos amardes uns aos outros." João 13.34, 35Paz e bem
sexta-feira, 20 de novembro de 2009
Do lado de fora
Thiago Azevedo
Certo homem que durante muito tempo tinha plena certeza das coisas e possuia de certa forma grande valor. Servia todos os domingos no templo, apoiando os pastores, diáconos, dava aulas regularmente na EBD, dava seu dízimo disciplinarmente sem pestanejar e congregava numa igreja evangélica de cerca de 3.000 pessoas no centro da cidade.
Este homem conhecia todas as entrâncias e políticas da sua denominação, lutava por melhorias estruturais e queria acima de tudo uma igreja forte, com isso não media esforços para ver esse sonho realizado. Gastava horas e dias na igreja, servindo-a, acreditando estar cumprindo a vontade de Deus.
Certo dia, quando se dirigia à igreja para a EBD e o culto de domingo, viu um homem estranho sentado na sarjeta do lado de fora da igreja, aproximou-se dele e começaram a conversar.
- Olá. Disse o homem.
- Olá.
- Porque estás sentado aqui do lado de fora, não queres entrar na igreja e cultuar a Deus comigo?
- Não me deixam entrar, então resolvi ficar aqui fora observando os pássaros e as árvores e quem sabe ter alguém com quem pudesse compartilhar esse momento. Não queres sentar aqui comigo?
- Sabe, é que estou me atrasando para meu comprimisso com o Senhor.
- Que Senhor é esse? Perguntou o maltrapilho.
- É o Senhor Jesus, Ele morreu para nos salvar e estou retribuindo sua dávida, vindo à igreja, onde posso adorá-lo e glorificar Seu nome, através do amor.
- O seu Jesus disse para vir à Igreja?
- Na verdade não disse, mas pela tradição fazemos isso?
- Porque?
O homem parou um pouco e pensou profundamente porque fazia aquilo todo o domingo se quando lia a Bíblia não encontrava nenhuma referência sobre ir à igreja, pelo contrário, sempre se questionava sobre o ser igreja. E com isso resolveu ficar sentado com aquele homem e lhe ouvir dizer.
- Na verdade não sei bem o porque fazemos isso. Quando leio a Bíblia encontro referências sobre ser igreja e não ir até ela.
- Bem, pelo que conheço da história, esse tal Jesus que você fala, morreu por uma causa muito grande. Ele tinha doze seguidores, os quais preparou com muito carinho e cuidado para viver de acordo com um código, um sistema.
- Isso.
- Esse sistema podemos verificar diversas vezes no Novo Testamento, se chama amor. Ora, quando se ama, não se pode amar estruturas ou objetos, mas pessoas, por isso vejo que esse Jesus andava mais do lado de fora das sinagogas do que dentro delas. Justamente porque a política, o poder, a arrogância da religião judaica havia expulsado Deus de dentro de seu sistema religioso. Por isso encontramos profetas como Oséias que gritam por Deus dizendo: Misericórdia quero e não sacrifício. Sabe o que significa isso?
- Que Deus não quer que vivamos através de rituais sem vida e nem sentimento, pelo contrário, quer que tenhamos um sentimento de humildade e solidariedade.
- Justamente, porém o que os homens fazem? Criam para si novos sistemas, mudando os discursos, mas que nas suas práticas permanecem as mesmas realizadas na época dos profetas.
- Mas Deus nos disse que deveríamos pregar sua mensagem até os confins da terra e a igreja tem sido um canal importante para essa propagação, então precisamos dela.
- Jesus havia delegado essa responsabilidade à pessoas e não a organizações, estruturas políticas, ritos. Quando ele subiu aos céus, não havia deixado nada, além de pessoas e a principal missão que delegou aos seus discípulos, fora que se amassem uns aos outros assim como ele os amou. Então, você vê isso dentro de sua igreja?
- Vejo, nós nos amamos.
- Mas então onde estão os deficientes, os pobres, os miseráveis desta terra. Porque não está dentro da igreja com vocês.
O homem fez um profundo silêncio, como que não soubesse responder, ou tivesse medo de sua própria resposta. Após alguns segundos o homem continuou.
- Vocês falam do amor de Deus como um simples sentimento, mas se observarmos bem esse amor é muito mais concreto em ações, esse amor de Deus é inclusivo e irresponsável, pois não leva em conta suas impressões de quem deve ou não ser incluído neste reino, na verdade, todos estão inclusos. Todos deveriam caminhar juntos de mãos dadas.
- Como assim?
- Vocês falam de salvação da alma? Mas Deus fala de resgate da vida. Lembra das parábolas de Jesus, todas elas falam de amor, de compaixão, de misericórdia e principalmente, resgate, a parábola do Pai Amoroso, da Moeda perdida, da ovelha perdida e assim por diante. Essa deveria ser a atuação da tal igreja de Cristo, porém, os cristãos se acomodaram e constituiram para si templos onde levam as pessoas para cultuar a Deus e isso quebra totalmente o racioncínio da conversa feita entre Jesus e a mulher samaritana.
- Mas Deus pode usar a igreja, não pode?
- Na verdade, hoje Deus está mais do lado de fora da igreja, esperando sentado na sarjeta por alguém que queria desfrutar com Ele da beleza de sua criação, do que ficar aprisionado numa estrutura de concreto, frio e escuro.
- Mas fazemos isso pra Ele.
- Perguntaram alguma vez se Deus queria isso?
- Mas não fomos feitos para Seu louvor?
- Não, Deus, quando enviou seu filho ao mundo, não foi para morrer pelos pecadores, mas para amá-los, é nisso que mora o mistério da fé e da graça, o amor. Quando Jesus constituiu seres humanos para serem os verdadeiros templos de Deus nesse momento houve um processo de recriação da humanidade, onde não fomos feitos para seu louvor, ou para louvá-lo, mas para sermos simplesmente amor. Deus não é amor?
- Sim.
- Se Deus é amor, então a natureza dos cristãos, ou daqueles que vivem dentro da ótica divina seria o amor, não é verdade? Então como manifestar o amor de Deus? Jesus nos dá várias vezes a resposta, mas em especial na parábola do bom Samaritano. Agora, dá para amar ao próximo preso a um sistema como a igreja?
- Dá.
- Mas quando você se torna membro da política interna da igreja, onde há conchavos, lutas por interesses, mandos e desmandos, questões financeiras, intrigas e etc. Ainda dá para exercitar essa natureza de Deus?
- Realmente não dá, na verdade, quando nos envolvemos com estas coisas burocráticas perdemos um pouco a simplicidade de tudo isso que dizes. Mas não há como se libertar disso.
- Se creres em Cristo verdadeiramente serás livre. Livre da burocracia, da institucionalização do amor e poderás sentar comigo aqui, conversar e desfrutar da beleza destas árvores, do canto dos pássaros. Poderemos andar e abraçar as pessoas e chorar pelos oprimidos deste mundo. Sem crises, sem lei, sem dogma. Jesus nos chama para longe da religião, mesmo que para isso nos sintamos sozinhos.
- Essa perspectiva me dá medo.
- Realmente, a princípio os discípulos também tiveram medo, porque a maioria eram bons judeus, religiosos, apesar de excluídos e discriminados. Com o tempo e a cada caminhada, viam com segurança o amor de Deus se manifestar em cada um, mesmo quando pecavam.
- Não sei o que pensar.
- Fique em paz, apenas deixe fluir o amor de Deus na sua vida e verás que é muito mais fácil se livrar da religião do que você pensa.
Eles se levantaram e o homem parou um pouco para respirar e tentar absorver tudo aquilo e fez isso olhando para os céus e quando voltou a olhar para aquele que lhe contava tudo aquilo, viu que tinha partido de forma misteriosa deixando no local apenas uma rosa com alguns espinhos.
Aquele homem pegou a rosa e a guardou em sua bíblia, mas antes a observou com cuidado e viu todos os seus cravos e se recordou da coroa de espinhos de seu mestre e nesse momento percebeu quem era o homem que lhe falava de forma tão doce, porém tão profunda.
Era Jesus de Nazaré.
Paz e bem
Certo homem que durante muito tempo tinha plena certeza das coisas e possuia de certa forma grande valor. Servia todos os domingos no templo, apoiando os pastores, diáconos, dava aulas regularmente na EBD, dava seu dízimo disciplinarmente sem pestanejar e congregava numa igreja evangélica de cerca de 3.000 pessoas no centro da cidade.
Este homem conhecia todas as entrâncias e políticas da sua denominação, lutava por melhorias estruturais e queria acima de tudo uma igreja forte, com isso não media esforços para ver esse sonho realizado. Gastava horas e dias na igreja, servindo-a, acreditando estar cumprindo a vontade de Deus.
Certo dia, quando se dirigia à igreja para a EBD e o culto de domingo, viu um homem estranho sentado na sarjeta do lado de fora da igreja, aproximou-se dele e começaram a conversar.
- Olá. Disse o homem.
- Olá.
- Porque estás sentado aqui do lado de fora, não queres entrar na igreja e cultuar a Deus comigo?
- Não me deixam entrar, então resolvi ficar aqui fora observando os pássaros e as árvores e quem sabe ter alguém com quem pudesse compartilhar esse momento. Não queres sentar aqui comigo?
- Sabe, é que estou me atrasando para meu comprimisso com o Senhor.
- Que Senhor é esse? Perguntou o maltrapilho.
- É o Senhor Jesus, Ele morreu para nos salvar e estou retribuindo sua dávida, vindo à igreja, onde posso adorá-lo e glorificar Seu nome, através do amor.
- O seu Jesus disse para vir à Igreja?
- Na verdade não disse, mas pela tradição fazemos isso?
- Porque?
O homem parou um pouco e pensou profundamente porque fazia aquilo todo o domingo se quando lia a Bíblia não encontrava nenhuma referência sobre ir à igreja, pelo contrário, sempre se questionava sobre o ser igreja. E com isso resolveu ficar sentado com aquele homem e lhe ouvir dizer.
- Na verdade não sei bem o porque fazemos isso. Quando leio a Bíblia encontro referências sobre ser igreja e não ir até ela.
- Bem, pelo que conheço da história, esse tal Jesus que você fala, morreu por uma causa muito grande. Ele tinha doze seguidores, os quais preparou com muito carinho e cuidado para viver de acordo com um código, um sistema.
- Isso.
- Esse sistema podemos verificar diversas vezes no Novo Testamento, se chama amor. Ora, quando se ama, não se pode amar estruturas ou objetos, mas pessoas, por isso vejo que esse Jesus andava mais do lado de fora das sinagogas do que dentro delas. Justamente porque a política, o poder, a arrogância da religião judaica havia expulsado Deus de dentro de seu sistema religioso. Por isso encontramos profetas como Oséias que gritam por Deus dizendo: Misericórdia quero e não sacrifício. Sabe o que significa isso?
- Que Deus não quer que vivamos através de rituais sem vida e nem sentimento, pelo contrário, quer que tenhamos um sentimento de humildade e solidariedade.
- Justamente, porém o que os homens fazem? Criam para si novos sistemas, mudando os discursos, mas que nas suas práticas permanecem as mesmas realizadas na época dos profetas.
- Mas Deus nos disse que deveríamos pregar sua mensagem até os confins da terra e a igreja tem sido um canal importante para essa propagação, então precisamos dela.
- Jesus havia delegado essa responsabilidade à pessoas e não a organizações, estruturas políticas, ritos. Quando ele subiu aos céus, não havia deixado nada, além de pessoas e a principal missão que delegou aos seus discípulos, fora que se amassem uns aos outros assim como ele os amou. Então, você vê isso dentro de sua igreja?
- Vejo, nós nos amamos.
- Mas então onde estão os deficientes, os pobres, os miseráveis desta terra. Porque não está dentro da igreja com vocês.
O homem fez um profundo silêncio, como que não soubesse responder, ou tivesse medo de sua própria resposta. Após alguns segundos o homem continuou.
- Vocês falam do amor de Deus como um simples sentimento, mas se observarmos bem esse amor é muito mais concreto em ações, esse amor de Deus é inclusivo e irresponsável, pois não leva em conta suas impressões de quem deve ou não ser incluído neste reino, na verdade, todos estão inclusos. Todos deveriam caminhar juntos de mãos dadas.
- Como assim?
- Vocês falam de salvação da alma? Mas Deus fala de resgate da vida. Lembra das parábolas de Jesus, todas elas falam de amor, de compaixão, de misericórdia e principalmente, resgate, a parábola do Pai Amoroso, da Moeda perdida, da ovelha perdida e assim por diante. Essa deveria ser a atuação da tal igreja de Cristo, porém, os cristãos se acomodaram e constituiram para si templos onde levam as pessoas para cultuar a Deus e isso quebra totalmente o racioncínio da conversa feita entre Jesus e a mulher samaritana.
- Mas Deus pode usar a igreja, não pode?
- Na verdade, hoje Deus está mais do lado de fora da igreja, esperando sentado na sarjeta por alguém que queria desfrutar com Ele da beleza de sua criação, do que ficar aprisionado numa estrutura de concreto, frio e escuro.
- Mas fazemos isso pra Ele.
- Perguntaram alguma vez se Deus queria isso?
- Mas não fomos feitos para Seu louvor?
- Não, Deus, quando enviou seu filho ao mundo, não foi para morrer pelos pecadores, mas para amá-los, é nisso que mora o mistério da fé e da graça, o amor. Quando Jesus constituiu seres humanos para serem os verdadeiros templos de Deus nesse momento houve um processo de recriação da humanidade, onde não fomos feitos para seu louvor, ou para louvá-lo, mas para sermos simplesmente amor. Deus não é amor?
- Sim.
- Se Deus é amor, então a natureza dos cristãos, ou daqueles que vivem dentro da ótica divina seria o amor, não é verdade? Então como manifestar o amor de Deus? Jesus nos dá várias vezes a resposta, mas em especial na parábola do bom Samaritano. Agora, dá para amar ao próximo preso a um sistema como a igreja?
- Dá.
- Mas quando você se torna membro da política interna da igreja, onde há conchavos, lutas por interesses, mandos e desmandos, questões financeiras, intrigas e etc. Ainda dá para exercitar essa natureza de Deus?
- Realmente não dá, na verdade, quando nos envolvemos com estas coisas burocráticas perdemos um pouco a simplicidade de tudo isso que dizes. Mas não há como se libertar disso.
- Se creres em Cristo verdadeiramente serás livre. Livre da burocracia, da institucionalização do amor e poderás sentar comigo aqui, conversar e desfrutar da beleza destas árvores, do canto dos pássaros. Poderemos andar e abraçar as pessoas e chorar pelos oprimidos deste mundo. Sem crises, sem lei, sem dogma. Jesus nos chama para longe da religião, mesmo que para isso nos sintamos sozinhos.
- Essa perspectiva me dá medo.
- Realmente, a princípio os discípulos também tiveram medo, porque a maioria eram bons judeus, religiosos, apesar de excluídos e discriminados. Com o tempo e a cada caminhada, viam com segurança o amor de Deus se manifestar em cada um, mesmo quando pecavam.
- Não sei o que pensar.
- Fique em paz, apenas deixe fluir o amor de Deus na sua vida e verás que é muito mais fácil se livrar da religião do que você pensa.
Eles se levantaram e o homem parou um pouco para respirar e tentar absorver tudo aquilo e fez isso olhando para os céus e quando voltou a olhar para aquele que lhe contava tudo aquilo, viu que tinha partido de forma misteriosa deixando no local apenas uma rosa com alguns espinhos.
Aquele homem pegou a rosa e a guardou em sua bíblia, mas antes a observou com cuidado e viu todos os seus cravos e se recordou da coroa de espinhos de seu mestre e nesse momento percebeu quem era o homem que lhe falava de forma tão doce, porém tão profunda.
Era Jesus de Nazaré.
Paz e bem
Mulher adúltera
José Barbosa Junior
Desde pequena eu sabia o que era certo.
Meu pai, um dos principais da sinagoga, fazia questão de nos ensinar toda a Torá desde pequeninos. Na verdade, ele ensinava somente aos meus irmãos, mas eu me aventurava em ouvir os ensinos, escondida atrás da porta. Achava fascinante, e ao mesmo tempo pesado... eram tantas leis, tantos mandamentos...
Será que algum homem seria capaz de cumpri-los todos? Sinceramente, achava impossível... e me calava.
A esperança brilhava nos meus olhos quando o ouvia falando do tal messias, o que viria para salvar o seu povo. Como deveria ser? Será que o tal messias me olharia um dia nos olhos? Ou será que estava condenada a viver minha vida toda atrás das portas... escondida dos homens?
O tempo passou. Cresci, e ainda em minha adolescência fui obrigada a casar com um homem a quem não amava. Era o costume, e assim foi... Eu era cuidada por ele como um objeto precioso, havia respeito, mas não amor, amor que eu tanto procurava. Os amigos de meu pai me consideravam uma jovem muito bonita e faziam questão de externarem suas opiniões. Eu gostava. Não ouvia tais elogios de meu marido.
Fui me acostumando àqueles elogios. Na verdade alguns eram até ousados demais, e me deixavam sem graça, pois percebia suas intenções, podres intenções. Eram homens casados também, oficiais na sinagoga, alguns anciãos, outros mais jovens, mas queriam que eu os servisse, nem que fosse por uma noite apenas.
Aquela situação me causava muito desconforto. Sentia raiva,e até mesmo nojo daqueles homens... exceto um, que me chamava a atenção. Era casado também, mas parecia me querer bem... fui seduzida!
Nunca imaginara trair meu marido, mas naquela madrugada, antes do nascer do sol me entreguei àquele homem. Nem de longe imaginava o que ainda estava por acontecer.
Os outros homens, amigos do meu pai, haviam percebido o meu envolvimento, e seguiram-nos até nos pegarem em pleno ato de adultério. Meu dia estava apenas começando. Quanta vergonha!!!
Pegaram-me, nua, e carregaram-me para o Templo, onde um homem de Nazaré ensinava naquela manhã que nascia. Havia uma multidão para ouvi-lo. A vergonha era maior ainda. Muitos me conheciam... muitos conheciam meu pai... muitos conheciam meu marido.
Tive medo!
Fui jogada no meio da multidão, que se acotovelava para ouvir o tal profeta Galileu. Achei estranho perceber que estava só. Apesar de eu e meu então amante sermos pegos juntos no ato de adultério, apenas eu fui levada como adúltera... ele não!
Olhei então e vi aqueles homens que antes me assediavam, perguntando àquele Rabi: “mestre, esta mulher foi surpreendida em adultério. Na lei, Moisés nos ordena apedrejar tais mulheres. Tu, porém, o que dizes?”
Eu olhava aquela cena e meu nojo aumentava. Os homens que queriam apedrejar-me eram os mesmos que viviam se insinuando para mim. Quanta hipocrisia. Quanto ódio tive da religião!
O tal Rabi galileu permanecia calado.
De repente, inclinou-se e começou a escrever na terra com seu próprio dedo. Eu não acreditava no que meus olhos começavam a ler.
Aquele homem começou escrevendo o meu nome, e abaixo do meu nome começou a enumerar os meus pecados. TODOS os meus pecados!
Eu queria a morte naquele momento. Que as pedras viessem logo. Não suportaria tanta vergonha.
Num ímpeto, o Rabi levantou-se e disse àqueles homens, meus censores, prontos a colocar sob um monturo de pedras mais uma adúltera: “quem dentre vós que não tem pecado, seja o primeiro a lhe atirar uma pedra!” ... E voltou a escrever meus erros na terra.
Algo muito estranho começou a acontecer: a começar dos mais velhos, um por um, forma largando as pedras em seus pés, virando as costas, e indo embora.
Ficamos só eu e o tal profeta.
Eu tremia!
Ele calmamente levantou-se e veio em minhas direção. Percebi algo no seu olhar. Era diferente. Ele não me desejava. Vi amor no seu olhar. Nunca antes alguém havia me olhado assim. Enquanto caminhava em minhas direção, não tive como não perceber que suas pegadas firmes e constantes, pisavam e apagavam a minha enorme lista de pecados. Lembrei-me de um texto que sempre ouvia meu pai ensinar aos meus irmãos: “pelas suas pisaduras fomos sarados”.
Seria esse Rabi, diante de mim, o messias esperado? Bem que eu já havia ouvido rumores a respeito disso.
Ele aproximou-se de mim, e tirando a sua capa. Cobriu a minha nudez.perguntou-me com uma voz inconfundivelmente firme e amorosa: “Mulher, onde estão eles? Ninguém te condenou?”
Minha voz trêmula conseguiu balbuciar: “Ninguém, Senhor!”
Ele então, segurando em minhas mãos e erguendo-me do chão, olhou nos meus olhos e disse: “Nem eu te condeno. Vai, e de agora em diante não peques mais.”
Meus olhos marejados ainda puderam ver aquele homem se afastando e voltando a ensinar o povo. Eu estava verdadeiramente diante do messias!
Olhei para o chão e lá estavam todos os meus pecados marcados com a sola dos pés daquele rabi. Só uma coisa não havia sido pisado: o meu nome! Ele estava intacto, escrito pelas mãos do próprio salvador. Lembrei-me então de um outro texto sempre recitado pelo meu pai, acerca do messias: “Ele não esmagará a cana quebrada, nem apagará o pavio que ainda fumega...”
Fui para casa... mas sabia que daquele dia em diante nunca mais seria a mesma. Nunca esquecerei de seu olhar, sua voz, e seu amor: “Nem eu te condeno!”
Prossigo em meu caminho, às vezes tropeçando, mas sempre com sua fala graciosa ecoando em mim: “Vai, e de agora em diante... não peques mais!”
Desde pequena eu sabia o que era certo.
Meu pai, um dos principais da sinagoga, fazia questão de nos ensinar toda a Torá desde pequeninos. Na verdade, ele ensinava somente aos meus irmãos, mas eu me aventurava em ouvir os ensinos, escondida atrás da porta. Achava fascinante, e ao mesmo tempo pesado... eram tantas leis, tantos mandamentos...
Será que algum homem seria capaz de cumpri-los todos? Sinceramente, achava impossível... e me calava.
A esperança brilhava nos meus olhos quando o ouvia falando do tal messias, o que viria para salvar o seu povo. Como deveria ser? Será que o tal messias me olharia um dia nos olhos? Ou será que estava condenada a viver minha vida toda atrás das portas... escondida dos homens?
O tempo passou. Cresci, e ainda em minha adolescência fui obrigada a casar com um homem a quem não amava. Era o costume, e assim foi... Eu era cuidada por ele como um objeto precioso, havia respeito, mas não amor, amor que eu tanto procurava. Os amigos de meu pai me consideravam uma jovem muito bonita e faziam questão de externarem suas opiniões. Eu gostava. Não ouvia tais elogios de meu marido.
Fui me acostumando àqueles elogios. Na verdade alguns eram até ousados demais, e me deixavam sem graça, pois percebia suas intenções, podres intenções. Eram homens casados também, oficiais na sinagoga, alguns anciãos, outros mais jovens, mas queriam que eu os servisse, nem que fosse por uma noite apenas.
Aquela situação me causava muito desconforto. Sentia raiva,e até mesmo nojo daqueles homens... exceto um, que me chamava a atenção. Era casado também, mas parecia me querer bem... fui seduzida!
Nunca imaginara trair meu marido, mas naquela madrugada, antes do nascer do sol me entreguei àquele homem. Nem de longe imaginava o que ainda estava por acontecer.
Os outros homens, amigos do meu pai, haviam percebido o meu envolvimento, e seguiram-nos até nos pegarem em pleno ato de adultério. Meu dia estava apenas começando. Quanta vergonha!!!
Pegaram-me, nua, e carregaram-me para o Templo, onde um homem de Nazaré ensinava naquela manhã que nascia. Havia uma multidão para ouvi-lo. A vergonha era maior ainda. Muitos me conheciam... muitos conheciam meu pai... muitos conheciam meu marido.
Tive medo!
Fui jogada no meio da multidão, que se acotovelava para ouvir o tal profeta Galileu. Achei estranho perceber que estava só. Apesar de eu e meu então amante sermos pegos juntos no ato de adultério, apenas eu fui levada como adúltera... ele não!
Olhei então e vi aqueles homens que antes me assediavam, perguntando àquele Rabi: “mestre, esta mulher foi surpreendida em adultério. Na lei, Moisés nos ordena apedrejar tais mulheres. Tu, porém, o que dizes?”
Eu olhava aquela cena e meu nojo aumentava. Os homens que queriam apedrejar-me eram os mesmos que viviam se insinuando para mim. Quanta hipocrisia. Quanto ódio tive da religião!
O tal Rabi galileu permanecia calado.
De repente, inclinou-se e começou a escrever na terra com seu próprio dedo. Eu não acreditava no que meus olhos começavam a ler.
Aquele homem começou escrevendo o meu nome, e abaixo do meu nome começou a enumerar os meus pecados. TODOS os meus pecados!
Eu queria a morte naquele momento. Que as pedras viessem logo. Não suportaria tanta vergonha.
Num ímpeto, o Rabi levantou-se e disse àqueles homens, meus censores, prontos a colocar sob um monturo de pedras mais uma adúltera: “quem dentre vós que não tem pecado, seja o primeiro a lhe atirar uma pedra!” ... E voltou a escrever meus erros na terra.
Algo muito estranho começou a acontecer: a começar dos mais velhos, um por um, forma largando as pedras em seus pés, virando as costas, e indo embora.
Ficamos só eu e o tal profeta.
Eu tremia!
Ele calmamente levantou-se e veio em minhas direção. Percebi algo no seu olhar. Era diferente. Ele não me desejava. Vi amor no seu olhar. Nunca antes alguém havia me olhado assim. Enquanto caminhava em minhas direção, não tive como não perceber que suas pegadas firmes e constantes, pisavam e apagavam a minha enorme lista de pecados. Lembrei-me de um texto que sempre ouvia meu pai ensinar aos meus irmãos: “pelas suas pisaduras fomos sarados”.
Seria esse Rabi, diante de mim, o messias esperado? Bem que eu já havia ouvido rumores a respeito disso.
Ele aproximou-se de mim, e tirando a sua capa. Cobriu a minha nudez.perguntou-me com uma voz inconfundivelmente firme e amorosa: “Mulher, onde estão eles? Ninguém te condenou?”
Minha voz trêmula conseguiu balbuciar: “Ninguém, Senhor!”
Ele então, segurando em minhas mãos e erguendo-me do chão, olhou nos meus olhos e disse: “Nem eu te condeno. Vai, e de agora em diante não peques mais.”
Meus olhos marejados ainda puderam ver aquele homem se afastando e voltando a ensinar o povo. Eu estava verdadeiramente diante do messias!
Olhei para o chão e lá estavam todos os meus pecados marcados com a sola dos pés daquele rabi. Só uma coisa não havia sido pisado: o meu nome! Ele estava intacto, escrito pelas mãos do próprio salvador. Lembrei-me então de um outro texto sempre recitado pelo meu pai, acerca do messias: “Ele não esmagará a cana quebrada, nem apagará o pavio que ainda fumega...”
Fui para casa... mas sabia que daquele dia em diante nunca mais seria a mesma. Nunca esquecerei de seu olhar, sua voz, e seu amor: “Nem eu te condeno!”
Prossigo em meu caminho, às vezes tropeçando, mas sempre com sua fala graciosa ecoando em mim: “Vai, e de agora em diante... não peques mais!”
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A homofobia e o racismo estão entre as questões morais mais sérias e inquietantes desta geração, e tanto a Igreja quanto a sociedade parecem nos limitar a alternativas antagônicas. A moralidade liberal de religiosos e políticos de esquerda é equivalente ao moralismo beato dos religiosos e políticos de direita. A aceitação acrítica de qualquer uma dessas linhas partidárias é uma forma de abdicação idólatra à essência da identidade como filho de Deus. Nem a delicadeza liberal nem a truculência dos conservadores focam a questão da dignidade humana, sempre vestida com farrapos. Os filhos de Deus encontram uma terceira via. São guiados pela Palavra de Deus e apenas por ela. Todos os sistemas religiosos e políticos, tanto de direita quanto de esquerda, são obras de seres humanos. Os filhos de Deus não venderão seu direito à primogenitura por nenhum prato de ensopado, seja ele conservador ou liberal. Eles se apegam a liberdade em Cristo para viver o Evangelho ― não se permitem contaminar pelo lixo cultural, pela imundície política ou pelas hipocrisias enfeitadas de discursos religiosos.
Os que estão inclinados a entregar os gays aos torturadores não podem reivindicar nenhuma autoridade moral sobre os filhos de Deus. Durante o tempo que viveu na terra, Jesus via essas pessoas obscuras como as responsáveis pela corrupção da natureza essencial da religião. Esse tipo de religião restrita e separatista é um lugar isolado, um Éden coberto de mato, uma igreja na qual as pessoas vivem em uma alienação espiritual qua as distancia de seus melhores talentos humanos. Buechner escreveu:
— Sempre soubemos o que estava errado conosco: a maldade, até mesmo no mais civilizado entre nós; nossa falsidade, as máscaras atrás das quais mantemos nossos reais interesses; a inveja, forma pela qual a sorte das outras pessoas pode nos aferroar como vespas; e todo tipo de calúnia, o modo como ridicularizamos uns aos outros, mesmo quando nos amamos. Tudo isso é de uma baixeza e de um absurdo infantis. “Livre-se disso”, diz Pedro. “Cresça na salvação. Em nome de Cristo, cresça.” (Frederich Buechner, The Clown in the Belfry, p.146)
A ordem de Jesus para nos amarmos uns aos outros nunca se limita à nacionalidade, ao status, à etnia, à preferência sexual ou à amabilidade inerente ao “outro”. O outro, aquele que reivindica meu amor, é qualquer um a quem sou capaz de reagir, como ilustra com clareza a parábola do bom samaritano. “Qual destes três você acha que foi o próximo do homem que caiu nas mãos dos assaltantes?”, perguntou Jesus. A resposta foi: “Aquele que teve misericórdia dele”. Jesus disse: “Vá e faça o mesmo” (cf. Lc 10:36-37, NVI).
— Dê uma olhada na rosa. É possível para ela dizer: “Vou oferecer minha fragrância às pessoas boas e negá-la às más”? Ou dá para imaginar uma lâmpada que retem seus raios luminosos para o ímpio que busca andar em sua luz? Só poderia fazer isso se deixasse de ser lâmpada. E observe o modo inevitável e indiscriminatório pelo qual a árvore fornece sombra a todos, bons e ruins, jovens e velhos, grandes e humildes; os animais, os humanos e a toda criatura vivente, mesmo aquele que procura cortá-la. Esta é a principal característica da compaixão: seu caráter indiscriminado. (Anthony DEMello, The Way to Love, 1991, p. 77)
Via Urro do Leão
O Impostor Que Vive Em Mim, p. 82-84.
A homofobia e o racismo estão entre as questões morais mais sérias e inquietantes desta geração, e tanto a Igreja quanto a sociedade parecem nos limitar a alternativas antagônicas. A moralidade liberal de religiosos e políticos de esquerda é equivalente ao moralismo beato dos religiosos e políticos de direita. A aceitação acrítica de qualquer uma dessas linhas partidárias é uma forma de abdicação idólatra à essência da identidade como filho de Deus. Nem a delicadeza liberal nem a truculência dos conservadores focam a questão da dignidade humana, sempre vestida com farrapos. Os filhos de Deus encontram uma terceira via. São guiados pela Palavra de Deus e apenas por ela. Todos os sistemas religiosos e políticos, tanto de direita quanto de esquerda, são obras de seres humanos. Os filhos de Deus não venderão seu direito à primogenitura por nenhum prato de ensopado, seja ele conservador ou liberal. Eles se apegam a liberdade em Cristo para viver o Evangelho ― não se permitem contaminar pelo lixo cultural, pela imundície política ou pelas hipocrisias enfeitadas de discursos religiosos.
Os que estão inclinados a entregar os gays aos torturadores não podem reivindicar nenhuma autoridade moral sobre os filhos de Deus. Durante o tempo que viveu na terra, Jesus via essas pessoas obscuras como as responsáveis pela corrupção da natureza essencial da religião. Esse tipo de religião restrita e separatista é um lugar isolado, um Éden coberto de mato, uma igreja na qual as pessoas vivem em uma alienação espiritual qua as distancia de seus melhores talentos humanos. Buechner escreveu:
— Sempre soubemos o que estava errado conosco: a maldade, até mesmo no mais civilizado entre nós; nossa falsidade, as máscaras atrás das quais mantemos nossos reais interesses; a inveja, forma pela qual a sorte das outras pessoas pode nos aferroar como vespas; e todo tipo de calúnia, o modo como ridicularizamos uns aos outros, mesmo quando nos amamos. Tudo isso é de uma baixeza e de um absurdo infantis. “Livre-se disso”, diz Pedro. “Cresça na salvação. Em nome de Cristo, cresça.” (Frederich Buechner, The Clown in the Belfry, p.146)
A ordem de Jesus para nos amarmos uns aos outros nunca se limita à nacionalidade, ao status, à etnia, à preferência sexual ou à amabilidade inerente ao “outro”. O outro, aquele que reivindica meu amor, é qualquer um a quem sou capaz de reagir, como ilustra com clareza a parábola do bom samaritano. “Qual destes três você acha que foi o próximo do homem que caiu nas mãos dos assaltantes?”, perguntou Jesus. A resposta foi: “Aquele que teve misericórdia dele”. Jesus disse: “Vá e faça o mesmo” (cf. Lc 10:36-37, NVI).
— Dê uma olhada na rosa. É possível para ela dizer: “Vou oferecer minha fragrância às pessoas boas e negá-la às más”? Ou dá para imaginar uma lâmpada que retem seus raios luminosos para o ímpio que busca andar em sua luz? Só poderia fazer isso se deixasse de ser lâmpada. E observe o modo inevitável e indiscriminatório pelo qual a árvore fornece sombra a todos, bons e ruins, jovens e velhos, grandes e humildes; os animais, os humanos e a toda criatura vivente, mesmo aquele que procura cortá-la. Esta é a principal característica da compaixão: seu caráter indiscriminado. (Anthony DEMello, The Way to Love, 1991, p. 77)
Via Urro do Leão
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quinta-feira, 19 de novembro de 2009
Chama Verequete
O termo "carimbó" aparece em seus primeiros registros como o nome de um instrumento musical de percussão. Sua definição mais antiga consta no Glossário Paraense de Vicente Chermont de Miranda, publicado em 1905. Conforme Chermont, o carimbó seria um “tambor feito de madeira oca e coberto, em uma de suas extremidades, por um couro de veado”. Tal definição, ainda hoje, serve para explicar o formato do instrumento e apresentar suas principais características.
No entanto, a palavra carimbó, na atualidade, significa muito mais do que apenas o nome do tambor. Abrange, na verdade, todo um conjunto musical que vai do instrumento à dança. Corresponde a um tipo de manifestação específica de algumas áreas do Pará e mesmo do Maranhão. Ele se caracteriza pela utilização de dois tambores (carimbós), que deram nome à música e à dança, além de outros instrumentos próprios como a onça (nome local dado à cuíca), o reco-reco (instrumento dentado feito de bambu), a viola, etc. Também se conhece uma variante musical do carimbó que possui o mesmo nome (chamado de “carimbó eletrônico”), mas que, ao invés da marcação rítmica com os tambores característicos, utiliza uma bateria eletrônica e guitarras.
Augusto Gomes Rodrigues – mestre Verequete nasceu em um lugar conhecido por "Careca" que fica localizado próximo à Vila de Quatipuru, no município de Bragança, em 26 de agosto de 1926. Seu pai, Antônio José Rodrigues, era oficial de justiça, marchante de gado e músico. Sua mãe, Maximiana Gomes Rodrigues, faleceu quando Verequete tinha apenas três anos de idade. Tal acontecimento antecedeu a primeira migração de Verequete para outro município. Ele, juntamente com seu pai, passou a residir no município de Ourém. Aos doze anos de idade mudou-se sozinho para Capanema, onde trabalhou como foguista, e em 1940 chegou a Belém, indo morar em Icoaraci (antiga Vila de Pinheiro). Neste período, Verequete trabalhou como ajudante de capataz na Base Aérea da cidade e subiu de posto até chegar a ser ajudante de agrimensor. Quando deixou de trabalhar na Base, Verequete exerceu outras atividades para garantir sua subsistência. Foi arremate de vísceras, açougueiro, marchante de porco e outros, no entanto a experiência de trabalho na Base Aérea marcaria para sempre sua vida, pois foi durante este trabalho que ele perdeu seu nome original (Augusto Gomes Rodrigues) e passou a ser identificado como Verequete. Por trás deste nome tão diferente existe uma história muito interessante que pode ser contada pelo próprio Augusto Gomes Rodrigues, ou Verequete. Uma história que ele não se cansa de contar:
Eu gostava de uma moça; então ela me convidou para ir ao batuque que eu nunca tinha visto. Umas certas horas da madrugada o Pai de Santo cantou "Chama Verequete". Eu era capataz da Base Aérea de Belém, na época da construção, cheguei na hora do almoço e contei a história do batuque... Quando acabei de contar, me chamaram de Verequete.
Chama Verequete, ê, ê, ê, ê
Chama Verequete, ô, ô, ô, ô
Chama Verequete, ruuuum
Chama Verequete...
Chama Verequete, oh! Verê
Oi, chama Verequete, oh! Verê
Ogum balailê, pelejar, pelejar
Ogum, Ogum, tatára com Deus
Guerreiro Ogum, tatára com Deus
Mamãe Ogum, tatára com Deus
Aruanda, aruanda, aruanda, aruanda ê
Mandei fazer meu terreiro
bem na beirinha do mar
mandei fazer meu terreiro
só pra mim brincar
Fonte: Instituto Jair Moura e Overmundo
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Carimbó - Patrimônio dos Paraenses
História do Carimbó
A mais extraordinária manifestação de criatividade artística do povo paraense foi criada pelos índios Tupinambá que, segundo os historiadores, eram dotados de um senso artístico invulgar, chegando a ser considerados, nas tribos, como verdadeiros semi-deuses.
Inicialmente, segundo tudo indica, a "Dança do Carimbó" era apresentada num andamento monótono, como acontece com a grande maioria das danças indígenas. Quando os escravos africanos tomaram contato com essa manifestação artística dos Tupinambá começaram a aperfeiçoar a dança, iniciando pelo andamento que , de monótono, passou a vibrar como uma espécie de variante do batuque africano.
Por isso contagiava até mesmo os colonizadores portugueses que, pelo interesse de conseguir mão-de-obra para os mais diversos trabalhos, não somente estimulavam essas manifestações, como também, excepcionalmente, faziam questão de participar, acrescentando traços da expressão corporal característica das danças portuguesas. Não é à toa que a "Dança do Carimbó" apresenta, em certas passagens, alguns movimentos das danças folclóricas lusitanas, como os dedos castanholando na marcação certa do ritmo agitado e absorvente.
Coreografia:
A dança é apresentada em pares. Começa com duas fileiras de homens e mulheres com a frente voltada para o centro. Quando a música inicia os homens vão em direção às mulheres, diante das quais batem palmas como uma espécie de convite para a dança. Imediatamente os pares se formam, girando continuamente em torno de si mesmo, ao mesmo tempo formando um grande círculo que gira em sentido contrário ao ponteiro do relógio. Nesta parte observa-se a influência indígena, quando os dançarinos fazem alguns movimentos com o corpo curvado para frente, sempre puxando-o com um pé na frente, marcando acentuadamente o ritmo vibrante.
As mulheres, cheias de encantos, costumam tirar graça com seus companheiros segurando a barra da saia, esperando o momento em que os seus cavalheiros estejam distraídos para atirar-lhes no rosto esta parte da indumentária feminina. O fato sempre provoca gritos e gargalhadas nos outros dançadores. O cavalheiro que é vaiado pelos seus próprios companheiros é forçado a abandonar o local da dança.
Em determinado momento da "dança do carimbó" vai para o centro um casal de dançadores para a execução da famosa dança do peru, ou "Peru de Atalaia", onde o cavalheiro é forçado a apanhar, apenas com a boca, um lenço que sua companheira estende no chão. Caso o cavalheiro não consiga executar tal proeza sua companheira atira- lhe a barra da saia no rosto e, debaixo de vaias dos demais, ele é forçado a abandonar a dança. Caso consiga é aplaudido.
Indumentária:
Todos os dançarinos apresentam-se descalços. As mulheres usam saias coloridas, muito franzidas e amplas, blusas de cor lisa, pulseiras e colares de sementes grandes. Os cabelos são ornamentados com ramos de rosas ou jasmim de Santo Antônio. Os homens apresentam-se com calças de mescla azul clara e camisas do mesmo tom, com as pontas amarradas na altura do umbigo, além de um lenço vermelho no pescoço.
Denominação:
A denominação da "Dança do Carimbó" vem do titulo dado pelos indígenas aos dois tambores de dimensões diferentes que servem para o acompanhamento básico do ritmo.
Na língua indígena "Carimbó" - Curi (Pau) e Mbó ( Oco ou furado), significa pau que produz som. Em alguns lugares do interior do Pará continua o título original de "Dança do Curimbó".
Mais recentemente , entretanto, a dança ficou nacionalmente conhecida como "Dança do Carimbó", sem qualquer possibilidade de transformação.
Instrumentos típicos:
O acompanhamento da dança tem, obrigatoriamente, dois "carimbos" (tambores) com dimensões diferentes para se conseguir contraste sonoro, com os tocadores sentados sobre os troncos, utilizando as mãos à guisa de baquetas, com os quais executam o ritmo adequado.
Outro tocador, com dois paus, executa outros instrumentos obrigatórios, como o ganzá, o reco-reco, o banjo, a flauta, os maracás, afochê e os pandeiros. Esses instrumentos compõem o conjunto musical característico, sem a utilização de instrumentos eletrônicos.
A mais extraordinária manifestação de criatividade artística do povo paraense foi criada pelos índios Tupinambá que, segundo os historiadores, eram dotados de um senso artístico invulgar, chegando a ser considerados, nas tribos, como verdadeiros semi-deuses.
Inicialmente, segundo tudo indica, a "Dança do Carimbó" era apresentada num andamento monótono, como acontece com a grande maioria das danças indígenas. Quando os escravos africanos tomaram contato com essa manifestação artística dos Tupinambá começaram a aperfeiçoar a dança, iniciando pelo andamento que , de monótono, passou a vibrar como uma espécie de variante do batuque africano.
Por isso contagiava até mesmo os colonizadores portugueses que, pelo interesse de conseguir mão-de-obra para os mais diversos trabalhos, não somente estimulavam essas manifestações, como também, excepcionalmente, faziam questão de participar, acrescentando traços da expressão corporal característica das danças portuguesas. Não é à toa que a "Dança do Carimbó" apresenta, em certas passagens, alguns movimentos das danças folclóricas lusitanas, como os dedos castanholando na marcação certa do ritmo agitado e absorvente.
Coreografia:
A dança é apresentada em pares. Começa com duas fileiras de homens e mulheres com a frente voltada para o centro. Quando a música inicia os homens vão em direção às mulheres, diante das quais batem palmas como uma espécie de convite para a dança. Imediatamente os pares se formam, girando continuamente em torno de si mesmo, ao mesmo tempo formando um grande círculo que gira em sentido contrário ao ponteiro do relógio. Nesta parte observa-se a influência indígena, quando os dançarinos fazem alguns movimentos com o corpo curvado para frente, sempre puxando-o com um pé na frente, marcando acentuadamente o ritmo vibrante.
As mulheres, cheias de encantos, costumam tirar graça com seus companheiros segurando a barra da saia, esperando o momento em que os seus cavalheiros estejam distraídos para atirar-lhes no rosto esta parte da indumentária feminina. O fato sempre provoca gritos e gargalhadas nos outros dançadores. O cavalheiro que é vaiado pelos seus próprios companheiros é forçado a abandonar o local da dança.
Em determinado momento da "dança do carimbó" vai para o centro um casal de dançadores para a execução da famosa dança do peru, ou "Peru de Atalaia", onde o cavalheiro é forçado a apanhar, apenas com a boca, um lenço que sua companheira estende no chão. Caso o cavalheiro não consiga executar tal proeza sua companheira atira- lhe a barra da saia no rosto e, debaixo de vaias dos demais, ele é forçado a abandonar a dança. Caso consiga é aplaudido.
Indumentária:
Todos os dançarinos apresentam-se descalços. As mulheres usam saias coloridas, muito franzidas e amplas, blusas de cor lisa, pulseiras e colares de sementes grandes. Os cabelos são ornamentados com ramos de rosas ou jasmim de Santo Antônio. Os homens apresentam-se com calças de mescla azul clara e camisas do mesmo tom, com as pontas amarradas na altura do umbigo, além de um lenço vermelho no pescoço.
Denominação:
A denominação da "Dança do Carimbó" vem do titulo dado pelos indígenas aos dois tambores de dimensões diferentes que servem para o acompanhamento básico do ritmo.
Na língua indígena "Carimbó" - Curi (Pau) e Mbó ( Oco ou furado), significa pau que produz som. Em alguns lugares do interior do Pará continua o título original de "Dança do Curimbó".
Mais recentemente , entretanto, a dança ficou nacionalmente conhecida como "Dança do Carimbó", sem qualquer possibilidade de transformação.
Instrumentos típicos:
O acompanhamento da dança tem, obrigatoriamente, dois "carimbos" (tambores) com dimensões diferentes para se conseguir contraste sonoro, com os tocadores sentados sobre os troncos, utilizando as mãos à guisa de baquetas, com os quais executam o ritmo adequado.
Outro tocador, com dois paus, executa outros instrumentos obrigatórios, como o ganzá, o reco-reco, o banjo, a flauta, os maracás, afochê e os pandeiros. Esses instrumentos compõem o conjunto musical característico, sem a utilização de instrumentos eletrônicos.
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Pinduca - O Rei do Carimbó
Pinduca faz parte do imaginário popular paraense, seu carimbó irreverente e simples, apesar de fazer parte de uma linha do Carimbó mais contemporânea com inserções de instrumentos modernos e arranjos mais elaborados do que os pais que desenvolveram esse patrimônio cultural de minha terra.
Garota do Tacacá
Pinduca
Oi mexe, mexe menina
Pode mexer sem parar
Você agora é a minha
Garota do tacacá (bis)
Rala, rala a mandioca
Espreme no tipiti
Separa na tapioca
Apara o tucupi
Prepara meu tacacá
Gostoso com açaí (bis)
Garota do Tacacá
Pinduca
Oi mexe, mexe menina
Pode mexer sem parar
Você agora é a minha
Garota do tacacá (bis)
Rala, rala a mandioca
Espreme no tipiti
Separa na tapioca
Apara o tucupi
Prepara meu tacacá
Gostoso com açaí (bis)
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Quando penso em desistir
Thiago Azevedo
Estes últimos dias tenho parado pra ver o canal evangélico da minha cidade e também o programa ponto de luz da Record. Isso me deixa de certa forma deprimido, pois olhando para o mundo cristão, tanto televisivo, quanto na minha própria rotina eclesiátisca (que nem tem sido presencial, pois vou apenas para a EBD, pois sou professor e no trabalho que efetuo com um grupo de amigos na periferia da cidade). Tenho visto cada vez mais a valorização exarcerbada do valor de ter.
Cada vez mais nossa fé tem sido medida pelo que conseguimos com ela, isso é dentro do aspecto material e ouvindo testemunhos, pessoas relatando suas conquistas, fico pensando em pessoas como Jó, os apóstolos, ou o próprio Cristo. Que conquistas materiais eles teriam a nos relatar? Tirando Jó que no final da sua jornada, fora-lhe restituido o que tinha, mas para isso, não precisou ordenar, nem mesmo pedir, porque não sabia se teria tudo de volta e o que lhe restou? Apenas a fé num Deus que não conhecia.
Olhando para esses "vitoriosos" fico me sentindo um completo fracassado nessa luta por um evangelho simples que é pautado no sermão da montanha e no exemplo de um mestre que nos disse para sermos servos de todos, de escolher os últimos lugares e não os primeiros, que valorizar o Reino de Deus acima de todas as coisas, andar com os pobres do mundo.
Observando minha própria vida, parece que o que faço não faz sentido, pois continuo na mesma vidinha, cheia de dívidas, num trabalhinho, num apartamento, num carro velho e sujo, acordando imaginando o que fazer, mas há algo que faz toda a diferença, refletir o amor de Deus e como exercitar seu mandamento de amor para com os outros, não lhes dando as coisas, entretanto, doando de mim mesmo para os outros.
Com todos esses testemunhos "vitoriosos", me pergunto, será que o evangelho pode ser medido pelo que conquisto? Ou ser a boa nova desse evangelho é descobrir que somos maltrapilhos de Deus e que necessitamos viver simples e unicamente pela graça preciosa, que é baseada no exemplo de seu Filho, carpinteiro, filho de pais pobres, que não tinham ovelha para ofertar, apenas duas simples pombinhas? De um filho que andava com os miseráveis, porém, amavá-lhes com tal devoção que foi capaz de morrer por cada um deles.
A demonstração de amor de Cristo não é mais suficiente, Deus deve nos presentear com mimos para nos "conquistar" e isso me faz perguntar: Esse evangelho que procuro seguir, a proposta desse blog, será que ainda faz sentido? Não seria melhor desistir e seguir outro caminho? Será que eles não estão certos? Não seria melhor olhar para minha vida, justamente porque ela precisa de mim?
Estou desabafando, aquilo que muitos de nós sentem, ao mesmo tempo, olho para todos esses e vejo o filho que foi embora esbanjar a fortuna do pai e o meu medo é ter o sentimento do irmão que ficou, que não aceitava que o pai amasse aquele irmão irresponsável. Nisso vejo a contraditória paixão de Deus pela humanidade, como diz o Manning, esse amor de Deus não tem ética, não tem dignidade, não é justo. Na verdade é amor e somente amor, que não se pauta pelo que se faz e Deus os ama assim mesmo. Mesmo que em meio à escuridão dessa teologia pautada em conquistas e "vitórias" deste mundo prevaleça em suas mentes e corações. O que eles perdem com isso então? O galardão de entender mais profundamente o amor de Deus pelas pessoas e não pelas coisas.
Então o que devemos fazer? Nos render então a essa teologia? Deixá-los continuar a caminhar nessa triste escuridão? Não, de forma alguma. Devemos antes, anunciar e viver através desse amor, se a verdade do amor de Deus nos libertou, devemos ajudar esses maltrapilhos de Deus a viverem por essa mesma paixão do Pai e serem libertos assim como nós fomos. Devemos ser os irmãos que em vez de ficar em casa resmungando da libertinagem do filho, antes, caminhar junto com ele, não o censurando, mas agir como o pai, que não quis saber o que este filho fez, apenas quis beijá-lo e abraçá-lo por ter voltado pra casa.
Olhando para o amor de Cristo e lendo suas parábolas, vejo que vale a pena viver esse caminho, mesmo que seja difícil, mesmo que pareça que estamos sozinhos, até mesmo que pareça que estamos caminhando para nossa própria destruição, pois como diz Gibran:
Paz e bem.
Estes últimos dias tenho parado pra ver o canal evangélico da minha cidade e também o programa ponto de luz da Record. Isso me deixa de certa forma deprimido, pois olhando para o mundo cristão, tanto televisivo, quanto na minha própria rotina eclesiátisca (que nem tem sido presencial, pois vou apenas para a EBD, pois sou professor e no trabalho que efetuo com um grupo de amigos na periferia da cidade). Tenho visto cada vez mais a valorização exarcerbada do valor de ter.
Cada vez mais nossa fé tem sido medida pelo que conseguimos com ela, isso é dentro do aspecto material e ouvindo testemunhos, pessoas relatando suas conquistas, fico pensando em pessoas como Jó, os apóstolos, ou o próprio Cristo. Que conquistas materiais eles teriam a nos relatar? Tirando Jó que no final da sua jornada, fora-lhe restituido o que tinha, mas para isso, não precisou ordenar, nem mesmo pedir, porque não sabia se teria tudo de volta e o que lhe restou? Apenas a fé num Deus que não conhecia.
Olhando para esses "vitoriosos" fico me sentindo um completo fracassado nessa luta por um evangelho simples que é pautado no sermão da montanha e no exemplo de um mestre que nos disse para sermos servos de todos, de escolher os últimos lugares e não os primeiros, que valorizar o Reino de Deus acima de todas as coisas, andar com os pobres do mundo.
Observando minha própria vida, parece que o que faço não faz sentido, pois continuo na mesma vidinha, cheia de dívidas, num trabalhinho, num apartamento, num carro velho e sujo, acordando imaginando o que fazer, mas há algo que faz toda a diferença, refletir o amor de Deus e como exercitar seu mandamento de amor para com os outros, não lhes dando as coisas, entretanto, doando de mim mesmo para os outros.
Com todos esses testemunhos "vitoriosos", me pergunto, será que o evangelho pode ser medido pelo que conquisto? Ou ser a boa nova desse evangelho é descobrir que somos maltrapilhos de Deus e que necessitamos viver simples e unicamente pela graça preciosa, que é baseada no exemplo de seu Filho, carpinteiro, filho de pais pobres, que não tinham ovelha para ofertar, apenas duas simples pombinhas? De um filho que andava com os miseráveis, porém, amavá-lhes com tal devoção que foi capaz de morrer por cada um deles.
A demonstração de amor de Cristo não é mais suficiente, Deus deve nos presentear com mimos para nos "conquistar" e isso me faz perguntar: Esse evangelho que procuro seguir, a proposta desse blog, será que ainda faz sentido? Não seria melhor desistir e seguir outro caminho? Será que eles não estão certos? Não seria melhor olhar para minha vida, justamente porque ela precisa de mim?
Estou desabafando, aquilo que muitos de nós sentem, ao mesmo tempo, olho para todos esses e vejo o filho que foi embora esbanjar a fortuna do pai e o meu medo é ter o sentimento do irmão que ficou, que não aceitava que o pai amasse aquele irmão irresponsável. Nisso vejo a contraditória paixão de Deus pela humanidade, como diz o Manning, esse amor de Deus não tem ética, não tem dignidade, não é justo. Na verdade é amor e somente amor, que não se pauta pelo que se faz e Deus os ama assim mesmo. Mesmo que em meio à escuridão dessa teologia pautada em conquistas e "vitórias" deste mundo prevaleça em suas mentes e corações. O que eles perdem com isso então? O galardão de entender mais profundamente o amor de Deus pelas pessoas e não pelas coisas.
Então o que devemos fazer? Nos render então a essa teologia? Deixá-los continuar a caminhar nessa triste escuridão? Não, de forma alguma. Devemos antes, anunciar e viver através desse amor, se a verdade do amor de Deus nos libertou, devemos ajudar esses maltrapilhos de Deus a viverem por essa mesma paixão do Pai e serem libertos assim como nós fomos. Devemos ser os irmãos que em vez de ficar em casa resmungando da libertinagem do filho, antes, caminhar junto com ele, não o censurando, mas agir como o pai, que não quis saber o que este filho fez, apenas quis beijá-lo e abraçá-lo por ter voltado pra casa.
Olhando para o amor de Cristo e lendo suas parábolas, vejo que vale a pena viver esse caminho, mesmo que seja difícil, mesmo que pareça que estamos sozinhos, até mesmo que pareça que estamos caminhando para nossa própria destruição, pois como diz Gibran:
"Quando o amor vos acena, segui-o, embora seus caminhos sejam asperos e escarpados."
Paz e bem.
quarta-feira, 18 de novembro de 2009
Deus Coopera
Ed René Kivitz
Meu amigo Ariovaldo Ramos diz que a Bíblia é um texto zipado. É como um arquivo que se abre para a eternidade e você nunca chega ao fim de sua leitura. Não importa se vai ao mesmo texto repetidas vezes, ele sempre dirá algo novo, pois o texto em si não é absoluto, mas portador da vida do Deus eterno que se coloca dentro dele – inspiração.
A Bíblia é também um texto polissêmico – com diversos sentidos (sem contradição interna ou performática), isto é, pode ser lido por diferentes pessoas, em variadas circunstâncias, períodos da história e culturas, em diálogo com as diversas ciências, e dele brotará sempre uma nova perspectiva, um novo ângulo de iluminação da realidade e das consciências, do tempo e dos fatos.
Também creio que a Bíblia é um texto vivo, isto é, transcende a realidade estática codificada em dogma e moral, e visita a interioridade humana, e se estabelece com um terceiro dançarino no bailado do diálogo entre o divino e o humano. A Bíblia não é um livro de doutrinas, princípios ou mandamentos atestados e congelados após sujeição ao método científico.
Isso sem falar no fato de que a Bíblia é um livro cujos escritos originais estão perdidos no tempo, e tudo quanto temos em mãos são cópias de cópias, algumas mais fidedignas do que outras, e com algumas controvérsias para sua tradução, que em si mesma é revestida de conflitos e senões.
Por esta razão, há sempre mais de uma possível leitura de um texto. Qualquer pessoas que se proponha a afirmar categoricamente o que a Bíblia diz, padece de falta de informação ou é desonesto intelectualmente. O máximo que um leitor da Bíblia pode afirmar é “em consenso com a comunidade da fé, atual e histórica, e à luz de minha capacitação, experiência e maturidade, o que consegui ler neste texto da Bíblia é o seguinte...”.
Um bom exemplo disso tudo é a tradução de Romanos 8.28-30:
"Sabemos que Deus age em todas as coisas para o bem daqueles que o amam, dos que foram chamados de acordo com o seu propósito".
A Nova Versão Internacional traz em sua nota de rodapé uma outra possibilidade de tradução para o verso 8.28, em minha opinião, muito melhor e mais coerente do que esta mais tradicionalmente aceita.
"Sabemos que em todas as coisas Deus coopera juntamente com aqueles que o amam, dos que foram chamados de acordo com o seu propósito, para trazer à existência o que é bom".
Na primeira tradução: “Deus age em todas as coisas para o bem daqueles que o amam”, Deus é um manipulador de circunstâncias e seus filhos são passivos, completamente sujeitos ao soprar dos ventos da vida e dependentes do Jesus que segura o leme. Isto significa que você descansar sempre, sabendo que tudo o que lhe acontece estava determinado por Deus, que está usando todas as situações da sua vida para o seu bem, ainda que você não saiba como e porque, como naquela velha história do tapeceiro que corta os fios no avesso da tela, para ao final mostrar um belo quadro, com fios longos e lisos, outros retorcidos e outros ainda cortados rente.
Mas na segunda tradução: "Em todas as coisas Deus coopera juntamente com aqueles que o amam para trazer à existência o que é bom”, Deus não é um manipulador de circunstâncias, mas um parceiro presente em toda e qualquer situação da vida. Nesse caso, você pode acreditar que não foi Ele quem meteu você no fogo ou deixou que as águas viessem sobre você, quem fez com que a tempestade ameaçasse seu barco, ou mesmo quem colocou você bem no meio do vale da sombra da morte. Nem todas as circunstâncias de sua vida tiverem origem em Deus. Ele não é a causa de tudo o que acontece com você. Mas é certo que nenhuma das circunstâncias de sua vida escapa aos olhos de Deus, e sempre que for invocado Deus terá o que fazer para trazer à existência o que é bom. O que Deus faz, entretanto, não é necessariamente uma manipulação da situação (se bem que às vezes ele o faz), mas sempre e sempre, coopera com você, soprando sobre você o seu Espírito Santo, para que você seja capaz de enfrentar a vida, qualquer que seja ela, de modo a glorificar o nome de Jesus e sinalizar o reino de Deus na história. Deus está atento, com os olhos fixos em você, não necessariamente como causa de tudo o que acontece ao seu redor, mas certamente para mostrar-se forte com todos aqueles cujos corações são completamente dEle, inclusive você, se for o caso.
Não há como ler a Bíblia senão em humilde contrição e de joelhos, pois a verdade não brota de suas páginas senão para aqueles a quem Deus se revelar. Toda vez que o humano se depara com a verdade na palavra viva de Deus, deve cair em gratidão, sabendo que “isto não lhe foi revelado por carne ou sangue, mas pelo Pai que está nos céus”. Seja Deus, portanto, o semeador de um dos Romanos 8.28-30 em seu coração.
Vi no Fora da Zona de Conforto
Meu amigo Ariovaldo Ramos diz que a Bíblia é um texto zipado. É como um arquivo que se abre para a eternidade e você nunca chega ao fim de sua leitura. Não importa se vai ao mesmo texto repetidas vezes, ele sempre dirá algo novo, pois o texto em si não é absoluto, mas portador da vida do Deus eterno que se coloca dentro dele – inspiração.
A Bíblia é também um texto polissêmico – com diversos sentidos (sem contradição interna ou performática), isto é, pode ser lido por diferentes pessoas, em variadas circunstâncias, períodos da história e culturas, em diálogo com as diversas ciências, e dele brotará sempre uma nova perspectiva, um novo ângulo de iluminação da realidade e das consciências, do tempo e dos fatos.
Também creio que a Bíblia é um texto vivo, isto é, transcende a realidade estática codificada em dogma e moral, e visita a interioridade humana, e se estabelece com um terceiro dançarino no bailado do diálogo entre o divino e o humano. A Bíblia não é um livro de doutrinas, princípios ou mandamentos atestados e congelados após sujeição ao método científico.
Isso sem falar no fato de que a Bíblia é um livro cujos escritos originais estão perdidos no tempo, e tudo quanto temos em mãos são cópias de cópias, algumas mais fidedignas do que outras, e com algumas controvérsias para sua tradução, que em si mesma é revestida de conflitos e senões.
Por esta razão, há sempre mais de uma possível leitura de um texto. Qualquer pessoas que se proponha a afirmar categoricamente o que a Bíblia diz, padece de falta de informação ou é desonesto intelectualmente. O máximo que um leitor da Bíblia pode afirmar é “em consenso com a comunidade da fé, atual e histórica, e à luz de minha capacitação, experiência e maturidade, o que consegui ler neste texto da Bíblia é o seguinte...”.
Um bom exemplo disso tudo é a tradução de Romanos 8.28-30:
"Sabemos que Deus age em todas as coisas para o bem daqueles que o amam, dos que foram chamados de acordo com o seu propósito".
A Nova Versão Internacional traz em sua nota de rodapé uma outra possibilidade de tradução para o verso 8.28, em minha opinião, muito melhor e mais coerente do que esta mais tradicionalmente aceita.
"Sabemos que em todas as coisas Deus coopera juntamente com aqueles que o amam, dos que foram chamados de acordo com o seu propósito, para trazer à existência o que é bom".
Na primeira tradução: “Deus age em todas as coisas para o bem daqueles que o amam”, Deus é um manipulador de circunstâncias e seus filhos são passivos, completamente sujeitos ao soprar dos ventos da vida e dependentes do Jesus que segura o leme. Isto significa que você descansar sempre, sabendo que tudo o que lhe acontece estava determinado por Deus, que está usando todas as situações da sua vida para o seu bem, ainda que você não saiba como e porque, como naquela velha história do tapeceiro que corta os fios no avesso da tela, para ao final mostrar um belo quadro, com fios longos e lisos, outros retorcidos e outros ainda cortados rente.
Mas na segunda tradução: "Em todas as coisas Deus coopera juntamente com aqueles que o amam para trazer à existência o que é bom”, Deus não é um manipulador de circunstâncias, mas um parceiro presente em toda e qualquer situação da vida. Nesse caso, você pode acreditar que não foi Ele quem meteu você no fogo ou deixou que as águas viessem sobre você, quem fez com que a tempestade ameaçasse seu barco, ou mesmo quem colocou você bem no meio do vale da sombra da morte. Nem todas as circunstâncias de sua vida tiverem origem em Deus. Ele não é a causa de tudo o que acontece com você. Mas é certo que nenhuma das circunstâncias de sua vida escapa aos olhos de Deus, e sempre que for invocado Deus terá o que fazer para trazer à existência o que é bom. O que Deus faz, entretanto, não é necessariamente uma manipulação da situação (se bem que às vezes ele o faz), mas sempre e sempre, coopera com você, soprando sobre você o seu Espírito Santo, para que você seja capaz de enfrentar a vida, qualquer que seja ela, de modo a glorificar o nome de Jesus e sinalizar o reino de Deus na história. Deus está atento, com os olhos fixos em você, não necessariamente como causa de tudo o que acontece ao seu redor, mas certamente para mostrar-se forte com todos aqueles cujos corações são completamente dEle, inclusive você, se for o caso.
Não há como ler a Bíblia senão em humilde contrição e de joelhos, pois a verdade não brota de suas páginas senão para aqueles a quem Deus se revelar. Toda vez que o humano se depara com a verdade na palavra viva de Deus, deve cair em gratidão, sabendo que “isto não lhe foi revelado por carne ou sangue, mas pelo Pai que está nos céus”. Seja Deus, portanto, o semeador de um dos Romanos 8.28-30 em seu coração.
Vi no Fora da Zona de Conforto
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Semeador
Thiago Azevedo
Antes que raie o dia
Já se pôs no caminho
Sem se preocupar
Apenas caminhando
E sua semente
Semear.
Semeando palavras ao vento
Não sabe onde a semente cai
Apenas caminha
Semeando paz
Através do amor
Que vem do Pai.
Rápido o dia se despede
E junto o que semeia
Muitas sementes lançadas
Algumas na areia
Outras no sertão
Apenas as de boa terra
Germinarão.
Mas quem sabe,
Nem mesmo o semeador
Se põe a perguntar
O que mais deseja
É sair novamente
Semeando no caminhar.
Vai semeador
Semeando palavras
Que brotam de Deus
Criam raízes na terra
Raízes de vida
Bem aventurando os homens
Frutificando a paz
Caminhar e semear.
Via Manga e Poesia
Antes que raie o dia
Já se pôs no caminho
Sem se preocupar
Apenas caminhando
E sua semente
Semear.
Semeando palavras ao vento
Não sabe onde a semente cai
Apenas caminha
Semeando paz
Através do amor
Que vem do Pai.
Rápido o dia se despede
E junto o que semeia
Muitas sementes lançadas
Algumas na areia
Outras no sertão
Apenas as de boa terra
Germinarão.
Mas quem sabe,
Nem mesmo o semeador
Se põe a perguntar
O que mais deseja
É sair novamente
Semeando no caminhar.
Vai semeador
Semeando palavras
Que brotam de Deus
Criam raízes na terra
Raízes de vida
Bem aventurando os homens
Frutificando a paz
Caminhar e semear.
Via Manga e Poesia
terça-feira, 17 de novembro de 2009
Viver: aventura complicada
Ricardo Gondim
Nossa vida se mistura às emoções. Apaixonados, lutamos para não deixar que os dias escorram como água entre os dedos. Imprecisa, não-evidente, enviesada, carente de construção, a vida não espera. Artesãos precisam talhá-la com a delicadeza dos joalheiros. No caldo da angústia universal, a vida aguarda que alquimistas transformem atrevimento em circunspeção; quer converter Valquírias em Marias, bárbaros em samaritanos.
A vida transcorre em constante mistério. De onde vem a percepção da beleza? Por que nos sentimos atraídos a entesourar instantes delicados do passado sob o signo da saudade? Por que, diante da morte que desfigura e esfumaça os olhos, permanecemos obstinados em aprender?
Inventamos perguntas: Para onde se expande a margem extrema do universo? Que mecanismo impede a mente de ressentir dores? Por que nos contemplamos diferente do que somos nos sonhos, embora nunca deixemos de ser nós mesmos?
A vida se perde porque, infelizmente, começamos com afirmações mas esquecemos as perguntas; não transformamos nossos pontos de interrogação em lupas. Presunçosos, não carregamos o pente fino da dúvida nos bolsos do colete. Covardes, tememos as aporias. Desistimos dos porquês infantis e ficamos com as certezas adultas, que nos entorpecem.
A vida se veste com os andrajos da tristeza. Agonizamos quando vemos a lama burocrática cobrir o vilarejo pobre. Impotentes, desistimos de resistir ao mal sistêmico, que negocia com a alma humana. Calamos quando testemunhamos as elites movimentando o motor-contínuo financeiro, que energiza as engrenagens da injustiça.
Perdidos, hesitamos na iminência da bondade e misericórdia desaparecerem do vocabulário religioso. Abatidos, vemos a sordidez sentar na cadeira da polidez, a implacabilidade ganhar da bondade e a ambiguidade ética amordaçar a solidariedade.
Entretanto, a vida é perigosamente trágica. Entramos no palco sem ter recebido qualquer roteiro; não passamos de atores que gaguejam, sem texto para decorar; personagens que atuam, sem noção do instante trágico, quando as cortinas descerão encerrando o espetáculo. Contracenamos com atores que mal conhecemos.
Vez por outra ouvimos apupos. Inutilmente procuramos máscaras sorridentes - aquelas que disfarçam constrangimentos. Sem coxia, não sabemos para onde fugir. Assumimos diferentes papeis mesmo sabendo que nos aguarda o fim trágico será inevitável. Todos sofrem. Quando finalmente nos acostumamos com os holofotes, o diretor grita: "Acabou!".
Entretanto, a vida é bela - "e sempre desejável", disse o poeta. O dilúvio não tem força de descolorir a aquarela que brota do sol, e se refrata na neblina. Homens e mulheres insistem em esperar novo céu e nova terra: o mundo impossível onde crianças brincam com serpentes, e o boi passeia ao lado do leão.
Sim, a vida é bela. Ainda é possível perceber o sopro do Espírito no farfalhar da folha que baila enamorada do vento. Somos convidados a celebrar o encanto de viver no gesto do ancião que planta uma árvore; na obstinação da mãe que ensina a filha surda a falar com as mãos; na leveza do menino que brinca com a capoeira e faz da luta uma dança.
Soli Deo Gloria
Via Ricardo Gondim
Nossa vida se mistura às emoções. Apaixonados, lutamos para não deixar que os dias escorram como água entre os dedos. Imprecisa, não-evidente, enviesada, carente de construção, a vida não espera. Artesãos precisam talhá-la com a delicadeza dos joalheiros. No caldo da angústia universal, a vida aguarda que alquimistas transformem atrevimento em circunspeção; quer converter Valquírias em Marias, bárbaros em samaritanos.
A vida transcorre em constante mistério. De onde vem a percepção da beleza? Por que nos sentimos atraídos a entesourar instantes delicados do passado sob o signo da saudade? Por que, diante da morte que desfigura e esfumaça os olhos, permanecemos obstinados em aprender?
Inventamos perguntas: Para onde se expande a margem extrema do universo? Que mecanismo impede a mente de ressentir dores? Por que nos contemplamos diferente do que somos nos sonhos, embora nunca deixemos de ser nós mesmos?
A vida se perde porque, infelizmente, começamos com afirmações mas esquecemos as perguntas; não transformamos nossos pontos de interrogação em lupas. Presunçosos, não carregamos o pente fino da dúvida nos bolsos do colete. Covardes, tememos as aporias. Desistimos dos porquês infantis e ficamos com as certezas adultas, que nos entorpecem.
A vida se veste com os andrajos da tristeza. Agonizamos quando vemos a lama burocrática cobrir o vilarejo pobre. Impotentes, desistimos de resistir ao mal sistêmico, que negocia com a alma humana. Calamos quando testemunhamos as elites movimentando o motor-contínuo financeiro, que energiza as engrenagens da injustiça.
Perdidos, hesitamos na iminência da bondade e misericórdia desaparecerem do vocabulário religioso. Abatidos, vemos a sordidez sentar na cadeira da polidez, a implacabilidade ganhar da bondade e a ambiguidade ética amordaçar a solidariedade.
Entretanto, a vida é perigosamente trágica. Entramos no palco sem ter recebido qualquer roteiro; não passamos de atores que gaguejam, sem texto para decorar; personagens que atuam, sem noção do instante trágico, quando as cortinas descerão encerrando o espetáculo. Contracenamos com atores que mal conhecemos.
Vez por outra ouvimos apupos. Inutilmente procuramos máscaras sorridentes - aquelas que disfarçam constrangimentos. Sem coxia, não sabemos para onde fugir. Assumimos diferentes papeis mesmo sabendo que nos aguarda o fim trágico será inevitável. Todos sofrem. Quando finalmente nos acostumamos com os holofotes, o diretor grita: "Acabou!".
Entretanto, a vida é bela - "e sempre desejável", disse o poeta. O dilúvio não tem força de descolorir a aquarela que brota do sol, e se refrata na neblina. Homens e mulheres insistem em esperar novo céu e nova terra: o mundo impossível onde crianças brincam com serpentes, e o boi passeia ao lado do leão.
Sim, a vida é bela. Ainda é possível perceber o sopro do Espírito no farfalhar da folha que baila enamorada do vento. Somos convidados a celebrar o encanto de viver no gesto do ancião que planta uma árvore; na obstinação da mãe que ensina a filha surda a falar com as mãos; na leveza do menino que brinca com a capoeira e faz da luta uma dança.
Soli Deo Gloria
Via Ricardo Gondim
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Atitude Criativa
3o Fórum de Cristianismo Criativo apresenta...
"Atitude criativa na igreja", com Ed René Kivitz e Jorge Ervolini
"Atitude criativa na igreja" é o tema que reunirá o pastor Ed René Kivitz (Igreja Batista da Água Branca) e o músico Jorge Ervolini na próxima terça, 17 de novembro, no 3o Fórum Nacional de Cristianismo Criativo.
O evento acontece todas as terças-feiras de novembro, a partir das 19h30, na Livraria Cultura do Market Place Shopping. O evento é organizado pela W4 Editora, com apoio do Portal de Cristianismo Criativo.
Os dois encontros realizados neste mês reuniram nomes como o designer Wagner Archella (que expõe anualmente na Feira Internacional de Milão) e o compositor e produtor musical expert em trilhas, Maurício Domene, que falaram sobre o tema "Atitude criativa nas artes"; e o músico e compositor Gérson Borges (da Comunidade de Jesus em SBC), que abordou o tema "Atitude criativa na cultura" e lançou o CD "Nordestinamente".
Amigos, músicos, artistas e gente interessada no tema nos prestigiaram nestas edições, mas ainda falta você! Esperamos encontrá-lo em nossos eventos!
Abraços,
Ana Claudia Braun Endo - editora
Via Cristianismo Criativo
segunda-feira, 16 de novembro de 2009
"Alfredinho" - Mais um dos anônimos de Jesus
Por Frei Betto
Salão do Sindicato dos Cozinheiros de Paris, início da década de 40. 0 presidente indaga quantos trabalhadores tem um mes de férias por ano. Uns tantos se levantam. Quem tem apenas uma semana de descanso. Uns poucos ficam de pé. Quem só obtém licença do patrão para descansar apenas no fim de semana. Outro punhado de pé. Quem nunca descansa? Um rapaz suíço, com pouco mais de um metro e meio de altura, levanta-se ao fundo. Era Alfredo Kunz, um militante cristão.
Meses depois, Alfredinho, como era conhecido, foi mobilizado pelo Exército francês para lutar contra o avanço das tropas de Hitler. Aprisionado, passou a guerra num campo de concentração na Áustria, ao lado de prisioneiros soviéticos. Aprendeu russo para pregar o Evangelho a seus companheiros de infortúnio. Em 1945, logrou fugir do campo, onde morreram cerca de 40 mil pessoas. Estranhou a indiferença dos soldados nazistas que cruzavam com ele, um notório evadido, com uniforme azul e cabeça raspada. Naquele dia, a guerra terminara.
Alfredinho tomou três decisões: tornar-se padre, trabalhar com os mais pobres entre os pobres e jamais vestir outra roupa que não reproduzisse o modelo do uniforme do campo, em memória de seus companheiros mortos.
Ingressou na congregação dos Filhos da Caridade e, a convite de dom Antônio Fragoso, em 1968 veio para a Diocese de Crateús (CE). Perguntou ao bispo qual era a paróquia mais miserável da diocese. Dom Fragoso apontou Tauá, região de seca e flagelo. Alfredinho instalou-se na capela local. Desprovida de casa paroquial, ele dormia no colchão estendido junto ao altar e cozinhava num fogareiro.
Certa noite, foi chamado para atender uma prostituta que, cancerosa, agonizava em seu barraco de taipa, na zona boêmia. Antonieta queria confessar-se. Padre Alfredinho disse a ela: "Somos nós que devemos pedir perdão a você. Perdão pelos pecados de uma sociedade que não Ihe ofereceu outra alternativa de vida. Como Jesus prometeu, Antonieta, você nos precederá no Reino de Deus. Interceda por nós."
Após receber a absolvição e a unção dos enfermos, a mulher faleceu. Não havia dinheiro para o caixão. As prostitutas enrolaram a companheira num lençol e arrancaram a porta de madeira do barraco para levar o corpo a vala comum do cemitério. Ao retornar para colocar a porta no lugar, Alfredinho teve uma inspiração. Durante anos, o vigário de Tauá habitou aquele casebre em plena zona boêmia da cidade.
Num tempo de seca, os flagelados invadiam as cidades do Ceará. Temerosos, muitos fechavam as portas. Alfredinho criou a campanha da Porta Aberta ao Faminto (PAF), cartaz que cerca de 2 mil fami1ias ostentaram em suas casas, acolhendo as vítimas do descaso do poder público.
Fomos amigos e bebi de sua espiritualidade. Barbado, vestido com a roupa azul que lembrava um macacão, sandálias nos pés e mochila nas costas, o aspecto de Alfredinho não diferia do de um mendigo. Convidado a pregar o retiro dos franciscanos, em Campina Grande, chegou de madrugada e dormiu na escada da igreja do convento. Ao acordar, catou as moedas que encontrou em volta e bateu a porta. "Quero falar com o superior", disse ao porteiro. "O superior não pode atender. Está em retiro." Alfredinho tentou esclarecer: "Sim, eu sei, pois vim pregar o retiro." O porteiro já ia expulsá-lo quando Alfredinho foi reconhecido por um frade que passava.
Testemunhei fato idêntico em Vitória, nos anos 70. A cozinheira interrompeu meu jantar com dom João Batista da Motta Albuquerque para comunicar: "Um mendigo insiste em falar com o senhor." O arcebispo reagiu: "Diga a ele que espere, minha filha. Vou atende-lo após o jantar." Era o padre Alfredinho, que viera pregar o retiro do clero local.
Em 1988, Alfredinho mudou-se para a Favela Lamartine, em Santo André (SP). Passou a viver entre o povo da rua e a dedicar-se a confraria que fundou, a Irmandade do Servo Sofredor (Isso), hoje congregando pessoas consagradas aos mais pobres em dez Estados do Brasil e vários países. Sua trajetória espiritual entre os excluídos está narrada em seus livros, muitos traduzidos no exterior: A sombra do Nabucodonosor, A Ovelha de Urias, A Burrinha de Balaão, A Espada de Gedeão e O Cobrador.
No domingo, 13 de agosto, Alfredinho transvivenciou, acolhido por Aquele que era o seu caso de Amor. Deixou como herança o testemunho de que uma Igreja afastada do pobre é uma Igreja de costas para Jesus.
__________________________________
Frei Betto, escritor, é autor do romance sobre exclusão social Hotel Brasil (Ática), entre outros livros.
Vi no Lion of Zion ofertado por meu amigo Marco Finito no Twitter sigam-no http://twitter.com/Marco_Finito
Salão do Sindicato dos Cozinheiros de Paris, início da década de 40. 0 presidente indaga quantos trabalhadores tem um mes de férias por ano. Uns tantos se levantam. Quem tem apenas uma semana de descanso. Uns poucos ficam de pé. Quem só obtém licença do patrão para descansar apenas no fim de semana. Outro punhado de pé. Quem nunca descansa? Um rapaz suíço, com pouco mais de um metro e meio de altura, levanta-se ao fundo. Era Alfredo Kunz, um militante cristão.
Meses depois, Alfredinho, como era conhecido, foi mobilizado pelo Exército francês para lutar contra o avanço das tropas de Hitler. Aprisionado, passou a guerra num campo de concentração na Áustria, ao lado de prisioneiros soviéticos. Aprendeu russo para pregar o Evangelho a seus companheiros de infortúnio. Em 1945, logrou fugir do campo, onde morreram cerca de 40 mil pessoas. Estranhou a indiferença dos soldados nazistas que cruzavam com ele, um notório evadido, com uniforme azul e cabeça raspada. Naquele dia, a guerra terminara.
Alfredinho tomou três decisões: tornar-se padre, trabalhar com os mais pobres entre os pobres e jamais vestir outra roupa que não reproduzisse o modelo do uniforme do campo, em memória de seus companheiros mortos.
Ingressou na congregação dos Filhos da Caridade e, a convite de dom Antônio Fragoso, em 1968 veio para a Diocese de Crateús (CE). Perguntou ao bispo qual era a paróquia mais miserável da diocese. Dom Fragoso apontou Tauá, região de seca e flagelo. Alfredinho instalou-se na capela local. Desprovida de casa paroquial, ele dormia no colchão estendido junto ao altar e cozinhava num fogareiro.
Certa noite, foi chamado para atender uma prostituta que, cancerosa, agonizava em seu barraco de taipa, na zona boêmia. Antonieta queria confessar-se. Padre Alfredinho disse a ela: "Somos nós que devemos pedir perdão a você. Perdão pelos pecados de uma sociedade que não Ihe ofereceu outra alternativa de vida. Como Jesus prometeu, Antonieta, você nos precederá no Reino de Deus. Interceda por nós."
Após receber a absolvição e a unção dos enfermos, a mulher faleceu. Não havia dinheiro para o caixão. As prostitutas enrolaram a companheira num lençol e arrancaram a porta de madeira do barraco para levar o corpo a vala comum do cemitério. Ao retornar para colocar a porta no lugar, Alfredinho teve uma inspiração. Durante anos, o vigário de Tauá habitou aquele casebre em plena zona boêmia da cidade.
Num tempo de seca, os flagelados invadiam as cidades do Ceará. Temerosos, muitos fechavam as portas. Alfredinho criou a campanha da Porta Aberta ao Faminto (PAF), cartaz que cerca de 2 mil fami1ias ostentaram em suas casas, acolhendo as vítimas do descaso do poder público.
Fomos amigos e bebi de sua espiritualidade. Barbado, vestido com a roupa azul que lembrava um macacão, sandálias nos pés e mochila nas costas, o aspecto de Alfredinho não diferia do de um mendigo. Convidado a pregar o retiro dos franciscanos, em Campina Grande, chegou de madrugada e dormiu na escada da igreja do convento. Ao acordar, catou as moedas que encontrou em volta e bateu a porta. "Quero falar com o superior", disse ao porteiro. "O superior não pode atender. Está em retiro." Alfredinho tentou esclarecer: "Sim, eu sei, pois vim pregar o retiro." O porteiro já ia expulsá-lo quando Alfredinho foi reconhecido por um frade que passava.
Testemunhei fato idêntico em Vitória, nos anos 70. A cozinheira interrompeu meu jantar com dom João Batista da Motta Albuquerque para comunicar: "Um mendigo insiste em falar com o senhor." O arcebispo reagiu: "Diga a ele que espere, minha filha. Vou atende-lo após o jantar." Era o padre Alfredinho, que viera pregar o retiro do clero local.
Em 1988, Alfredinho mudou-se para a Favela Lamartine, em Santo André (SP). Passou a viver entre o povo da rua e a dedicar-se a confraria que fundou, a Irmandade do Servo Sofredor (Isso), hoje congregando pessoas consagradas aos mais pobres em dez Estados do Brasil e vários países. Sua trajetória espiritual entre os excluídos está narrada em seus livros, muitos traduzidos no exterior: A sombra do Nabucodonosor, A Ovelha de Urias, A Burrinha de Balaão, A Espada de Gedeão e O Cobrador.
No domingo, 13 de agosto, Alfredinho transvivenciou, acolhido por Aquele que era o seu caso de Amor. Deixou como herança o testemunho de que uma Igreja afastada do pobre é uma Igreja de costas para Jesus.
__________________________________
Frei Betto, escritor, é autor do romance sobre exclusão social Hotel Brasil (Ática), entre outros livros.
Vi no Lion of Zion ofertado por meu amigo Marco Finito no Twitter sigam-no http://twitter.com/Marco_Finito
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A religião que persegue
Ao longo dos tempos, a fé tem sido desculpa para todo tipo de atrocidades
Os conflitos religiosos são quase tão antigos quanto a própria História. No Brasil, existem registros de perseguições violentas contra cristãos evangélicos até meados do século passado. No nordeste, por exemplo, muitos católicos se referiam aos evangélicos como “bodes”, uma forma jocosa de distingui-los das “ovelhas”, como se chamavam. Essa pressão ostensiva começou a diminuir a partir das décadas de 1960 e 70 e praticamente sumiu com a redemocratização do país, na década de oitenta. No mundo, a intolerância religiosa já foi responsável por verdadeiros massacres, e ainda hoje está na raiz de genocídios e atos de violência de todo tipo:
Perseguição dos judeus aos cristãos (primeiro século) – A intolerância contra os cristãos teve início ainda durante o ministério de Jesus na terra. As pessoas que atribuíam divindade a Cristo e acreditavam nele como o Messias foram perseguidas tanto por judeus como por pagãos.
Sob a força do Império Romano (64 ) – O primeiro registro de perseguição religiosa por parte dos romanos aos cristãos está ligado ao reinado de Nero. O imperador jogou a culpa do incêndio em Roma sobre os seguidores de Jesus Cristo, o que resultou no aumento das hostilidades contra o segmento. Ficaram célebres os massacres em arenas, onde famílias inteiras eram despedaçadas por feras.
A loucura das Cruzadas (1096 – 1272) – Foram movimentos de caráter cristão e militar, que partiram da Europa com o objetivo de retomar a Terra Santa e a cidade de Jerusalém das mãos dos muçulmanos. Estima-se que tenha havido nove dessas expedições exaustivas e violentas, que não poupavam as populações civis. Houve vitórias e derrotas de parte a parte, mas ao final os mouros prevaleceram. Os cavaleiros cristãos animavam-se com a crença de que, caso morressem em campanha, teriam direito imediato à salvação.
Inquisição, período de trevas – Conjunto de ações levadas a cabo por tribunais que julgavam pessoas e grupos considerados ameaçadores às doutrinas da Igreja Católica Romana. Um dos alvos prioritários eram os hereges, mas cientistas também foram perseguidos por defender ideias contrárias aos dogmas religiosos de então, como o gênio Galileu Galilei. Durante o século 15, muitos se aproveitaram dessa força para perseguir os nobres e os judeus.
A sangrenta Noite de São Bartolomeu (1572) – A hostilidade contra os protestantes huguenotes na França culminou no massacre conhecido como a Noite de São Bartolomeu, promovido pela Casa Real no dia 24 de agosto daquele ano. Calcula-se que 30 mil a 100 mil huguenotes morreram nesse episódio. Foi a perseguição aos cristãos reformados que levou o vice-almirante Nicolas Villegaignon e seus comandados a tentar a sorte no Brasil, onde, em 1555, fundaram a França Antártica. Para ali acorreram vários reformados perseguidos na Europa, inclusive pastores. A colônia foi destruída dez anos mais tarde pelo portugueses.
Os crimes da Alemanha nazista – A população perseguida de maneira mais feroz pelos nazistas alemães durante as décadas de 1930 e 40 foram os judeus, sem qualquer motivo razoável – o regime racista de Hitler simplesmente considerava-os responsáveis por todos os males. Estima-se que mais de 6 milhões de judeus foram trucidados nos campos de concentração e fornos crematórios ao longo da 2ª Guerra Mundial. Em menor escala, católicos e protestantes alemães também sofreram muito com a intolerância do III Reich.
Hindus contra cristãos na Índia (2008) – Um dos casos de perseguição religiosa mais recentes ocorreu no estado indiano de Orissa, ano passado. Extremistas hindus massacraram aldeias cristãs e destruíram igrejas. Há relatos dando conta de mais de mil mortos.
Via Cristianismo Hoje
Comentário:
Sem contar a perseguição dos evangélicos aos integrantes do Candomblé na Bahia, aos Índios, aos Negros, as Mulheres, vale ressaltar que o movimento Ku Klux Klan era composto pelo movimento Batista branco.
Intolerância em todos os níveis, qualquer que seja não é um ato de Deus, mas do inferno.
Os conflitos religiosos são quase tão antigos quanto a própria História. No Brasil, existem registros de perseguições violentas contra cristãos evangélicos até meados do século passado. No nordeste, por exemplo, muitos católicos se referiam aos evangélicos como “bodes”, uma forma jocosa de distingui-los das “ovelhas”, como se chamavam. Essa pressão ostensiva começou a diminuir a partir das décadas de 1960 e 70 e praticamente sumiu com a redemocratização do país, na década de oitenta. No mundo, a intolerância religiosa já foi responsável por verdadeiros massacres, e ainda hoje está na raiz de genocídios e atos de violência de todo tipo:
Perseguição dos judeus aos cristãos (primeiro século) – A intolerância contra os cristãos teve início ainda durante o ministério de Jesus na terra. As pessoas que atribuíam divindade a Cristo e acreditavam nele como o Messias foram perseguidas tanto por judeus como por pagãos.
Sob a força do Império Romano (64 ) – O primeiro registro de perseguição religiosa por parte dos romanos aos cristãos está ligado ao reinado de Nero. O imperador jogou a culpa do incêndio em Roma sobre os seguidores de Jesus Cristo, o que resultou no aumento das hostilidades contra o segmento. Ficaram célebres os massacres em arenas, onde famílias inteiras eram despedaçadas por feras.
A loucura das Cruzadas (1096 – 1272) – Foram movimentos de caráter cristão e militar, que partiram da Europa com o objetivo de retomar a Terra Santa e a cidade de Jerusalém das mãos dos muçulmanos. Estima-se que tenha havido nove dessas expedições exaustivas e violentas, que não poupavam as populações civis. Houve vitórias e derrotas de parte a parte, mas ao final os mouros prevaleceram. Os cavaleiros cristãos animavam-se com a crença de que, caso morressem em campanha, teriam direito imediato à salvação.
Inquisição, período de trevas – Conjunto de ações levadas a cabo por tribunais que julgavam pessoas e grupos considerados ameaçadores às doutrinas da Igreja Católica Romana. Um dos alvos prioritários eram os hereges, mas cientistas também foram perseguidos por defender ideias contrárias aos dogmas religiosos de então, como o gênio Galileu Galilei. Durante o século 15, muitos se aproveitaram dessa força para perseguir os nobres e os judeus.
A sangrenta Noite de São Bartolomeu (1572) – A hostilidade contra os protestantes huguenotes na França culminou no massacre conhecido como a Noite de São Bartolomeu, promovido pela Casa Real no dia 24 de agosto daquele ano. Calcula-se que 30 mil a 100 mil huguenotes morreram nesse episódio. Foi a perseguição aos cristãos reformados que levou o vice-almirante Nicolas Villegaignon e seus comandados a tentar a sorte no Brasil, onde, em 1555, fundaram a França Antártica. Para ali acorreram vários reformados perseguidos na Europa, inclusive pastores. A colônia foi destruída dez anos mais tarde pelo portugueses.
Os crimes da Alemanha nazista – A população perseguida de maneira mais feroz pelos nazistas alemães durante as décadas de 1930 e 40 foram os judeus, sem qualquer motivo razoável – o regime racista de Hitler simplesmente considerava-os responsáveis por todos os males. Estima-se que mais de 6 milhões de judeus foram trucidados nos campos de concentração e fornos crematórios ao longo da 2ª Guerra Mundial. Em menor escala, católicos e protestantes alemães também sofreram muito com a intolerância do III Reich.
Hindus contra cristãos na Índia (2008) – Um dos casos de perseguição religiosa mais recentes ocorreu no estado indiano de Orissa, ano passado. Extremistas hindus massacraram aldeias cristãs e destruíram igrejas. Há relatos dando conta de mais de mil mortos.
Via Cristianismo Hoje
Comentário:
Sem contar a perseguição dos evangélicos aos integrantes do Candomblé na Bahia, aos Índios, aos Negros, as Mulheres, vale ressaltar que o movimento Ku Klux Klan era composto pelo movimento Batista branco.
Intolerância em todos os níveis, qualquer que seja não é um ato de Deus, mas do inferno.
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O caminho mais curto para fracasso
Leonardo Boff
Das muitas reflexões acerca do colapso do sistema neoliberal, três despontam com claridade. A primeira é que para salvar o Titanic afundando não bastam correções e regulações no sistema em naufrágio. Precisa-se de uma outra rota que evite o choque com o iceberg: uma produção que não se reja só pela ganância nem por um consumo ilimitado e excludente. A segunda, não valem rupturas bruscas na ilusão de que já nos transportariam para um outro mundo possível, pois seguramente implicariam no colapso total do sistema de convivência, com vitimas sem conta, sem a certeza de que das ruínas nasceria uma nova ordem melhor. A terceira, a categoria sustentabilidade é axial em qualquer intento de solução. Isso significa: o desenvolvimento necessário para a manutenção da vida humana e para a preservação da vitalidade da Terra não pode seguir as pautas do crescimento até agora vigentes (olho no PAC de Dilma Rouseff). Ele é demasiado depredador do capital natural e parco em solidariedade generacional presente e futura. Importa encontrar um sutil equilíbrio entre a capacidade de suporte e regeneração da Terra com seus diferentes ecossistemas e o pretendido desenvolvimento necessário para assegurar o bem viver humano e a continuidade do projeto planetário em curso que representa a nova e irreversível fase da história.
Esta diligência precisa acolher a estratégia da transição do paradigma atual que não garante um futuro sustentável para um novo paradigma a ser construído pela cooperação intercultural que signifique um novo acerto entre economia e ecologia na perspectiva da manutenção da vida na Terra.
Onde vejo o grande gargalo? É na questão ecológica. Ela é citada apenas en passant nas agendas políticas visando a superação da crise. Na reunião dos G-20 no dia 2 de abril em Londres, o tema não influiu na formulação dos instrumentos para ordenar o caos sistêmico. Não se trata apenas do mais grave de todos, o aquecimento global, mas também do degelo, da acidez dos oceanos, da crescente desertificação, do desflorentamento de grandes zonas tropicais e do surgimento do planeta-favela em razão da urbanização selvagem e do desemprego estrutural. E mais ainda: a revelação dos dados que mostram a insustenbilidade geral da própria Terra, cujo consumo humano ultrapassou em 30% sua capacidade de reposição.
Uma natureza devastada e um tecido social mundial dilacerado pela fome e pela exclusão anulam as condições para a reprodução do projeto do capital dentro de um novo ciclo. Tudo indica que os limites da Terra são os limites terminais deste sistema que imperou por vários séculos.
O caminho mais curto para o fracasso de todas as iniciativas visando sair da crise sistêmica é esta desconsideração do fator ecológico. Ele não é uma “externalidade” que se pode tolerar por ser inevitável. Ou lhe conferimos centralidade em qualquer solução possível ou então teremos que aceitar o eventual colapso da espécie humana. A bomba ecológica é mais perigosa que todas as bombas letais já construídas e armazenadas.
Desta vez teremos que ser coletivamente humildes e escutar o que a própria natureza, aos gritos, nos está pedindo: renunciar à agressão que o modelo de produção e consumo implica. Não somos deuses nem donos da Terra mas suas criaturas e seus inquilinos. Belamente termina Rose Marie Muraro um livro a sair em breve pela Vozes”Querendo ser Deus, por quê? “Quando tivermos desistido de ser deuses, poderemos ser plenamente humanos o que ainda não sabemos o que é, mas que já intuíamos desde sempre”.
Leonardo Boff é autor de “Virtudes para um outro mundo possível” Vozes 2008
Via Lboff
Das muitas reflexões acerca do colapso do sistema neoliberal, três despontam com claridade. A primeira é que para salvar o Titanic afundando não bastam correções e regulações no sistema em naufrágio. Precisa-se de uma outra rota que evite o choque com o iceberg: uma produção que não se reja só pela ganância nem por um consumo ilimitado e excludente. A segunda, não valem rupturas bruscas na ilusão de que já nos transportariam para um outro mundo possível, pois seguramente implicariam no colapso total do sistema de convivência, com vitimas sem conta, sem a certeza de que das ruínas nasceria uma nova ordem melhor. A terceira, a categoria sustentabilidade é axial em qualquer intento de solução. Isso significa: o desenvolvimento necessário para a manutenção da vida humana e para a preservação da vitalidade da Terra não pode seguir as pautas do crescimento até agora vigentes (olho no PAC de Dilma Rouseff). Ele é demasiado depredador do capital natural e parco em solidariedade generacional presente e futura. Importa encontrar um sutil equilíbrio entre a capacidade de suporte e regeneração da Terra com seus diferentes ecossistemas e o pretendido desenvolvimento necessário para assegurar o bem viver humano e a continuidade do projeto planetário em curso que representa a nova e irreversível fase da história.
Esta diligência precisa acolher a estratégia da transição do paradigma atual que não garante um futuro sustentável para um novo paradigma a ser construído pela cooperação intercultural que signifique um novo acerto entre economia e ecologia na perspectiva da manutenção da vida na Terra.
Onde vejo o grande gargalo? É na questão ecológica. Ela é citada apenas en passant nas agendas políticas visando a superação da crise. Na reunião dos G-20 no dia 2 de abril em Londres, o tema não influiu na formulação dos instrumentos para ordenar o caos sistêmico. Não se trata apenas do mais grave de todos, o aquecimento global, mas também do degelo, da acidez dos oceanos, da crescente desertificação, do desflorentamento de grandes zonas tropicais e do surgimento do planeta-favela em razão da urbanização selvagem e do desemprego estrutural. E mais ainda: a revelação dos dados que mostram a insustenbilidade geral da própria Terra, cujo consumo humano ultrapassou em 30% sua capacidade de reposição.
Uma natureza devastada e um tecido social mundial dilacerado pela fome e pela exclusão anulam as condições para a reprodução do projeto do capital dentro de um novo ciclo. Tudo indica que os limites da Terra são os limites terminais deste sistema que imperou por vários séculos.
O caminho mais curto para o fracasso de todas as iniciativas visando sair da crise sistêmica é esta desconsideração do fator ecológico. Ele não é uma “externalidade” que se pode tolerar por ser inevitável. Ou lhe conferimos centralidade em qualquer solução possível ou então teremos que aceitar o eventual colapso da espécie humana. A bomba ecológica é mais perigosa que todas as bombas letais já construídas e armazenadas.
Desta vez teremos que ser coletivamente humildes e escutar o que a própria natureza, aos gritos, nos está pedindo: renunciar à agressão que o modelo de produção e consumo implica. Não somos deuses nem donos da Terra mas suas criaturas e seus inquilinos. Belamente termina Rose Marie Muraro um livro a sair em breve pela Vozes”Querendo ser Deus, por quê? “Quando tivermos desistido de ser deuses, poderemos ser plenamente humanos o que ainda não sabemos o que é, mas que já intuíamos desde sempre”.
Leonardo Boff é autor de “Virtudes para um outro mundo possível” Vozes 2008
Via Lboff
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sábado, 14 de novembro de 2009
Como destruir a teologia da prosperidade?
Thiago Azevedo
Hoje acordei com as seguintes questões em minha mente: Porque a teologia da prosperidade dá tão certo em nosso território? E como fazer para que ela possa perder sua força?
Cheguei a conclusão de que se grita muito em termos de teologia, demonstrando bíblicamente que ela é equivocada e fruto de uma visão deturpada de promessas divinas, entretanto, o povo continua seguindo suas desvirtuações. Isso tem uma razão, não tão simples, mas uma boa razão, a esperança. Pense num país como o nosso, com todas as suas disparidades sociais, onde muitos tem nada e poucos tem tudo. Todas as nossas mazelas que enfrentamos todos os dias, isso faz com que a teologia da prosperidade não somente tenha força, mas seja praticamente a única resposta plausível para toda essa barbárie que vemos hoje.
Estou defendendo tal teologia? De forma alguma. Acredito que ela não tem fundamento e se baseia em uma falsa esperança que não se alimenta, apenas depreda o ser humano que é envolvido numa rede egoísta de fé, mas o que seria do homem sem a fé e é essa a força motriz que lhe dá sustentação. Por outro lado, na contra-mão disso tudo, por que perdemos tanto espaço para essa desvirtualização do sagrado? Justamente porque não conseguimos dar uma resposta satisfatória para essas mazelas, se a teologia da prosperidade avançou é justamente por nossa inabilidade em se aproximar do povo mais pobre e oprimido, de acessar as entranhas de seus problemas, resumindo, intelectualizamos a nossa fé a tal ponto que perdemos o foco de Jesus, onde ele fala aos simples e luta por eles. No fim, a nossa religiosidade protestante se tornou um artigo fino e de luxo, somente para os "eleitos" e quem são esses eleitos? Olhem para suas igrejas e vejam a sua maioria, do que é composta? E pensem, onde estão os pobres e miseráveis desse mundo?
Queremos ver exterminada da face da terra a teologia da prosperidade? Então devemos descer de nossos pedestais teológicos e nos aproximar dos oprimidos, devemos ressignificar nossa fé elitista para uma fé que seja acessível ao pobre e miserável. Fé esta que é marcada pela prática e não pelas divagações.
Devemos também não nos ater aos debates infindáveis tentendo convencer os pais da teologia da prosperidade local a se dobrarem ante a "verdadeira" teologia, antes devemos lutar para que não haja espaço para essa teologia nefasta se frutificar, como? Lutando por mais ética e justiça, distribuição de renda, lutar por um país mais ético, onde não haja mais a distribuição da pobreza, mas da riqueza. Que haja terra para todos morarem e tenham condições de sobreviver. Devemos mostrar pelos nossos atos que estamos sonhando junto com esses necessitados de Deus e também assim como queremos um país melhor, devemos querer uma igreja melhor, mais ética, mais justa e que se importe de verdade com o próximo, onde todos tem espaço e não apenas as castas clericais, que esta seja uma igreja movida pelo amor, amor este que provém de Deus.
Esses são os primeiros caminhos para a derrocada da teologia da prosperidade.
Paz e bem
Hoje acordei com as seguintes questões em minha mente: Porque a teologia da prosperidade dá tão certo em nosso território? E como fazer para que ela possa perder sua força?
Cheguei a conclusão de que se grita muito em termos de teologia, demonstrando bíblicamente que ela é equivocada e fruto de uma visão deturpada de promessas divinas, entretanto, o povo continua seguindo suas desvirtuações. Isso tem uma razão, não tão simples, mas uma boa razão, a esperança. Pense num país como o nosso, com todas as suas disparidades sociais, onde muitos tem nada e poucos tem tudo. Todas as nossas mazelas que enfrentamos todos os dias, isso faz com que a teologia da prosperidade não somente tenha força, mas seja praticamente a única resposta plausível para toda essa barbárie que vemos hoje.
Estou defendendo tal teologia? De forma alguma. Acredito que ela não tem fundamento e se baseia em uma falsa esperança que não se alimenta, apenas depreda o ser humano que é envolvido numa rede egoísta de fé, mas o que seria do homem sem a fé e é essa a força motriz que lhe dá sustentação. Por outro lado, na contra-mão disso tudo, por que perdemos tanto espaço para essa desvirtualização do sagrado? Justamente porque não conseguimos dar uma resposta satisfatória para essas mazelas, se a teologia da prosperidade avançou é justamente por nossa inabilidade em se aproximar do povo mais pobre e oprimido, de acessar as entranhas de seus problemas, resumindo, intelectualizamos a nossa fé a tal ponto que perdemos o foco de Jesus, onde ele fala aos simples e luta por eles. No fim, a nossa religiosidade protestante se tornou um artigo fino e de luxo, somente para os "eleitos" e quem são esses eleitos? Olhem para suas igrejas e vejam a sua maioria, do que é composta? E pensem, onde estão os pobres e miseráveis desse mundo?
Queremos ver exterminada da face da terra a teologia da prosperidade? Então devemos descer de nossos pedestais teológicos e nos aproximar dos oprimidos, devemos ressignificar nossa fé elitista para uma fé que seja acessível ao pobre e miserável. Fé esta que é marcada pela prática e não pelas divagações.
Devemos também não nos ater aos debates infindáveis tentendo convencer os pais da teologia da prosperidade local a se dobrarem ante a "verdadeira" teologia, antes devemos lutar para que não haja espaço para essa teologia nefasta se frutificar, como? Lutando por mais ética e justiça, distribuição de renda, lutar por um país mais ético, onde não haja mais a distribuição da pobreza, mas da riqueza. Que haja terra para todos morarem e tenham condições de sobreviver. Devemos mostrar pelos nossos atos que estamos sonhando junto com esses necessitados de Deus e também assim como queremos um país melhor, devemos querer uma igreja melhor, mais ética, mais justa e que se importe de verdade com o próximo, onde todos tem espaço e não apenas as castas clericais, que esta seja uma igreja movida pelo amor, amor este que provém de Deus.
Esses são os primeiros caminhos para a derrocada da teologia da prosperidade.
Paz e bem
sexta-feira, 13 de novembro de 2009
Tradição e Ressignificação
Thiago Azevedo
Tem coisas na vida que nos fazem criticar veementemente, mas que no fundo, nossa vida acaba sendo permeada por essas coisas que denunciamos, bem estou falando de rituais e tradições. Entretanto, devemos nos perguntar para que servem e o que significam tais coisas.
Quero me deter ao que diz sobre laço do passado com o presente e conjunto de atos e práticas, mas há algo nisso que é fundamental e essencial para que ambos tenham sentido, seu conteúdo. Esses passam a ser alvos de críticas justamente porque perdem no caminho sua razão de ser e passam a ser meros cumpridores de uma manutenção que não tem sentido, e quando isso ocorre é necessário ressignificar, dar nova forma.
Mas qual o primordial objetivo da tradição e do rito? O que faz serem prazerosos e não fardos duros de suportar? Creio que seja o amor. Saindo do ambito da igreja, o que me fez ver essa relação, foi os costumeiros almoços com minha filha e todos os dias tenho almoçado com ela, o que é um delicioso privilégio nos dias de hoje, e o que é agradável nisso tudo é justamente o fato dela absorver isso com responsabilidade, tanto que não almoça enquanto não chegar, ela diz à babá, vou esperar meu pai.
Vejo nisso uma tradição e um ritual se estabelecendo, entretanto não é nocivo justamente porque o que o motiva para existir é o fato de que nos amamos e desejamos estar juntos naquela agradável mesa, orando ao Papai do céu (ela é a oradora oficial do almoço), ouvi-la contar suas historinhas do seu marido Shrek e do seu amigo Burro. Esse momento não é um fardo, muito pelo contrário, me traz absoluta paz e motivação para voltar ao trabalho.
Então, indo para o âmbito eclesiástico, toda a tradição só tem sentido, quando ela é envolvida por um amor que a torna agradável, sem políticas, sem manobras, apenas paz e comunhão. Quando se perde essa essência, é necessário buscar e estabelecer novas tradições e novos rituais que nos conduzam para esse estado de graça que provém de Deus.
Falo dessa forma pois a tradição e os rituais contemporâneos para mim não possuem mais sentido, ou como diz Rubem Alves, a voz dos pastores ou líderes religiosos não me falam mais nada ao coração, porque só ouço neles a voz da tradição se repetindo, de ritual vazio de sentimento e amor, apenas uma mera manutenção para estabelecer poderes e dominações.
Esse estado de perda de referências quanto a tradição e o ritual eclesiástico fora muito positivo pra mim agora, pois pude encontrar-me com Deus em novos lagos, novos riachos, pude correr com Ele por sob a grama e brincarmos de amarelinha, como criança outra vez. Ressignifiquei minha condição com Deus, para encontrá-lo na beleza da poesia, das canções e principalmente na grandeza do amor. Sinto-me como minha filha, que me aguarda ansiosamente e só come quando eu estiver com ela, assim me sinto em relação a Deus, o aguardo ansiosamente, não num lugar frio e concreto como o templo, mas fico à porta do meu coração esperando ele chegar para ceiarmos e celebrarmos outra vez.
Paz e bem
Tem coisas na vida que nos fazem criticar veementemente, mas que no fundo, nossa vida acaba sendo permeada por essas coisas que denunciamos, bem estou falando de rituais e tradições. Entretanto, devemos nos perguntar para que servem e o que significam tais coisas.
Tradição. s.f. Transmissão de doutrinas, de lendas, de costumes etc., durante longo espaço de tempo, especialmente pela palavra: a tradição é o laço do passado com o presente; é tradição deles festejar os aniversários.
Transmissão oral, às vezes registrada por escrito, dos fatos ou das doutrinas religiosas.
Costume transmitido de geração a geração: as tradições de uma região.
Dir. Entrega material de um bem móvel, objeto de uma transferência de propriedade.
Ritual. adj. Relativo a ritos; conforme aos ritos: sacrifício ritual.
S.m. Livro que enumera as cerimônias e ritos que devem ser observados na prática de uma religião.
Conjunto desses atos e práticas; rito, cerimonial: ritual pagão.
Quero me deter ao que diz sobre laço do passado com o presente e conjunto de atos e práticas, mas há algo nisso que é fundamental e essencial para que ambos tenham sentido, seu conteúdo. Esses passam a ser alvos de críticas justamente porque perdem no caminho sua razão de ser e passam a ser meros cumpridores de uma manutenção que não tem sentido, e quando isso ocorre é necessário ressignificar, dar nova forma.
Mas qual o primordial objetivo da tradição e do rito? O que faz serem prazerosos e não fardos duros de suportar? Creio que seja o amor. Saindo do ambito da igreja, o que me fez ver essa relação, foi os costumeiros almoços com minha filha e todos os dias tenho almoçado com ela, o que é um delicioso privilégio nos dias de hoje, e o que é agradável nisso tudo é justamente o fato dela absorver isso com responsabilidade, tanto que não almoça enquanto não chegar, ela diz à babá, vou esperar meu pai.
Vejo nisso uma tradição e um ritual se estabelecendo, entretanto não é nocivo justamente porque o que o motiva para existir é o fato de que nos amamos e desejamos estar juntos naquela agradável mesa, orando ao Papai do céu (ela é a oradora oficial do almoço), ouvi-la contar suas historinhas do seu marido Shrek e do seu amigo Burro. Esse momento não é um fardo, muito pelo contrário, me traz absoluta paz e motivação para voltar ao trabalho.
Então, indo para o âmbito eclesiástico, toda a tradição só tem sentido, quando ela é envolvida por um amor que a torna agradável, sem políticas, sem manobras, apenas paz e comunhão. Quando se perde essa essência, é necessário buscar e estabelecer novas tradições e novos rituais que nos conduzam para esse estado de graça que provém de Deus.
Falo dessa forma pois a tradição e os rituais contemporâneos para mim não possuem mais sentido, ou como diz Rubem Alves, a voz dos pastores ou líderes religiosos não me falam mais nada ao coração, porque só ouço neles a voz da tradição se repetindo, de ritual vazio de sentimento e amor, apenas uma mera manutenção para estabelecer poderes e dominações.
Esse estado de perda de referências quanto a tradição e o ritual eclesiástico fora muito positivo pra mim agora, pois pude encontrar-me com Deus em novos lagos, novos riachos, pude correr com Ele por sob a grama e brincarmos de amarelinha, como criança outra vez. Ressignifiquei minha condição com Deus, para encontrá-lo na beleza da poesia, das canções e principalmente na grandeza do amor. Sinto-me como minha filha, que me aguarda ansiosamente e só come quando eu estiver com ela, assim me sinto em relação a Deus, o aguardo ansiosamente, não num lugar frio e concreto como o templo, mas fico à porta do meu coração esperando ele chegar para ceiarmos e celebrarmos outra vez.
Paz e bem
Cristianismo Pagão: Costumes Dominicais
Cuidado com aqueles que andam de toga larga. - Jesus Cristo
A cada domingo pela manhã mais de 300 milhões de protestantes vestem sua melhor roupa para assistir o culto da igreja.1[1] Mas ninguém parece questionar a razão disso. Milhares de pastores usam trajes especiais que os separam de suas congregações. E ninguém parece se preocupar com isso. Neste capítulo, vamos estudar a origem desse "vestir-se a rigor" para ir à igreja e as raízes das "vestes clericais".
A Roupa na Igreja
A prática de "vestir-se socialmente" para ir à igreja é um fenômeno relativamente recente. Começou pelo final do século XVIII com a Revolução Industrial e chegou a ser bem difundido nos meados do século XIX. Nessa época, "vestir-se bem" para eventos sociais era algo usual somente entre os ricos. A razão era simples. Apenas ricos aristocratas da sociedade poderiam comprar roupa bonita! As pessoas comuns somente tinham dois jogos de roupa: Roupa para trabalhar no campo e roupa menos andrajosa para se misturar com o povo.2[2]
"Vestir-se bem" para alguma ocasião era opção apenas para a nobreza rica.3[3] Na Europa medieval, até o século XVIII, "vestir-se bem" era a marca definitiva da classe social de alguém. Em países como a Inglaterra, as pessoas pobres eram proibidas de vestir o tipo de roupa que as pessoas "bem de vida" usavam.4[4]
Isto mudou com a invenção das grandes fábricas têxteis e o desenvolvimento da sociedade urbana.5[5] As roupas finas tornaram-se mais acessíveis às pessoas comuns. A classe média surgiu e seus membros começaram a rivalizar com a aristocracia invejosa. Pela primeira vez a classe média pode distinguir-se dos camponeses.6[6] Para demonstrar sua recente condição de ascensão social, eles passaram a exibir "roupas melhores" nos eventos sociais como os ricos faziam.7[7]
Alguns grupos de cristãos no fim do século XVIII e início do século XIX resistiram a esta tendência cultural. John Wesley escreveu contra o uso de roupa cara ou extravagante.8[8] O Metodista primitivo resistia tanto à idéia do uso de "roupas finas" na igreja que repreendia qualquer um que exibisse roupa cara nas reuniões. Os batistas primitivos também condenaram o uso de roupa fina, achavam que ela separava ricos de pobres.9[9]
Apesar desses protestos, o cristão quando podia vestia-se com roupa fina. A classe média prosperou, mudou-se para grandes mansões, construiu grandes edifícios de igreja e passou a usar roupa ainda mais fina.10[10] Com o desenvolvimento da cultura vitoriana de classe média, as igrejas começaram a atrair pessoas mais influentes da sociedade.11[11] Isto fez com que igrejas mais comuns como Metodistas, Batistas, etc., trabalhassem mais duro para manter seus próprios edifícios.12[12]
Tudo isso chegou a um ponto crítico quando em 1843, Horácio Bushnell, um pastor influente da Igreja Congregacional do Estado de Connecticut, publicou um texto chamado Taste and Fashion. Nele Bushnell argumentava que sofisticação e refinamento eram atributos divinos e que os cristãos precisavam demonstrá-los.13[13] Daí nasceu a idéia de que as pessoas precisavam "vestir-se bem" para poder honrar a Deus! A partir de então os membros da igreja adoravam em belos edifícios, exibindo sua roupa formal para honrar a Deus.14[14]
William Henry Foote, um Presbiteriano da Carolina do Norte, seguindo fielmente os passos de Bushnell, escreveu em 1846: "As pessoas que vão à igreja gostam de roupas finas" .15[
Esta regra simplesmente sedimentou o ritual do uso de roupa formal na igreja. Esta tendência foi tão poderosa que, entre 1850-60, mesmo os Metodistas que "resistiam à roupa formal" foram absorvidos pela moda. Até mesmo eles começaram a usar "roupa dominical" para ir à igreja.16[16]
A conseqüência de tudo isso, como virtualmente ocorreu com as demais práticas adotadas pela igreja, foi a adoção da roupa formal na igreja devido à influência do entorno cultural na prática cristã. Hoje, querido cristão, as pessoas vestem "a melhor roupa" para ir à igreja nas manhãs dominicais sem nem mesmo saber a razão. Mas agora você sabe de toda história que se esconde por trás desse costume estúpido.
Foi o resultado final dos esforços da classe média do século XIX em imitar seus contemporâneos da rica aristocracia, alardeando sua melhora de qualidade de vida pela roupa. (Este esforço também se relaciona à noção vitoriana de respeito). Em outras palavras, vestir "roupa dominical" é simplesmente um subproduto da cultura secular. Isto nada tem a ver com a Bíblia, com Jesus Cristo ou com o Espírito Santo!
Mas o Que há de Mal com a Roupa Social?
O quê dá tanta importância ao ato de "vestir-se bem" para ir à igreja? Concordo que esse tema não aborda uma questão candente. De fato, eu não me preocupo muito com o modo das pessoas se vestirem para ir à igreja. A questão candente surge com relação ao significado da "roupa fina" dentro da igreja.
Primeiramente, esta atitude reflete uma separação entre o secular e o sagrado. Acreditar que Deus se preocupa com a roupa fina que você coloca para "visitar-lhe" é uma violação do novo Pacto. Temos acesso à presença de Deus em todo momento e circunstâncias. Na verdade, será que Ele espera que nós, na condição de Seu povo, nos vistamos domingo pela manhã como se fôssemos para um concurso de beleza?
Em segundo lugar, vestir roupa chamativa e luxuosa aos domingos pela manhã transmite uma falsa mensagem: Aquela igreja é o lugar onde os cristãos escondem sua verdadeira cara, "vestem-se bem" para parecerem agradáveis e belos.17[17] Medite sobre estas coisas. Colocar sua "melhor roupa" aos domingos não é outra coisa senão criar uma impressão. Isso dá à casa de Deus todos os elementos de um teatro: Guarda-roupa, maquilagem, acessórios, luzes, porteiros, música especial, mestre de cerimônias, cargos, programa principal.18[18]
O hábito de usar "roupa dominical" na igreja viola a realidade de que a igreja é composta por pessoas reais com problemas de difícil solução. Podem ser pessoas reais envoltas em disputas conjugais, mas que após saírem do estacionamento e entrarem pela porta da igreja cobrem-se com grandes sorrisos!
O ato de vestir-se socialmente aos domingos oculta um problema básico subjacente. Fomenta a ilusão arrogante de que somos "bons" porque nos vestimos bem para Deus. É uma pretensão que desumaniza e constitui um falso testemunho diante do mundo.
É necessário reconhecer que como seres humanos decaídos são raras as vezes que estamos dispostos a mostrar aquilo que realmente somos. Quase sempre contamos com nossa performance ou aparência (roupa) para fazer com que os outros pensem coisas agradáveis a nosso respeito. Tudo isso é bem diferente da modéstia característica da igreja Primitiva.
Em terceiro lugar, "vestir-se socialmente" para ir à igreja é o mesmo que dar uma bofetada na simplicidade (marca registrada da Igreja Primitiva). Os cristãos do primeiro século não procuravam "vestir-se bem" para atender aos encontros da igreja. Eles se reuniam na simplicidade de suas casas. Não se vestiam para mostrar a que classe pertenciam. Na realidade, os primeiros cristãos faziam esforços concretos para mostrar seu absoluto desdém pelas distinções sociais.19[19]
Na igreja, todas as distinções sociais eram apagadas. Os primeiros cristãos sabiam que eles representavam uma nova espécie sobre este planeta. Por esta razão Tiago repreende os crentes que tratam melhor os santos ricos que os pobres. Ele repreende os ricos por vestir-se diferente dos pobres.20[20]
Todavia, muitos cristãos mantêm o falso conceito de que é "irreverente" usar roupa informal no culto aos domingos. Isso não difere da atitude dos escribas e fariseus ao acusarem o Senhor e Seus discípulos de "irreverência" por não seguirem as tradições de seus antepassados.21[21]
Em suma, dizer que o Senhor espera que seu povo use roupa fina ao reunir-se na igreja, é aumentar as Escrituras e falar aquilo que Deus não disse.22[22] Tal prática é mais uma tradição humana.
O Traje do Clero
Vejamos agora o desenvolvimento das vestes clericais. O clero cristão não se vestia diferente do povo comum até a chegada de Constantino.23[23]
Contrariamente ao que pensa a opinião pública, as vestes do clero, inclusive as "vestes eclesiásticas" da tradição litúrgica da "alta igreja", não tiveram origem nas vestes sacerdotais do AT. Tiveram origem na roupa secular do mundo greco-romano.24[24]
Clemente de Alexandria (150-215 d.C.) sustentava que o clero deveria vestir roupa melhor que as pessoas comuns. Já por este tempo, a liturgia da Igreja era considerada um evento formal. Clemente disse que a roupa do ministro deveria ser "simples" e "branca".25[25]
O clero usou a cor branca por muitos séculos. Parece que tal costume foi adotado do filósofo pagão Platão que escreveu que "a cor branca era a cor dos deuses ". Nesse aspecto tanto Clemente como Tertuliano (160-225) acreditavam que o colorido não se coadunava com Deus.26[26]
Com a chegada de Constantino, a distinção entre bispo, sacerdote e diácono se arraigou.27[27] Quando Constantino transladou sua corte para Bizâncio e a renomeou Constantinopla no ano 330 d.C., gradualmente a vestidura romana oficial foi adotada pelos sacerdotes e diáconos.28[28] Agora o clero era identificado por vestir-se com a roupa dos oficiais seculares.29[29]
Depois da conquista do Império Romano pelos Alemães a partir do século IV, a moda das vestes seculares mudou. A batina enfeitada dos romanos foi substituída pela túnica curta dos Godos. O clero, desejando diferenciar-se das pessoas comuns, continuou usando as antigas e arcaicas roupas romanas.30[30]
Os clérigos usavam estas antigas vestes durante o culto da igreja seguindo o modelo do ritual da corte secular.31[31] Quando os leigos adotaram o novo estilo de roupa, o clero acreditava que tal roupa era "mundana" e "bárbara". Eles preservaram o que julgavam ser uma veste "civilizada". Foi isso que ocorreu com as vestes clericais. Esta prática foi apoiada pelos teólogos daquele tempo. Por exemplo, Jerônimo (347-420) comentou que o clero jamais deveria entrar no santuário com roupa ordinária.32[32]
Do século V em diante, os bispos usavam a cor roxa.33[33] Nos séculos VI e VII as vestes do clero tornaram-se mais detalhadas e caras.34[34] Durante a Idade Média, a roupa adquiriu significados místicos e simbólicos.35[35] Vestes especiais surgiram por volta dos séculos VI e VII. E surgiu o costume de colocar sobre a roupa comum um jogo de vestes especiais na sacristia.36[36]
Durante os séculos VII e VIII as vestes foram aceitas como objetos sagrados herdados das batinas dos sacerdotes levíticos do Velho Testamento.37[37] (Foi uma racionalização para justificar a prática). Pelo século XII o clero começou a levar a batina para a rua, o que os distinguia das pessoas comuns.38[38]
As Mudanças da Reforma
Durante a reforma, o rompimento com a tradição e as vestimentas clericais foi lento e gradual.39[39] No lugar das vestes clericais tradicionais, os reformadores adotaram a batina negra dos estudantes.40[40] Esta batina também foi conhecida como batina do filósofo, sendo que os filósofos as utilizaram durante os séculos IV e V.41[41] A nova batina foi tão predominante que chegou a ser a vestimenta do pastor protestante.42[42]
O pastor luterano usava longas vestes pretas pelas ruas. Ele também usava um ruff ao redor do pescoço [guarnição de pano franzido usada como gola dos vestuários antigos] redondo que cresceu com o tempo. Cresceu tanto que antes do século XVII foi chamado de "ruff de fábrica".43[43] (O ruff ainda é usado em algumas igrejas luteranas hoje).
Todavia, é interessante o reformador preservar as vestes clericais. O pastor protestante usava-a ao administrar a Ceia do Senhor.44[44] Este ainda é o caso hoje na maioria das denominações protestantes. O pastor coloca sua batina clerical quando levanta o pão e o cálice. Nesse momento ele revela-se ou apresenta o que ele é verdadeiramente: Um sacerdote católico reformado!
Assim, a batina do pastor reformado simboliza a autoridade espiritual. O ato de colocar a batina negra revela seu poder espiritual de ministro.45[45] Esta tendência continuou através dos séculos
XVII e XVIII. Os pastores sempre usavam uma roupa escura, de preferência negra. (Cor tradicional
para os advogados e doutores durante o século XVI. Era a cor dos "especialistas").
A cor negra prontamente chegou a ser a cor de cada ministro em cada ramo da igreja.46[46] A batina negra eventualmente evoluiu a um "sobretudo" nos anos 1940-50. A manta foi posteriormente substituída por um "traje de passeio" do século XX.47[47]
No começo do século XIX, o clero em geral usava colarinho branco e gravata. De fato, era considerado altamente indecente um clérigo aparecer sem tal colarinho.48[48] Os pastores da igreja baixa (batistas, pentecostais, etc.) usavam colarinho e gravata. Os da alta (anglicanos, episcopais, luteranos, etc.) o colarinho clerical — muitas vezes chamado "coleira de cachorro".49[49]
A origem do colarinho clerical remonta a 1865. Não foi uma invenção católica como muitos acreditavam. Foi inventado pelos Anglicanos.50[50] Tradicionalmente, os sacerdotes dos séculos
XVIII e XIX usavam batinas negras (de corpo inteiro com colarinhos) sobre vestes brancas (às
vezes chamadas por alba).
Em outras palavras, eles usavam colarinhos negros com branco no centro. O colarinho clerical era uma versão mais simples e removível do outro. Foi inventado para que sacerdotes anglicanos ou católicos pudessem colocá-lo sobre a roupa de rua e serem vistos como "homens de Deus" em qualquer lugar!
Hoje é o traje escuro com batina que funciona como a vestimenta clerical da maioria dos pastores protestantes. Muitos pastores não saem sem este traje. Muitas vezes se vestem com essa roupagem para aparecer em eventos públicos não religiosos. Alguns pastores protestantes levam o colar clerical — para que ninguém se esqueça de que ele é "um homem de Deus".
As Vestes Clericais são Nocivas?
A roupa clerical é uma afronta aos princípios espirituais que governam a casa de Deus. Atinge o coração da igreja ao separar o povo de Deus ao meio: "Profissionais" e "não-profissionais".
Como o "vestir-se bem" para ir à igreja, a roupa clerical — seja ela a elaborada roupa do ministro da "alta igreja" ou a batina negra do pastor evangélico — está arraigada na cultura mundana. A veste distintiva do clero remonta ao século IV, quando o clero adotou o costume dos oficiais seculares romanos.
O Senhor Jesus e seus discípulos não sabiam nada sobre usar uma roupa especial para impressionar a Deus ou para distinguir-se do povo de Deus.51[51] Colocar uma roupa especial com propósitos religiosos foi uma característica dos escribas e fariseus.52[52] E nem o escriba nem o fariseu puderam escapar do olhar penetrante do Senhor quando disse, "cuidado com os mestres da Lei, pois eles gostam de caminhar com batinas ornadas, de ser saudados no mercado, de ocupar assentos importantes na sinagoga e o lugar de honra nos banquetes ".53[53]
Cuidado para que nenhum homem te corrompa por filosofias e mentiras que não levam a parte alguma, por tradições e normas humanas que não vem de Cristo. - Paulo de Tarso
Notas
1[1] Denominações como a Vineyard constituem exceções. Tais neodenominações possuem um estilo de adoração típico que inclui café e bolachas antes do serviço. Shorts e Camisetas são trajes comuns nos cultos da igreja Vineyard. Das 347.000 igrejas protestantes nos Estados Unidos e das 22.200 igrejas no Canadá que perfazem 230 denominações, a maior parte da congregação "veste-se a rigor" durante as manhãs dominicais (estes números foram extraídos da revista "Religious Market" magazine-americanchurchlists@infoUSA.com). Se buscássemos o número de cristãos não-protestantes que "vestem-se a rigor" para ir à igreja, esse número seria astronômico.
Max Barsis, The CommonMan Through the Centuries (New York: Unger, 1973).
Leigh Eric Schmidt, "A Church Going People is a Dress-Loving People," ChurchHistory (58), pp. 38-39. ™ Ibid.
Em 1664 James Hargreaves inventou a "spinningjenny" [máquina de fiar primitiva] disponibilizando às massas um tecido melhor e mais colorido (Elizabeth Ewing, Everyday Dress 1650-1900, London: Bratsford, 1984, pp. 56-57). 6[6] Richard Bushman, The Refinement of America (New York: Knopf, 1992), p. 313.
7[7] Henry Warner Bowden and P.C. Kemeny, ed., American Church History: A Reader (Nashville, Abingdon Press, 1971), pp. 87-89. A roupa e a hierarquia estavam estreitamente conectadas na América colonial. Um folheto anônimo na Filadélfia em 1722 entitulado The Miraculous Power of Clothes, and Dignity of the Taylors: Being an Essay on the Words, Clothes Make Men sugeria o seguinte: O estado social, posto e poder eram expressos através da roupa. A conexão entre a roupa e a hierarquia na sociedade colonial imprimiu às roupas um poder simbólico. Tal mentalidade eventualmente contaminou a igreja cristã.
Rupert Davies, A History of the Methodist Church in Great Britain (London: Epworth, 1965), p. 193; Journals of Wesley, Nehemiah Curnock, ed. (London: Epworth Press, 1965), p. 193. O ensinamento de Wesley sobre roupas foi chamado de "evangelho da simplicidade". A mensagem principal dele era de que os cristãos deveriam vestir-se de uma forma modesta, limpa e simples. Wesley falava tão freqüentemente sobre este assunto que se atribuiu a ele a seguinte frase: "A limpeza e a santidade andam juntas". Porém, essa frase vem de um rabino (Phinehas Ben-Yair, Song ofSongs, Midrash Rabbah, I.1:9). 9[9] “A Church Going People is a Dress-Loving People," p. 40. 10[10] The Refinement of America, pp. 335, 352.
Ibid., p. 350. As denominações com um maior número de membros ricos (Episcopal, Unitariana, etc.) começaram a vender bancos a famílias ricas para arrecadar fundos para um minucioso programa de construção de igrejas. "Devido ao custo dos bancos, os adoradores tiveram que usar roupas adequadas ao esplendor do edifício e o estilo da congregação para muitos se tornou uma barreira insuperável. Um século antes um fazendeiro comum poderia vestir-se bem indo à igreja com uma camisa azul xadrez. Na atmosfera distinta das novas e luxuosas igrejas requeria-se mais do que isso". 12[12] Ibid., pp. 335, 342, 346. 13[13] Ibid., pp. 328, 331. 14[14] Ibid., p. 350.
15[15] “A Church Going People is a Dress-Loving People," p. 36.
16[16] The Refinement of America, p. 319. "Os metodistas primitivos sabiam que a roupa da moda era uma inimiga, mas agora a inimiga estava ganhando". Schmidt escreveu, "As pessoas preocupavam-se com o Sabbath... com vestir suas melhores roupas; A roupa dominical tornou-se proverbial. Até mesmo os pietistas e evangélicos que tanto insistiam na simplicidade da roupa adotaram roupas formais e "decentes" ("A Church Going People is a Dress-Loving People," p. 45).
17] Deus olha para o coração; Ele não se impressiona com o traje que usamos (1 Sam. 16:7; Lucas 11:39; 1 Pedro 3:3-5). Nossa
adoração é no espírito, não na aparência física (João 4:20-24).
18[18] Christian Smith, "Our Dressed Up Selves," Voices in the Wilderness (Sept/Oct. 1987), p. 2.
19[19] Em seu livro Ante Pacem: Archaeological Evidence of Church Life Before Constantine (Mercer University
Press/Seedsowers, 1985), Graydon Snyder afirma que há aproximadamente 30 cartas disponíveis escritas por cristãos antes de
Constantino. Estas cartas são assinadas apenas pelo primeiro nome, o que indica que os cristãos não usavam os sobrenomes dos
seus irmãos. A razão: Assim a origem social deles ocultava-se uns dos outros! (Email privado enviado por Graydon Snyder,
10/12/2001 e 10/14/2001.)
20[20] Tiago 2:1-5. Esta passagem também indica que usar roupa da moda na igreja era uma exceção, não uma regra,.
21[21] Marcos 7:1-13.
22[22] Deu. 4:2; Prov. 30:6; Apocalipse 22:18.
23[23] "Vestments," The Catholic Encyclopedia 1913 On-Line Edition (www.newadvent.org/cathen); "Sacred Rights Ceremonies:
The Concept and Forms of Ritual: Christianity," Encyclopedia Britannica (On-line edition, 1994-1998). Pouco antes
Constantino, os clérigos usavam apenas um capote de pano fino quando ministravam a Eucaristia.
24[24] "Vestments," The Catholic Encyclopedia. Em "Origin" encontramos: "As vestes clericais cristãs não se originaram na veste
sacerdotal do Velho Testamento, elas se desenvolveram inspiradas na roupa secular do mundo greco-romano". Veja também
Janet Mayo, A History ofEcclesiastical Dress (New York: Holmes & Meier Publishers, 1984), pp. 11-12. Mayo escreve, "Uma
análise do vestuário eclesiástico revelará que teve sua origem em roupas romanas seculares. A visão de que o vestuário teve
origem levítica e veio de artigos do vestuário sacerdotal judeu é uma idéia posterior...". Sobre a desconhecida história dos
costumes religiosos, veja Amelia Mott Gummere, The Quaker: A Study in Costume (New York, 1901).
25[25] "On Clothes" in The Instructor, Ante-Nicene Fathers, Vol. 2, p. 284.
26[26] “On Clothes" in The Instructor, Bk2. Ch. 11; A History ofEcclesiasticalDress, p. 15.
27[27] ^ AHistory ofEcclesiastical Dress, pp. 14-15.
28[28] Ibid., pp. 14-15; Kenneth Scott Latourette, A History of Christianity (New York: Harper and Brothers, 1953), p 211. The
Westminster Dictionary ofChurch History (Philadelphia: The Westminster Press, 1971), p. 284.
"As vestes do bispo eram idênticas à velha batina do magistrado romano". Edwin Hatch, The Organization ofthe Early Christian Churches (London: Longman's, Green, and Co., 1895), p. 164. As vestes do bispo indicavam uma estrutura de uma casta específica, e incluía um manto sudário branco trabalhado ou mappula, sandálias negras ou campagi, e meias brancas ou undones. Estas eram as vestes dos magistrados romanos. (Paul Johnson, A History of Christianity, New York: Simon & Schuster, 1976, p. 133).
Frank Senn, Christian Worship and Its Cultural Setting (Philadelphia: Fortress Press, 1983), p. 41; "Sacred Rights Ceremonies: The Concept and Forms of Ritual": Christianity," Encyclopedia Britannica (On-line edition, 1994-1998). 31[31] Email particular recebido de Eugene TeSelle, Professor de História da Igreja e Teologia, Vanderbilt University, 1/18/2000.
32[32] Jerome disse que Deus é honrado se o bispo usar uma túnica branca mais bonita que o habitual. Email particular recebido de Frank Senn 7/18/2000. Veja também Jerome, "Against Jovinianus" Book 2.34 (Nicene andPost-Nicene Fathers, Series II, Vol. VI) e "Lives of Illustrious Men," Capítulo 2 (Nicene/Post-Nicene Fathers, Series II, Vol. III). 33[33] Father Michael Collins and Matthew A. Price, The Story ofChristianity (DK Publishing, 1999), pp. 25, 65.
A Historical Approach to Evangelical Worship, pp. 116-117. Mayo's A History of Ecclesiastical Dress entra em grandes detalhes acerca do desenvolvimento de cada peça das vestes clericais em cada fase histórica e em cada tradição. Nenhuma peça importante distintiva foi usada durante os primeiros mil anos, a cinta não era conhecida até o oitavo século (A Concise Cyclopedia ofReligiousKnowledge,New York: Charles L. Webster & Company, 1890, p. 943.)
35] A History of Ecclesiastical Dress, p. 27; Isidore de Pelusium (por volta de 440 d.C.) foi o primeiro a designar interpretações simbólicas a partes do vestuário. Por volta do século VIII no Ocidente e do século IX no Oriente, cada peça do traje sacerdotal possuía um determinado significado simbólico ("Vestments," The Catholic Encyclopedia). O povo medieval venerava o simbolismo de tal forma que atribuiu a cada peça do vestuário religioso um significado "espiritual". Estes significados estão vivos até hoje nas igrejas litúrgicas.
36[36] Christian Worship andIts Cultural Setting, p. 41. A sacristia era um cômodo especial no edifício da igreja onde as vestes clericais e outros objetos sagrados ficavam guardados. 37[37] A History of Ecclesiastical Dress, p. 27. 38[38] The Story ofChristianity, pp. 25, 65.
A History of Ecclesiastical Dress, p. 64. Zwinglio e Lutero rapidamente descartaram as vestes do sacerdote católico. David D. Hall, The Faithful Shepherd(Chapel Hill: The University of North Carolina Press, 1972), p. 6.
40[40] Zwinglio foi o primeiro a introduzir a batina negra dos estudantes em Zurique no outono de 1523. Lutero a adotou na tarde de 9 de outubro de 1524 (The Ministry in Historical Perspectives, p. 147). Veja também George Marsden, The Soul of the American University: From Protestant Establishment and EstablishedNonbelief(New York: Oxford University Press, 1994), p. 37.
H.I. Marrou, A History of Education in Antiquity (New York: Sheed and Ward, 1956), p. 206. "O filósofo poderia ser reconhecido pelo capote curto e escuro feito de pano grosso". Veja também M.A. Smith, From Christ to Constantine (Downer's Grove: InterVarsity Press, 1973), p. 105.
42[42] H. Richard Niebuhr and Daniel D. Williams, The Ministry in Historical Perspectives (San Francisco: Harper and Row Publishers, 1956), p. 147. A batina preta era a "roupa clerical de rua" no século XVI (Christian Worship andIts Cultural Setting), p. 42.
43[43] Owen Chadwick, TheReformation (Penguin Books, 1968), pp. 422-423. 44[44] A History of Ecclesiastical Dress, p. 66.
American ChurchHistory: A Reader, p. 89. 46]AHistoryofEcclesiasticalDress, pp. 77-78. 47[47]Ibid., p. 118. 48[48] Ibid., p. 94. 49[49] Ibid.,pp. 94,118.
The Ministry in Historical Perspectives, p. 164. Segundo o The London Times (14 de março de 2002), o colar clerical foi inventado pelo Reverendo Dr. Donald McLeod de Glasgow. A crença popular é que o colar clerical foi inventado pela contra-reforma católica para impedir que os padres usassem os grandes ruffs usados pelos pastores protestantes (The Reformation, p. 423). Mas parece que eles vieram bastante tempo depois.
Lucas 7:25; 2 Cor. 8:9. Aparentemente a roupa mais bonita que Jesus usou enquanto esteve na terra foi motivo de zombaria — Lucas 23:11. Revelando que o Filho de Deus veio à terra, não em roupa real, mas envolto em tiras de pano (Lucas 2:7). Nota-se que João Batista foi o caso mais extremo dos que não buscavam impressionar Deus com sua roupa (Mat. 3:4). 52[52] Mat. 23:5; Marcos 12:38.
53[53] Lucas 20:46, NIV.
Capítulos anteriores
1. Liturgia
2. Cristianismo Pagão - Sermão: A vaca mais sagrada do Protestantismo
3. Cristianismo Pagão: O edifício da igreja
4. Cristianismo Pagão: Pastor
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